"O professor precisa estar atento às diferentes camadas do contexto social." Entrevista com o Prof. Richard Milner (EUA)

Prof. Milner

Por Sonia Dias 
Do Tennessee, EUA

Por ser uma sociedade formada por imigrantes, muitas pessoas consideram os Estados Unidos um melting pot, um caldeirão onde diferentes culturas se misturam. Apesar disso, a convivência entre os diferentes nem sempre foi pacífica. Exemplo disso é o movimento pelos direitos civis que nos anos 60 conseguiu reverter leis segregacionistas, como a que não permitia que negros e brancos sentassem lado a lado no ônibus ou que crianças negras e brancas frequentassem a mesma escola. 

Ultimamente, o grande contingente de imigrantes latinos e asiáticos veio reforçar a diversidade já existente na sociedade americana. O Census Bureau(órgão comparável ao IBGE brasileiro) prevê que em 2100 cerca de 40% da população americana será formada por não brancos, ou seja, latinos, afro-americanos, asiáticos e outros grupos multirraciais, muitos deles tendo como problema adicional a falta de domínio da língua inglesa. 

Incorporar esses grupos à escola tem sido um grande desafio. O professor H. Richard Milner IV trabalha com a formação de educadores, preparando-os para lidar com a diversidade nas escolas, além de coordenar o Programa de Pós-graduação em Aprendizagem, Diversidade e Estudos Urbanos, do Peabody College, na Vanderbilt University, em Nashville, Tennessee. O prof. Milner também é autor do livro Start Where You Are, but Don’t Stay There: Understanding Diversity, Opportunity Gaps, and Teaching in Today’s Classrooms (não lançado no Brasil). O título vem de um ditado africano e quer dizer: Comece onde você está, mas não fique aí, e resume bem a sua abordagem determinada, mas otimista: é preciso reconhecer os desafios e avançar, sempre.

Em entrevista concedida ao Portal Cenpec durante o intervalo entre uma visita, o atendimento aos alunos e suas aulas, ele fala sobre as diferenças de desempenho e oportunidades entre os estudantes, a importância do relacionamento entre professores e alunos e a dificuldade de alguns docentes em reconhecer as diferenças, sociais, raciais, culturais entre os alunos e a meritocracia.

capa da publicaçãoPortal Cenpec: Ao falar em diversidade em educação, o senhor costuma falar sobre diferenças de oportunidade. Como elas podem ser definidas?

Richard Milner: Para mim, diferenças de oportunidade são aquelas disparidades relacionadas ao acesso que os estudantes podem ter ou não. Assim, em comunidades abastadas e homogêneas (afluentes), onde dinheiro pode não ser um problema, podemos encontrar estudantes que não têm oportunidade de se envolver em questões ligadas à diversidade de raça, por exemplo. Ao mesmo tempo, estudantes de escolas de áreas pobres podem não ser estimulados a se dedicar aos estudos, a lidar com um currículo mais rigoroso ou não contar com os recursos tecnológicos que escolas de bairros abastados podem ter. As pesquisas que tenho realizado mostram que as oportunidades disponíveis impactam e moldam o que acontece com esses estudantes não apenas na escola, mas também fora dela. Como esses estudantes não têm as mesmas oportunidades e recursos não é justo que se espere que eles desenvolvam os mesmos resultados. Quando se fala nas avaliações, estamos focando nos resultados ou no desempenho, mas devemos focar mais nas disparidades de oportunidades existentes entre os estudantes em sala de aula, e isso nos níveis micro (sala de aula), macro (políticas educacionais) e meso, ou seja, como os distritos educacionais estão implementando as políticas que moldam o que acontece com as crianças em sala de aula. 

Portal Cenpec: E qual o papel do professor em relação ao aprendizado em sala de aula?

Richard Milner: Eu acredito que o professor é muito importante. Nunca é demais dizer o quanto um professor pode fazer a diferença na vida das crianças. Ao mesmo tempo, não podemos descontar a realidade fora da escola: a pobreza, o envolvimento da família, o desemprego, a criminalidade, etc. Acho que nos Estados Unidos nós culpamos os professores por tudo. 

Esperamos que os professores façam tudo e sejam tudo para nossas crianças. Mas a realidade é que muitos estudantes estão envolvidos com circunstâncias complexas fora da escola, o que pode dificultar a aproximação entre professor e aluno. Ao mesmo tempo, temos excelentes exemplos de professores que se relacionam bem com os alunos e conseguem envolvê-los nas aulas. Então, não sou do tipo que concorda com aqueles que acham que o professor pode fazer tudo, que ele ou ela é um super-homem ou super-mulher, mas precisamos ter em mente que os professores têm um papel fundamental quando consideramos as oportunidades educacionais das crianças e que eles precisam ter uma formação melhor – muito melhor do que a que eles tem tido atualmente.

Portal Cenpec: No seu livro o senhor apresenta uma estrutura explicativa sobre o trabalho com diversidade. O senhor poderia falar um pouco sobre isso?

Richard Milner: Procuro apresentar um resumo das várias situações em que os professores podem enfrentar a questão da diversidade e diferenças de oportunidade. Também apresento uma proposta de estrutura sobre alguns padrões dos professores em relação à diversidade que ajuda a entender os casos apresentados no livro. A primeira parte da estrutura é a importância do professor não negar a existência de diferentes raças/cores (color blindness). Os professores precisam ser encorajados a entender que raça faz diferença. Por exemplo, quando consideramos o número de alunos que são suspensos, expulsos ou enviados para a educação especial, vemos que há um exagero no número de meninos afroamericanos e latinos. Penso que o professor precisa estar atento se a sua perspectiva de ação realmente não enxerga as diferenças raciais. Quando um professor diz “eu não vejo cor, eu não vejo raça, vejo apenas alunos”, isso não é verdade. A realidade é que vemos raça e cor, mesmo sem racionalizar sobre isso. 

A segunda parte da estrutura é o reconhecimento dos conflitos culturais por parte dos professores. Costumes, preferências, valores e crenças pessoais – tudo isso tem a ver com nossa cultura e se expressa quando falo com um aluno afroamericano, latino, asiático, branco, pobre, rico ou de um determinado grupo cultural. É dinâmico. O professor precisa estar atento ao aluno ou aluna que está em sua sala de aula para que caso esses conflitos apareçam ele saiba como reagir e negociar com eles. Deve-se  considerar que os conflitos culturais podem se tornar oportunidades de aprendizagem.

A terceira parte da estrutura aborda o mito da meritocracia e a crença geral de que a conquista de determinados objetivos na vida se dá apenas por causa do mérito ou esforço pessoal. No meu entendimento, fatos para além do trabalho duro e aptidão contribuem para o sucesso das pessoas na sociedade e das crianças na escola. Muitas vezes o professor diz “eu tenho que ser durão com esses alunos que não estão indo bem, porque se eles não estão indo bem é porque não estão se esforçando o bastante”. Mas, honestamente, a maioria de nós só conseguiu ter algum sucesso na sociedade, na escola, no trabalho, porque existiram pessoas que nos deram uma chance ou nos ajudaram. Muitos do que estão em posição de sucesso hoje o fizeram porque receberam muitas possibilidades para alcançá-lo, seja por herança familiar ou acessos a determinadas oportunidades, como boa educação. Por isso, acredito que os professores precisam entender que fatores além do mérito influenciam no sucesso que a pessoa tem na sociedade. 

A quarta parte trata de reverter a baixa expectativa baseada em padrões mentais de fracasso. Alguns professores acreditam que determinadas populações de estudantes não vão conseguir ter sucesso nos estudos. Mas o mais forte indicador do desempenho acadêmico na escola é a existência de um currículo rigoroso, o nos que leva à expectativa do professor! Alguns professores acabam deixando o currículo de lado e não ensinam os estudantes com rigor. Isso prejudica os alunos e seu o sucesso escolar (e social) pode diminuir por causa disso. Por isso, temos que ajudar o professor a entender que toda criança pode aprender, e que não é porque um aluno não conseguiu ir bem em uma determinada matéria no passado ou porque ele faz parte de uma determinada população, gênero, grupo, raça ou etnia, isso não quer dizer que devemos parar de fazer todo esforço necessário para que essa criança aprenda. 

O quinto componente da estrutura é a importância do entendimento do contexto social. Algumas pessoas acreditam que para ser um bom professor é preciso apenas conhecer o seu conteúdo, como saber tudo sobre Geografia, Geometria ou Alfabetização. A meu ver e considerando a diversidade dos estudantes, o professor precisa estar atento às diferentes camadas do contexto social. Isto é, considerar que se está dando aula de Matemática ou História em um lugar especifico, para um grupo específico de alunos, com uma história específica – fatores que impactam a estrutura social e cultural e a perspectiva dos alunos em relação às suas experiências. Por isso acredito que entender o contexto social também é parte do trabalho do professor.

Portal Cenpec: O senhor costuma citar a necessidade de se destacar as potencialidades dos alunos e a importância de relacionamento entre alunos e professores. Poderia falar um pouco sobre isso?

Richard Milner: Eu acredito que o caminho do professor altamente bem-sucedido se baseia em duas coisas: primeiro, atitude mental importa. A maneira como ele pensa, suas estratégias, suas crenças sobre seus estudantes, seu material, importa muito. A ideia é que o copo está meio cheio e também meio vazio. A segunda coisa: relacionamento importa. Desenvolver um relacionamento positivo com estudantes é crítico para ser um bom professor. Tenho encontrado evidencias de que não é possível ser um bom professor de conteúdo sem conhecer os alunos. Pesquisas sugerem que alguns alunos não vão nem permitir serem ensinados por um professor a não ser que eles percebam que esse professor se sente confortável com eles e se preocupa com eles para além do que acontece em sala de aula. Da mesma forma, acredito que é fundamental que o professor entenda a situação atual do aluno e reconheça seu potencial.

Portal Cenpec: Em estudo realizado pelo Cenpec em São Paulo pesquisadores encontraram evidências que a segregação e o isolamento espacial também geram isolamento social e cultural. O senhor acredita que isso também acontece nos Estados Unidos?

Richard Milner: Ultimamente temos visto muitas escolas que estão se re-segregando nos Estados Unidos. Alguns argumentam que as escolas estão muito mais segregadas agora do que no período da segregação racial. Isso quer dizer que temos estudantes que tendem a ir a escolas e a encontrar apenas estudantes que parecem com eles mesmos. Há exceções, mas nesse caso não pode se falar em diversidade racial. Essa re-segregação significa que devemos ter uma grande concentração de grupos específicos de estudantes, o que pode dificultar o encontro e a convivência com crianças e uma perspectiva interétnica. Ao mesmo tempo, sabemos que estão em curso algumas políticas que procuram não generalizar e ajudar populações de estudantes com desempenho abaixo do esperado.




Sonia Dias, jornalista e psicóloga, assina a coluna Ideias e Conexões do Portal Cenpec. Contemplada com uma bolsa da Comissão Fulbright concedida pelo goveno norte-americano, ela escreve direto de Nashville, no Tennessee, onde desenvolve estudo na área de Educação da Universidade de Vanderbilt. Em sua coluna, compartilha o que vem sendo pesquisado e debatido sobre educação no universo acadêmico norte-americano.


Fonte - http://cenpec.org.br

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Comentário de Dilnei Severo em 12 maio 2012 às 23:41

Sempre é válido saber o acontece na maior nação do planeta em termos de educação, diversidade , etc.

Porém, aplicar estas coisas diretamente por aqui sem antes analisar a nossa realidade é pura panacéia.

Nossos professores do ensino fundamental nem de longe estão preparados para a concientização referente a diversdade, cotas ,desiguladade social, etc.

Infelizmente isto é lamentavel , pois conforme Piaget, as manifestações ocorridas na 1ª infância tem uma profunda influência para nosso comportamento pelo resto de nossas vidas. Ali é formado nosso carater.

Nós negros começamos a sofrer de baixa auto-estima desde os tempos da escola primária. Nenhum preconceito é coibido neste periodo. Então passamos a nos comportar admirando e tentando imitar ou ficar próximos dos brancos para sermos bem aceitos na sociedade.

Quanto ao nosso amor próprio? Ora, não temos modelos a seguir...então o negócio é apenas ficar admirando os padrões globais que nos são impostos.

Comentário de Maria Isabel (Isa) Soares em 11 maio 2012 às 13:12

Olá Sonia e ao portal de Correio Nagô. Agradeço profundamente que hajam compartido esta entrevista. Sou docente e concordo plenamente com seu conteúdo. Boa vida sempre e êxitos em suas tarefas.

 

Comentário de Patrícia Bernardes em 11 maio 2012 às 11:56

Agradeço em tempo a equipe do  Instituto Mídia Étnica pela excelente matéria produzida pela jornalista Sonia Dias. O conteúdo só respalda ainda mais o meu artigo informativo “Todos pela Escola!... espalhados no pátio”. O Conflito do Educador no ato de lecionar na Bahia em 2012.  Link: http://www.mutantenoticia.blogspot.com.br/2012/05/todos-pela-escola...

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