Dilma tira crucifixo do gabinete. Falta o resto do país - por Leonardo Sakamoto



A Folha de S. Paulo, deste domingo, traz a informação de que a presidenta Dilma Rousseff, em sua primeira semana de trabalho, retirou o crucifixo da parede de seu gabinete e a bíblia de sua mesa. Foi uma medida simples, mas carregada de um simbolismo que surpreende.

Defendo fortemente que o exemplo seja seguido por todos os que ocupam cargos públicos no país. Dilma afirmou ser católica durante as eleições (ok, como disse na época, eu ainda aposto que ela e José Serra são, no limite, agnósticos – mas vá lá), mas não foi eleita para representar apenas cristãos e sim cidadãos de todas as crenças – inclusive os que acreditam em nada.

A questão da retirada de crucifixos, imagens e afins de repartições públicas gerou polêmicas ao longo da história a partir do momento em que um Estado se afirma laico (e não desde o lançamento do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, como querem fazer crer o pessoal do “não li, mas não gostei”). A França retirou os símbolos religiosos de sedes de governos, tribunais e escolas públicas no final do século 19. Nossa primeira Constituição republicana já contemplava a separação entre Estado e Igreja, mas estamos 120 anos atrasados em cumprir a promessas dos legisladores de então.

Em janeiro do ano passado, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lançou uma nota em que rejeitou “a criação de ‘mecanismos para impeder a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União’, pois considera que tal medida intolerante pretende ignorar nossas raízes históricas”.

Adoro quando alguém apela para as “raízes históricas” para discutir algo. Na época, lembrei que a escravidão está em nossas raízes históricas. A sociedade patriarcal está em nossas raízes históricas. A desigualdade social estrutural está em nossas raízes históricas. A exploração irracional dos recursos naturais está em nossas raízes históricas. A submissão da mulher como reprodutora e objeto sexual está em nossas raízes históricas. As decisões de Estado serem tomadas por meia dúzia de iluminados ignorando a participação popular estão em nossas raízes históricas. Lavar a honra com sangue está em nossas raízes históricas. Caçar índios no mato está em nossas raízes históricas. E isso para falar apenas de Brasil. Até porque queimar pessoas por intolerância de pensamento está nas raízes históricas de muita gente.

Quando o ser humano consegue caminhar a ponto de ver no horizonte a possibilidade de se livrar das amarras de suas “raízes históricas”, obtendo a liberdade para acreditar ou não, fazer ou não fazer, ser o que quiser ser, instituições importantes trazem justificativas fracas como essa, que fariam São Tomás de Aquino corar de vergonha intelectual. Por outro lado, o pessoal ultraconservador tem delírios de alegria.

A ação da presidenta não foi a única. Em 2009, o Ministério Público do Piauí solicitou a retirada de símbolos religiosos dos prédios públicos, atendendo a uma representação feita por entidades da sociedade civil e o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro mandou recolher os crucifixos que adornavam o prédio e converteu a capela católica em local de culto ecumênico. Algumas dessas ações têm vida curta, mas o que importa é que percebe-se um processo em defesa de um Estado que proteja e acolha todas as religiões, mas não seja atrelado a nenhuma delas.

É necessário que se retirem adornos e referência religiosas de edifícios públicos, como o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional. Não é porque o país tem uma maioria de católicos que espíritas, judeus, muçulmanos, enfim, minorias, precisem aceitar um símbolo cristão em um espaço do Estado. Além disso, as denominações cristãs são parte interessada em várias polêmicas judiciais – de pesquisas com célula-tronco ao direito ao aborto. Se esses elementos estão escancaradamente presentes nos locais onde são tomadas as decisões sem que ninguém se mexa para retirá-las, como garantir que as decisões serão isentas?

Como já disse aqui antes, o Estado deve garantir que todas as religiões tenham liberdade para exercer seus cultos, tenham seus templos, igrejas e terreiros e ostentem seus símbolos (tem uma turma dodói da cabeça que diz que isso significaria a retirada do Cristo Redentor do morro do Corcovado – afe… por Nossa Senhora!). Mas não pode se envolver, positiva ou negativamente, em nenhuma delas. Estado é Estado. Religião é religião.

Como é difícil uma democracia respeitar suas minorias.

Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política.


Fonte: Blog do Sakamoto

http://blogdosakamoto.uol.com.br/2011/01/09/dilma-tira-crucifixo-do...

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Tags: esatdo, laico, religião

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Comentário de surama caggiano em 10 janeiro 2011 às 11:03

Achei ótimo! enfim uma presidente que com esta atitude demonstra que representa todos nós, de qualquer religião ou crença, não apenas uma em particular. Ou todas... ou nenhuma!

Comentário de Sérgio Carvalho em 10 janeiro 2011 às 10:58
só uma palavra a respeito da decisão da nossa Presidente....coerente...só isso..
Comentário de Jéssica Lagba Lagba em 10 janeiro 2011 às 10:53
Achei corretissima a postura da presidenta, espero que essa seja a primeira de muitas atitudes plausiveis dela...muito axé pra ela, pois, esse ano é tudo nosso!
Comentário de vitoria christina lelis aranha em 10 janeiro 2011 às 10:34
Quem tem poder e chegou a ele pelas vias democraticas, pode e deve tomar atititudes que sejam de interesse da coletividade. Desejo que essa nao seja a unica que tenhamos que parabeniza-la.
Comentário de Babalorixá Celso de Oxaguián em 10 janeiro 2011 às 10:24

 

As tradições de matrizes africanas agradecem... não é de hoje que este ato tem sido esperado pelos defensores da laicidade. Lembro-me da pressão gerada em torno das últimas ações na justiça brasileira e na academia, tal como na imprensa...Um Brasil para Todos pressupõe o respeito a identidade a simbologia de todos e não apenas de um grupo.Ainda falta o Supremo Tribunal Federal, o Ministério Público, os Fóruns, mas que a paciência e o diálogo gerem sabedoria e alegria para todo@ nós. Babalorixá Celso Ricardo D'Oxaguián - Sociedade Ketú Ile Asé Igbin de Ouro     

Comentário de Babalorixá Celso de Oxaguián em 10 janeiro 2011 às 10:24

 

As tradições de matrizes africanas agradecem... não é de hoje que este ato tem sido esperado pelos defensores da laicidade. Lembro-me da pressão gerada em torno das últimas ações na justiça brasileira e na academia, tal como na imprensa...Um Brasil para Todos pressupõe o respeito a identidade a simbologia de todos e não apenas de um grupo.Ainda falta o Supremo Tribunal Federal, o Ministério Público, os Fóruns, mas que a paciência e o diálogo gerem sabedoria e alegria para todo@ nós. Babalorixá Celso Ricardo D'Oxaguián - Sociedade Ketú Ile Asé Igbin de Ouro     

Comentário de rejane magna cruz amor divino em 9 janeiro 2011 às 19:18

O Estado é Laico?Nem sabia...brincadeirinhaNa nossa humilde cidade o nosso amado prefeito "retirou" um monte da  celebrações que ocorriam na nossa city como:semana santa no Dique,O coral Natalino no Pêlo etc e tal com o argumento de falta de verba,não me recordo de nenhuma manifestação em prol.Agora voltando a nossa ilustissima Presidente-o gabinete é o espaço de trabalho dela da porta pra dentro creio eu na minha santa ignorância a ornamentação fica por conta e gosto da mesma.Ou será que tem um poadrão a ser seguido?

Comentário de Paulo Rogério em 9 janeiro 2011 às 18:52

Atualização: hoje à tarde, o Planalto afirmou que o crucifixo era de Lula e foi devolvido ao dono. Coloquei no blog a info. Mas a discussão sobre a propriedade do crucifixo é indiferente - se Dilma não repor a peça. O que importa é a existência de símbolos religiosos no gabinete da Presidência da República e a sua retirada. O resto da discussão não muda. O nosso Estado continua a ser laico, mas de mentirinha. Amém.
Comentário de Juli J Silva em 9 janeiro 2011 às 17:55
Perfeita, a ação. A presidenta fez a coisa certa.
Comentário de Cilene Amorim em 9 janeiro 2011 às 17:31
Muito bom, parabéns à Presidenta!

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