A CNN anunciou uma guerra civil em um país africano em 1994 entre "tribos rivais"! Nada demais. Tem sido assim e será sempre assim diriam um dos poucos telespectadores que teve conhecimento do fato. A cobertura era reduzida. A Cidade de Kigali, em Ruanda, em pouco menos de 100 dias já tinha quase um milhão de cadáveres. Com direção de Terry George, Hotel Ruanda pode nos explicar parte de como lidamos com nossos próprios conflitos aqui no Brasil.


Os Hutus e os Tutsis estavam em conflito. Assassinaram o presidente Hutu. Quem são os Hutus? Quem são os Tutsis? Um diálogo, logo no inicio do filme, nos explica: uma diferença no nariz, na altura, no cabelo etc. Teria sido uma diferença/divisão enfatizada pelos belgas – fruto da colonização e da partilha ocorrida desde o final do século XIX para operar a dominação política no país. Entretanto, ninguém consegue entender os nexos físicos e/ou culturais para justificar a "diferença" que justifica tamanho ódio racial. Após a independência frente aos belgas e, após a morte do rei Tutsis os conflitos aumentaram. A tentativa de paz pela ONU restringiu-se a enviar expedições para deportar estrangeiros europeus e exilar civis.


Paul Rusesabagina (Don Cheadle), Hutu casado com Tatiana (Sophie Okonedo) Tutsi o gerente do hotel tenta manter vivas as "duas nações" - lembram da Lista de Schindler de Spielberg? pois é ganhou diversos prêmios, já Hotel Ruanda foi indicado para vários, não ganhou nenhum. O que ainda nos torna invisíveis ao mundo? Não quero entender que Paul é um "homem bom". A possibilidade de uma paz e uma responsabilidade incondicional pelo outro ainda é a senha possível para um mundo em conflito. Entendo que Paul entendeu a lógica da dominação européia, o seu povo unido é mais importante que os interesses estrangeiros. Tem um trecho do filme, em que o hotel já se encontra com mais de mil refugiados Hutus e Tutsis e, ele dirigindo-se à sua mulher, sorrindo, especula: se os belgas souberem quem são os "ricos" hóspedes do Hotel Mille Collines!


Qual tem sido o papel das nações ricas e da ONU nos conflitos étnicos/religiosos/políticos no mundo? Em sua maioria movem-se pelos interesses dos grupos hegemônicos capitalistas que possuem algum tipo de negócio naqueles países. Os valores e aspirações ocidentais da doutrina eurocêntrica ou da pax americana hegemonizam o sentido do mundo. Por isso a morte das pessoas do WTC em N.Y., e no metrô de Londres, repercutem e tem mais comoção e significado que um milhão ruandeses!


Abaixo, reproduzo trechos de um discurso feito em 1712 por Willie Lynch, um traficante de escravos caribenho e, mais adiante, um trecho da introdução do livro Relatório Lugano de Susan George, Ed. Boitempo 2002, para que analisemos como se processa as reais e imaginárias divisões entre os seres humanos e a que elas têm se prestado:


Discurso de Willie Lynch - 1712: "Estou aqui com o intuito de ajudá-los a resolver alguns dos seus problemas com os escravos. (...) Enquanto Roma usava cruzes para erguer corpos humanos ao longo das estradas, em grande número, os senhores estão usando as árvores com forcas para o mesmo fim. (...) Eu senti o mau cheiro de um escravo morto enforcado em uma árvore a algumas milhas daqui. Os senhores não só estão perdendo uma valiosa mercadoria os enforcando, mas os senhores estão provocando levantes, escravos estão fugindo, suas colheitas muitas vezes estão ficando nos campos por mais tempo do que o necessário, prejudicando que se obtenha o melhor preço, estão sofrendo incêndios ocasionais, seus animais estão sendo mortos. (...) Tenho aqui em minha pasta um comprovado método de controle de negros escravos. Eu garanto que, se implementado corretamente, este método será capaz de controlar escravos por pelo menos 300 anos. Meu método é simples, qualquer membro da família e até o feitor pode usá-lo. Eu listei algumas diferenças existentes entre negros escravos e pego essas diferenças e as torno maiores ainda. Eu uso o medo, a desconfiança e a inveja como elementos de controle. Esse método tem funcionado em minha modesta plantação lá nas Índias do Oeste e funcionará também aqui no Sul. Leiam esta pequena lista de diferenças e pensem a respeito. No início da minha lista está a "idade", mas poderia começar com outro item. O segundo é a "cor" ou "gradação de cor", existe também a inteligência, a estatura, o sexo, o tamanho da plantação, o comportamento do senhor, se o escravo vive no vale ou na colina, se é do leste, do oeste, do norte ou do sul, se tem cabelos lisos ou crespos, ou se são altos ou baixos. Os negros escravos depois de receberem essa doutrinação deverão incorporar-se a ela e se tornarão, eles próprios, reprodutores dela por centenas de anos, talvez milhares de anos. Não se esqueçam, os senhores devem jogar um negro velho contra um negro novo e um jovem escravo contra um velho escravo. Os senhores devem usar o escravo de pele escura contra o escravo de pele clara e o escravo de pele clara contra o escravo de pele escura. Deverão também os senhores terem os seus criados e capatazes negros, implementando a desconfiança entre os negros, mas é necessário que vossos escravos confiem e dependam de vós. Eles devem amar, respeitar e confiar apenas em nós. Cavalheiros, esse conjunto de medidas são a chave do controle, usem-nas. Façam com que vossas esposas e filhos também as usem, nunca percam uma oportunidade. Meu plano é garantido, e o bom desse plano é que se usado intensamente durante um ano, os próprios escravos permanecerão eternamente desconfiados uns dos outros. Obrigado Cavalheiros."


Relatório Lugano - 2002


"(...) o recurso ficcional utilizado é uma suposta reunião de especialistas e intelectuais contratados por corporações e governos para definir o futuro do sistema. O colegiado realiza seus debates na plácida cidadezinha suíça de Lugano, ponto de pouso de milionários de todo o mundo. O diagnóstico é cru: se no século XXI o capitalismo não puder continuar a se reproduzir em condições normais ou se perder sua capacidade de reprodução, os padrões demográficos previsíveis, essas condições terão de ser alteradas". Em outras palavras, para estes think thanks da economia de mercado turbinado, com uma população mundial de 6 a 8 bilhões de habitantes, o sistema encontrará um futuro nebuloso pela frente. È preciso, pois, eliminar os excedentes. A receita é tão trágica quanto explicita: " o modelo de auschwitz é o contrário do que precisamos para atingir o objetivo. (...) A seleção das "vítimas" não deve ser responsabilidade de ninguém, senão das próprias "vítimas". Elas selecionarão a si mesmas a partir de critérios de incompetência, de inaptidão, de pobreza, de ignorância, de preguiça, de criminalidade e assim por diante; numa palavra, elas se encontrarão no grupo dos perdedores". O método é então traçado por meio do incentivo aos conflitos regionais, epidemias, quebra de regiões inteiras e catástrofes, tudo abrigado sob o carimbo de fatalidades inevitáveis.

Exibições: 268

Translation:

Publicidade

Baixe o App do Correio Nagô na Apple Store.

Correio Nagô - iN4P Inc.

Rádio ONU

Sobre

© 2019   Criado por ERIC ROBERT.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço