12 de outubro: por que é tão ruim ser negro(a) ? - por George Oliveira

Em novembro de 2009, o Psicólogo Valter DaMata compartilhou no Correio Nagô um vídeo com trechos de uma pesquisa feita com crianças negras. Com apenas sessenta e oito segundos, essas imagens produzidas nos Estados Unidos mostram um diálogo entre um adulto e algumas crianças. DaMata comentou: “Este vídeo revela a perversidade das crenças que são veiculadas em relação a população negra”.

 

Essas imagens foram bastante comentadas nas redes sociais aqui no Brasil. Ao apresentar duas bonecas (uma negra e outra branca) e questionar quais dessas bonecas são más, feias, bonitas, (etc.) percebe-se quais são idealizadas pelas crianças de forma positiva. Nos debates acerca desse vídeo sugiram questões como autoestima, estereótipos racistas nas TV’s (desenhos animados, novelas, filmes) e livros didáticos (revistas em quadrinhos). Elementos apontados como um dos principais que promovem a autorrejeição da população negra desde a infância.

 

Um sentimento presente em quase todos os posicionamentos sobre o vídeo aqui compartilhado, e que pode ecoar como um exagero para alguns consiste em considerar que: A criança negra brasileira nasce, vive e cresce num ambiente hostil. Hostil no sentido de ser agressivo, indócil e invasivo com a construção de sua autoestima. Ao desvendar estratégias (ou a omissão) de setores que estão presentes nos primeiros anos da formação do ser humano, como é o caso da mídia, pode-se entender como o “racismo velado” age de forma tão silenciosa, cruel e devastadora com a população negra.

Veja o vídeo através do link: http://correionago.ning.com/video/teste-do-racismo-em-criancas

 

 

 

 

Adelaíde, o Racismo e as Bonecas Infantis

 

O que parece uma “condição dada” precisa ser combatido e repensado a todo momento. A luta pela visibilidade da população negra na mídia é pauta justa e emergente. Exigir um lugar digno para personagens negros sempre foi pauta das pessoas e organizações que buscam o fim das desigualdades sócio-raciais. Racistas não nascem racistas, assim como as crianças não nascem odiando sua cor ou etnia. Sobre isso, Nelson Mandela escreveu que:

 

Ninguém nasce odiando outra pessoa 
pela cor de sua pele, 
ou por sua origem, ou sua religião. 
Para odiar, as pessoas precisam aprender, 
e se elas aprendem a odiar, 
podem ser ensinadas a amar, 
pois o amor chega mais naturalmente 
ao coração humano do que o seu oposto. 
A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, 
jamais extinta.”

 

Pensar que no Brasil “já foi muito pior” e acomodar-se com os pequenos avanços não contribui para solucionar o problema. As vezes há um retrocesso como é o caso de uma personagem de um programa de TV exibido em 2012 por uma emissora brasileira. Todo sábado à noite um personagem que reúne os piores estereótipos atrelados à população negra, em especial, às mulheres negras invade milhares de lares, no Brasil e no Mundo. Ela usa roupas estranhas, tem dentes podres, nariz “que o boi pisou”, “cabelo ruim” e com aspectos de sujo.

 

Ela ainda fala errado a palavra “centavos” para arrancar um riso forçado dos telespectadores ao pedir esmolas no “Metrô”.  Casada com um homem alcoólatra e que também tem dentes estragados, a personagem ainda exibe um tablet e máquina de cartão de credito para recebimento de esmolas. Para completar a família, recentemente, surgiu sua filhinha, Britney (Brit Sprite), provavelmente uma homenagem à cantora e uma réplica em miniatura dos estereótipos racistas atrelados ao personagem-mãe. “A cara da riqueza” é um dos seus bordões e esta na boca do povo.

 

Para contribuir um pouco mais com essa discussão faz-se necessário a repetição do conceito do site Relações Raciais na Escola ao definir a autoestima como um: “Sentimento e opinião que cada pessoa tem de si mesma. É na infância, no contato com o outro, que construímos ou não a nossa autoconfiança. As experiências do racismo e da discriminação racial determinam significativamente a autoestima dos(as) adultos(as) negras e somente a reelaboração de uma nova consciência é capaz de mudar o processo cruel de uma sociedade desigual que não os(as) estimula e nem respeita.”  Ao rejeitar/odiar as bonecas negras as crianças estão negando sua própria identidade.

 

Organizações do Movimento Negro realizaram ações para que esse quadro seja retirado do ar imediatamente. Personagens como Adelaíde e seus familiares contribuem para que as imagens do Vídeo compartilhado por Damata, conforme citado na primeira parte do texto, se repitam por várias gerações. A mídia, através de uma ação massiva e racista compromete a formação da autoestima das crianças negras. Essas crianças merecem um ambiente mais sadio e sem a presença do racismo. Para que continuem brincando, cresçam afirmando sua negritude e respeitem as diferenças.

 

Dicas de livros Infantis: http://www.blogdacrianca.com/dicas-de-literatura-afro-brasileira-e-...

Frase de Nelson Mandelahttp://pensador.uol.com.br/frase/MzY0Nzkx/

Conceito de autoestima: http://www.relacoesraciaisnaescola.org.br/site/glossario.html

Zorra Total: Adelaíde (loira) apresenta criadagem (branca)http://globotv.globo.com/rede-globo/zorra-total/v/adelaide-apresent...

Fórum Permanente de Igualdade Racial divulga nota em repúdio ao programa Zorra Total: http://correionago.ning.com/profiles/blogs/forum-permanente-de-igua...

 

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George Oliveira

Economista

Militante do Movimento Negro

Mestrando do CIAGS/UFBA

 grb02003@yahoo.com.br

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Comentário de Robert Souza em 29 agosto 2016 às 9:30

Infelizmente em pleno Século XXI o racismo, o preconceito ainda estar muito vivo na cara e nas atitudes das pessoas, é obvio que essas crianças não tem nem entendimento sobre quem realmente é bonita ou feia, mais essa visão delas vem provavelmente dos país, que ensina as crianças que ser bonita, legal, ter cabelos lisos são as pessoas brancas e pessoas ruins, chatas são as pessoas negras. É triste ver isso vindo de pessoas que são negras mais não se identificam com sua própria cor.

Comentário de Magnolia Moura em 13 outubro 2012 às 8:09

Concordo com Luciana Ferreira em relação ao texto disperso, como também a atribuição da família o comportamento racista, postei um vídeo no face que fala sobre como pais transmitem preconceitos aos filhos sem saber, está em: reporteralagoas.com.br

Comentário de Instituto Mídia Étnica em 12 outubro 2012 às 20:47

Mais notícia sobre cultura negra, cidadania e direitos humanos em nosso novo portal  www.correionago.com.br

Comentário de LUCIANA FERREIRA MENEZES em 12 outubro 2012 às 15:09

Texto interessante, alguns comentários dispersos, porque o texto trata sobre muitos pontos.

1) Veja que muitos exemplos citados aqui atribuem à própria família o comportamento racista. A Televisão vende, a sociedade aceita e as famílias reproduzem para seus filhos a ideia de que existe uma cor boa e uma cor ruim.

2) Conheço uma mãe que proíbe filha de brincar com boneca branca, acho que isso é ser também racista, não? Parece uma bela resposta à indústria de brinquedos, mas tenho dúvidas sobre o que ela pretende com isso.

3) Em toda a minha vida convivi com negros, tive colegas e amigos negros do maternal até a universidade, no trabalho. Não precisei ser educada para respeitar os negros, como se eles não fizessem parte da minha realidade. Fui educada para respeitar pessoas. Então acho que o posicionamento da família deve ser pela diversidade de gênero, de cor, de opções. 

4) Quando comecei a namorar o meu marido, a tia (negra) foi enfática e preconceituosa quando afirmou que o nosso relacionamento jamais daria certo porque o sobrinho arranjou uma namorada branca. Não tenho dúvidas de que ela como mãe incutiu o preconceito na cabeça dos filhos e dos sobrinhos, que criou. Essa tia ganhou a minha simpatia de tal forma que criei muito mais laço com ela do que com a minha sogra. Ela faleceu ano passado e eu estive ao lado dela até o último dia. Feliz de mim que tive essa chance de convencê-la que eu e Joilson somos felizes.

5) Por fim, esse vídeo me cortou em pedaços! Acho que no Brasil não seria muito diferente. Mudança de comportamento dura gerações e essa responsabilidade é nossa.

Mas como sempre comento com meu amigo George. "Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é"

Comentário de Rosana Rodrigues em 11 outubro 2012 às 15:32

Esse texto me lembrou uma História, que tive a infelicidade de presenciar na minha família. Tenho uma sobrinha que hoje tem 06 anos, mas no seu quarto ano de idade, ela passou por um processo muito sério de baixa valorização da sua estima, ao rejeitar com veemência a sua cor e a sua raça.

Minha sobrinha era enfática ao dizer ''eu não sou preta, eu sou branca''. Quando ela recebia bonecas de cor preta, ela não cuidava como cuidava das outras  e dizia que aquela boneca não era dela e ela não gostava da boneca, porque ela era preta. Ao ser questionada se gostava da sua mãe, da sua vó e das suas tias que são negras, ela dizia que gostava apenas por serem da mesma família dela e não por conta da cor. 

Após várias conversas e exemplos de que ser preto não é ruim, e que ela é linda que o cabelo dela não é ruim, dentre outras reflexões, ela hoje demonstra comportamentos diferentes, não mais diferencia o tratamento dado as suas bonecas, se afirma enquanto negra quando é questionada. Da mesma forma que minha sobrinha, diversas crianças passam pela mesma situação, e percebemos isso nas pequenas atitudes, tais como colocar uma toalha na cabeça e dizer que agora o cabelo dela é lindo,  se comparar apenas as personagens brancas de olhos azuis das novelas, desenhos, dentre outro programas

 

As famílias precisam aprender, a enfatizar a beleza da criança negra,  a chamar ela de princesa, dizer que ela parece uma rainha,que seus cabelos são lindos e que ela também é linda. Isso no geral não acontece e atrelado aos programas televisivos, uma mídia racista e segregacionista, essa mesma criança cresce nesse ambiente nada harmonioso e completamente racista e passa a se achar inferior A sociedade com seu preconceito velado, continua interferindo de diversas maneiras na educação infantil e ajudando na formação de um adulto que pouco se orgulha de sua raça, e não consegue perceber os mínimos detalhes do racismo enraizado no Pais.

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Comentário de GRBO em 11 outubro 2012 às 15:12

Via Facebook: Comentário de Lalá Souza Esse texto me fez lembrar quando eu tinha mais ou menos sete anos de idade, em um período em que eu não morava com minha mãe. Eu morava com minha avó paterna, que sempre foi extremamente preconceituosa. Em um dos finais de semana que minha mãe foi me buscar, ela chegou com um presenta pra mim e para minha irmã. O presente era uma bonequinha negra de cabelinho crespo, e por sinal nós adoramos o presente , só a gente tinha aquela boneca. Quando retornamos da casa da minha mãe, e que minha vó viu a boneca, ela deu uma crise. Disse que aquilo era coisa do cão, que era horrorosa, que era coisa de macumba pelo fato de que minha mãe era do candomblé, entre outras coisas . Me recordo muito bem de tudo o que ela falou por causa da boneca . Na época não entendia o motivo de tanta agonia, por causa de uma simples boneca, que sumiu depois de três dias (ela deu fim na boneca) u.u De fato não se pode fugir dessa realidade, desse preconceito. O discriminação racial existe, e está ai gritando e berrando na cara da sociedade. Eu não tenho a cor da noite , mas minha família paterna só tem negros, sou fruto de uma mistura de negro, com branco e índio, como a metade da população brasileira. O que falta na sociedade é consciência negra. As pessoas tendo essa consciência vão poder passar para os seus filhos, netos e bisnetos , que não existe problema em ser negro, nem em gostar de bonecas negras, muito menos de assumir sua raça, sua cor. Tudo começa dentro de casa , tudo !

Comentário de eliane cavalleiro em 11 outubro 2012 às 14:31

Perfetio George! O sistema é cruel. E isso impoem a familia negra uma pratica cotidiana de critica consistente. Ha a necessidade de um estado permanete de escuta, de vigilia e de dialogo com as crancas negras. Nossa postura frente ao racismo, nossas atitudes cotidianas fazem toda a diferenca!  Abraço pra vc, Eliane Cavalleiro

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