2º parte: Entrevista Afropress sobre Plano Brasil-EUA de combate ao racismo

 

 

Dojival Vieira, jornalista responsável pelo site www.afropress.com, enviou uma série de perguntas a Paulo Rogério Nunes, diretor executivo do Instituto Mídia Étnica acerca do Plano Brasil-Estados Unidos de Combate ao Racismo. Leia, em duas partes, a íntegra das resposta.

 

 

Afropress - Como o Instituto Mídia Étnica pretende fazer a gestão desses recursos?

PRN - O recurso para criação de uma estratégia de divulgação do JAPER não pertencerá e não será gerido apenas pelo Instituto Mídia Étnica e sim a um coletivo de organizações sociais que trabalham com o tema de comunicação e combate ao racismo. Em virtude da necessidade de criação de uma estratégia de comunicação do Plano (que hoje não existe) e da disponibilidade financeira desse pequeno recurso por parte da Embaixada dos Estados Unidos, fomos convidados, junto com outros comunicadores que estavam na reunião de Atlanta, para uma encontro no qual foi solicitado uma organização “guarda-chuva” para o repasse do recurso que servirá para a criação de produtos como um portal de internet, uma publicação sobre racismo na mídia, para a qual as organizações que trabalham com o tema relatarão suas experiências, e por fim, de um pequeno recurso para um encontro entre comunicadores negros(as) dos dois países. Reforço aqui que desde o início colocamos que seria melhor que a SEPPIR e Embaixada buscasse uma organização neutra para gerir esses recursos, a exemplo das fundações acadêmicas, porém, nos foi colocado que devido ao tempo escasso, não seria possível fazer isso, já que eles estavam há menos de uma semana de encerrar o ano fiscal, daí que eles sugeriram que dentre os presentes naquela reunião apresentassem uma organização para ser repassadora. Essa informação pode ser comprovada pelos próprios órgãos supracitados.

A escolha do Mídia Étnica se deu, portanto, em virtude de sermos pontos focais do Plano desde a penúltima reunião, em Salvador, quando fomos eleitos democraticamente em plenária por reunir a capacidade de mobilizar ferramentas de comunicação – o que temos feito nos últimos cinco anos - e dominar o idioma inglês, necessário para a tradução de textos e articulação. Conforme pode ser visto no Plano de Trabalho que enviamos para Seppir/Embaixada (e cópia para o Afropress), esperamos contar com todas as organizações de comunicação negra para alimentação de conteúdo do portal e gestão desse recurso. Além disso, contaremos com nossos pontos focais estadunidenses que também compartilharam dessa estratégia.                                                                       


Afropress - Que outros projetos e qual o volume de recursos (públicos e ou privados) que o Instituto Mídia Étnica gerencia e desde quando?

PRN - O Mídia Étnica foi criado em 2005 e desde lá vem desenvolvendo uma série de projetos na área de comunicação, contando com parcerias institucionais e acadêmicas para alcançar nossos objetivos, uma vez que, financiamento para o tema racial é limitado no Brasil, e ainda mais, de comunicação. Contamos com o voluntarismo de seus membros para ações do dia-a-dia buscamos participar de editais públicos, além de contar com a parceria de outras organizações, como é o caso do CEAFRO, Instituto Pedra de Raio, Instituto Steve Biko, dentre outras. Nesse ano de 2010 movimentamos, até então, cerca de R$50 mil reais fruto de participação em edital e serviços de assessoria para outras organizações. É uma quantia modesta, porém para esse ano de 2011 estamos participando de outros editais para os nossos diversos projetos de intervenção no campo da comunicação.


Afropress - Como se deu a escolha dos pontos focais do Japer, quais critérios foram utilizados e por qual período exercerão essa condição?

PRN - A estratégia de criação de pontos focais está estabelecida desde o início do acordo. A idéia é que ativistas do movimento social possam monitorar e divulgar ações do Plano e, sobretudo, convidar outras organizações a fazerem parte da iniciativa. Os primeiros pontos focais escolhidos foram feitos os dos Estados Unidos. Só mais recentemente, em Salvador, que foram escolhidos quatro pontos focais brasileiros por meio de votação. São eles, o Altair Lira da Associação Baiana das Pessoas com Doença Falciforme; Ana José do Fórum de Mulheres Negras, Lucilene Calunga, representante da luta quilombola e nós do Instituto Mídia Étnica. Os critérios utilizados foram: 1) diversidade regional 2) capacidade de comunicação com diversos segmentos 2) domínio do idioma inglês. Na próxima reunião certamente acontecerá uma avaliação da participação dos pontos focais e consequentemente uma nova eleição para a função, que tem caráter essencialmente técnico e tático, uma vez que trata-se de um plano de governo.


Afropress - Quais são as tarefas dos pontos focais? Vocês têm se reunido? Algum programa de trabalho comum? Quais os contatos que mantém com a gestão do Programa nos EUA?

PRN - Desde outubro de 2009 até agora a SEPPIR e Embaixada somente proporcionaram dois encontros com os pontos focais. Essa é inclusive uma das grandes críticas que fazemos a esse processo, pois, sem condições objetivas de trabalho e sem o acesso a informações com antecedência não podemos realizar o trabalho de informar a sociedade civil sobre as ações desse plano de governo.

Para o início de dezembro haverá uma terceira reunião, dessa vez com outros representantes do Governo Federal para que esses se comprometam com ações concretas para esse Plano. Além disso, na próxima segunda-feira haverá o lançamento oficial de um edital público para apoio de projetos no valor de R$25 mil reais para cada proposta contemplada. Ainda não sabemos os critérios, mas temos conhecimento que será operado pela Brazil Foundation, uma organização de apoio a projetos brasileiros sediada nos Estados Unidos. Saberemos mais detalhes em breve e divulgaremos nas redes do movimento negro. Essa será uma boa oportunidade das organizações negras apresentarem seus projetos de intervenção.

Nosso contato com a gestão do programa nos EUA é limitado, uma vez que estamos sob a jurisdição da SEPPIR e do governo brasileiro. Nossa meta é conseguir antes do próximo encontro, que será realizado aqui no Brasil, ter o portal de notícias sobre o Japer no ar e criar processos de acompanhamento da sociedade civil. É preciso que todas as organizações tenham conhecimento dessa pauta e pressionem o próximo governo brasileiro para realizar ações concretas.


Afropress - Como o total de recursos era US$ 55 mil, e em face da recusa do grupo que você liderou na reunião em assumir a gestão como um Comitê Gestor, você não acha que a perda da metade desses recursos, foram consequência direta da posição de não assumir a responsabilidade pela gestão dos recursos de forma integral? Ou a intenção subreptícia do grupo era mesmo, a exclusão da presença da Afropress no Comitê Gestor proposto?

PRN - Essa colocação não procede, e as pessoas que estavam na reunião em que foi apresentada a proposta na SEPPIR, em Brasília, são testemunhas disso. Espero também que a SEPPIR confirme que o que está sendo apresentado nessa pergunta está  fora da realidade dos fatos por meio de sua ata de reunião. No referido encontro, conduzido pelo secretário Martvs Chagas (SEPPIR), com a Embaixada dos Estados Unidos, após a sugestão de criação de produtos de comunicação para o Plano, nós apresentamos a proposta de ter um conjunto de organizações de comunicação como gestoras do projeto e não apenas uma ONG, como foi a proposta do Afropress. Isso porque compreendemos que muitas instituições de comunicação podem contribuir com esse Plano e devem estar envolvidas desde o início como, só para citar algumas, as Comissões de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojiras), Portal Geledés, Irohín, CMA Hip Hop, Portal Áfricas, Revista Raça e o próprio Afropress. Porém, a proposta apresentada por vocês nos parecia o oposto, ou seja, queria apenas contar com a participação das organizações que viajaram para o encontro de Atlanta, essas escolhidas por critérios que nem mesmo conhecemos.

Não foram poucas as críticas à SEPPIR sobre a falta de comunicação daquele encontro e da divulgação dos critérios para escolha de comunicadores que efetivamente viajaram e não poderíamos concordar com isso. Nossa proposta é pública e encontra-se certamente no protocolo da SEPPIR. Lá, citamos textualmente a necessidade de ampliação desse comitê que é demasiadamente pequeno, contando certamente com a presença da Afropress que consideramos tão fundamental como todas outras organizações de comunicação que temos conhecimento e de outras que não conhecemos.

Sobre a questão de compartilhar o recurso com os pontos focais dos Estados Unidos, devo dizer que foi uma decisão tomada pela Embaixada dos EUA, partindo da idéia de que se é um plano de cooperação, seria importante que a sociedade civil estadunidense também participasse da gestão desse recurso e produzisse conteúdo em inglês. Certamente nossos colegas afro-americanos sofrem da mesma dificuldade de captação de recursos e estão compartilhando do mesmo sentimento que temos aqui no Brasil de que esse Plano possa ter êxito. Além disso, com a gestão compartilhada desse recurso, aumentaremos a transparência do processo e maior publicização das ações.


Afropress - O Correio Nagô é o veículo mantido pelo Instituto em caráter permanente? Qual a periodicidade da postagem e abrangência da cobertura feita? Qual o número de leitores conforme as estatísticas mais recentes?

PRN - O Correio Nagô  (www.correionago.com.br) é um projeto nosso criado em 2007 e financiado em sua primeira fase por meio de um edital público da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia chamado “cultura digital”. Depois desse período de financiamento, continuamos operando, por meio de ação voluntária, e que desde o ano passado opera como uma rede social para compartilhamento de conteúdo. Trata-se de uma inovação que segue as mais modernas tendências do jornalismo digital na qual qualquer cidadão tem o direito de produzir conteúdo. Sendo assim, em nossa rede, todos podem participar enviando vídeos, artigos, fotos e interagindo por meio de chat. A abrangência de nossa iniciativa é hoje internacional. Temos colaboradores de Moçambique, Angola, França, Estados Unidos, Peru, sem contar com as pessoas de diversos estados do Brasil que fazem parte dessa iniciativa, somos mais de 3 mil colaboradores. Hoje nossa média de acesso mensal está em torno de 40 mil/mês e o site cresce a cada dia por meio da divulgação entre as redes.

Leia 1º parte da entrevista:

http://correionago.ning.com/profiles/blogs/entrevista-da-afropress-...

 

Para saber mais sobre o Plano, acesse texto e vídeos publicados no
Portal Correio Nagô:http://correionago.ning.com/profiles/blogs/encontro-em-brasilia-dis...

Leia também a matéria publicada por Dojival Vieira em Afropress: http://www.afropress.com/noticiasLer.asp?id=2478 

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Comentário de Angélica Ribeiro em 20 dezembro 2010 às 1:03

Acompanho e reconheço na atuação do IME comprometimento pela causa racial, transparência e ética, que, certamente, contribuíram para que vocês fossem escolhidos como entidade a reunir parceiros, administrar os recursos e alcançar o principal objetivo: comunicar e permitir um maior diálogo entre a sociedade civil, o Governo e a Japer. Parabéns!

Angélica Ribeiro

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