A verdade nua e crua: o drama dos abortos clandestinos

Texto de Cynara Menezes

REVISTA CARTA CAPITAL |

Edição n.º 703, de 27 de junho de 2012

SEU PAÍS pág. 34

A verdade nua e crua

SAÚDE - À margem do proselitismo religioso, o drama dos abortos clandestinos


POR CYNARA MENEZES

NA PEQUENA Paulo de Fa­ria, município de 8,5 mil habitantes a 540 quilô­metros de São Paulo, a dona da casa atende ou­tra moradora da cidade, enviada por Carta Capital, através da janela. Parece ter receio e ver­gonha e não quer dar entrevista. Sua filha de 37 anos, viciada em drogas, está pres­tes a ir a júri popular na vizinha São Jo­sé do Rio Preto. O crime pelo qual Keila Rodrigues é acusada foi ter utilizado um remédio para abortar dentro das depen­dências do hospital de base da cidade, em 2006. Denunciada por uma enfermeira, foi absolvida em primeira instância, mas no início do mês o Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu submeter o caso a júri popular. Se for condenada, pode pegar de um a três anos de reclusão.

A história de Keila Rodrigues é emble­mática do tratamento que a discussão do aborto recebe no Brasil. Proibido por lei, todo mundo prefere fingir que ele não existe. Pressionados pelos religiosos, os políticos fogem do assunto como o dia­bo da cruz, sobretudo em ano eleitoral. Ao mesmo tempo, os abortos continuam a acontecer na clandestinidade e a causar mortes. Ou, como pode acontecer no jul­gamento, a levar pessoas sem anteceden­tes criminais para a cadeia.

Uma pesquisa obtida corri exclusivida­de por CartaCapital traça um retrato com­pleto de como são feitos os abortos no Bra­sil. Pela primeira vez uma revista científica brasileira, a Ciência & Saúde Coletiva, dedi­cará um número inteiro para tratar do as­sunto. A edição temática, financiada em parte pelo Ministério da Saúde, será pu­blicada em julho. Os artigos traduzem os resultados qualitativos da Pesquisa Nacio­nal do Aborto, produzida por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Brasília, que trouxe a público, em 2010, a in­formação de que uma em cada cinco bra­sileiras de até 40 anos já fez ao menos um aborto. Revelados aqui em primeira mão, os textos revelam a realidade sem hipo­crisia: o que se passa nas clínicas clandes­tinas até o atendimento na rede pública de eventuais complicações.

"Acho que este número dedicado ao aborto será um de Cytotec, e más formações no embrião, caso a tentativa seja malsucedida. Indica­do para úlcera, o Cytotec foi descoberto co­mo abortivo há muitos anos e, desde 2010, é utilizado na própria rede pública nos ca­sos autorizados legalmente ou quando o feto morre, mas continua retido no útero. "O fármaco está aprovado para uso, sendo efetivamente empregado. Do ponto de vis­ta médico, nada justifica seu banimento ou restrição do uso", defende no estudo a sani­tarista Marilena Dias Correa. "O contexto legal restritivo, no Brasil e em muitos paÍ­ses da região, é o único fator limitante."

Em outros países, como a França e o Reino Unido, onde o aborto é legal, o misoprostol é comercializado com esse fim. Em Cuba, o governo entrega o medica­mento para a mulher e ela só retoma, após o abortamento, para avaliação mé­dica. No Brasil, o que acaba por aconte­cer é que as mulheres que querem abor­tar procuram vendedores clandestinos e compram o remédio, algumas vezes fal­sificado, porque é vendido em compri­midos avulsos, fora da embalagem. Nor­malmente é o companheiro quem recebe a tarefa de providenciar o medicamen­to na "boca". Mas também é frequente a própria mulher procurar o vendedor.
 


Em uma investigação feita em Brasília, em 2006, e narrada pelas pesquisadoras, a auxiliar de um detetive particular aca­ba sendo assediada sexualmente por um vendedor. Desconfiada de estar sendo vítima do comércio ilegal de Cytotec, a pro­prietária de uma farmácia contratou o de­tetive para fazer o flagrante. A conversa do vendedor com a assistente, que se fez pas­sar por compradora, foi gravada e aparece na investigação. "Como vou aplicar isso?", pergunta a moça. "Tem de ser com o de­do. Quer que eu aplique para você? Te levo num motel, dou um trato e depois aplico", diz o vendedor. A pesquisa relata outros ca­sos, reais, em que o vendedor clandestino se oferece para ajudas similares.

No fim de maio, circulou a notícia de que o Ministério da Saúde teria a inten­ção de modificar a forma de comercializa­ção do Cytotec, tão restrito quanto os psi­cotrópicos, como parte de uma política de redução de danos para o aborto ilegal. Atu­almente, as feministas defendem que o mi­soprostol seria a forma mais eficaz, barata e segura para realizar aborto, se fosse libe­rado - mais, inclusive, que as clinicas parti­culares, caras e nem sempre seguras. Mas a assessoria de imprensa do ministério ne­gou a CartaCapital qualquer iniciativa nes­se sentido. As modificações em estudo di­riam respeito apenas ao aborto legal de anencéfalos, após aprovada a descrimina­lização pelo Supremo Tribunal Federal.

Sem qualquer orientação médica, à mer­cê dos vendedores que fazem a "prescri­ção" do medicamento, a pesquisa traz rela­tos pungentes de mulheres que praticaram o aborto clandestinamente. Uma delas é personagem de um pro­cesso judicial cujo réu é o vendedor. Em­pregada doméstica em Brasília, 34 anos, quatro filhos, decidida a não dar prosse­guimento à gravidez, comprou Cytotec, que lhe foi introduzido na vagina pelo próprio vendedor com a ajuda de uma man­gueira de plástico. A indicação do homem era de que a mangueira não fosse retirada. Após quatro dias, com dores, mas com me­do de ir ao hospital para não ser denuncia­da à polícia, a mulher acabou internada às pressas e faleceu. Causa mortis: "Falência de múltiplos órgãos, choque séptico, abor­to malsucedido".

Chocantes são os relatos de mulheres ainda mais pobres que recorrem às cha­madas "curiosas" ou "casas das abortei­ras", também conhecidas como "clínicas de fundo de quintal". Escondidos nas pe­riferias, os locais são geralmente chefiados por uma senhora de idade, descrita como "enfermeira de hospital". O que, segundo a pesquisadora Débora Diniz, sugere "que tenha conhecimentos para além dos tradi­cionais". O local onde o aborto é feito é um quarto rústico, "equipado" com sonda, lu­brificante e bacia.
 


Alguns relatos são de embrulhar o es­tômago. Fala-se na utilização de "líquidos" não especificados e até em talos de mamo­na como instrumentos para o aborto. Uma adolescente de Porto Alegre contou que a aborteira introduziu "um ferro aborti­vo, um tipo de pegador de macarrão". Ou­tra garota passou "vários dias com a sonda, que foi colocada com arame cozido, ume­decido com óleo lubrificante". Segundo a pesquisadora, foi na capital gaúcha que mais se verificaram relatos semelhantes.

Outra novidade do trabalho foi o ques­tionário sobre a prática do aborto entre prostitutas. "Por incrível que pareça, nunca se tinha feito o cruzamento entre prostitui­ção e aborto. Parece óbvio, já que uma em cada duas mulheres prostitutas abortou al­guma vez na vida. Impressionante que te­nha se demorado tanto tempo para estudar esse aspecto", afirma Débora Diniz.

Embora o estudo tenha se restringido às mulheres que praticam a prostituição em Teresina, no PiauÍ, a pesquisa traz in­formações importantes, como a frequên­cia do aborto maior à medida que a idade avança, ao contrário da população femi­nina que interrompe a gravidez em ida­des mais precoces.

O método predominantemente utilizado pelas "profissionais do sexo" para abor­tar é o mesmo das mulheres em geral, o Cytotec, mas em escala ainda maior: 68,1% das prostitutas pesquisadas infor­maram ter recorrido ao misoprostol pa­ra interromper a gravidez, ante 48% das mulheres comuns.

O número de abortos também é mais expressivo. Houve casos de prostitutas que relataram até seis abortos induzidos. "O tempo mais longo de trabalho na prostituição, que determina maior risco de exposi­ção sexual, parece se relacionar de maneira significativa com múltiplos abortos em prostitutas mais velhas", descreveu o au­tor da pesquisa em Teresina, o ginecologis­ta Alberto Madeiro.

Um dos objetos centrais da pesquisa foi avaliar tanto o atendimento pós-procedi­mento às mulheres que porventura sofre­ram complicações depois de tomar o Cytotec quanto o atendimento ao aborto legal, até então permitido somente em ca­sos de estupro. A edição especial da revis­ta científica trará três artigos sobre o tema.

No primeiro deles, a antropóloga Silvia de Zordo narra a resistência e o preconceito dos médicos ao se deparar com pacientes encaminhadas ao hospital por terem ten­tado abortar. E mesmo alguma resistência ao aborto em mulheres estupradas. Alguns médicos exigiam, por exemplo, que passas­gem por entrevista ou até pelo conselho de ética do hospital para verificar se, de fato, haviam sido vítimas de violência sexual.

A antropóloga pesquisou maternidades públicas de Salvador, na Bahia. "A maio­ria dos médicos, incluindo os jovens, fazia uma clara distinção moral entre as candi­datas ao abortamento legal- pacientes 'le­gítimas' - e as mulheres que chegavam ao hospital com um abortamento incompleto, 'clandestinas"', relata a pesquisadora. "Al­guns médicos denunciaram a atitude puni­tiva que alguns colegas ou auxiliares de en­fermagem tinham para com as pacientes que haviam induzido o aborto, o que fazia com que elas fossem 'esquecidas' e deixa­das sangrando durante horas." Eles mes­mos relataram que uma dessas mulheres "esquecidas" acabaria morrendo em outra unidade de saúde.

A maioria dos profissionais de saúde entrevistados adjetivava as mulheres po­bres que tinham muitos filhos ou as ado­lescentes que engravidavam como "irres­ponsáveis". Em relação ao aborto legal, muitas vezes o plantão inteiro do hospital se recusava a realizá-lo. "É como o jogo de peteca", disse à pesquisadora uma obste­tra que, apesar de se declarar espírita - a religião condena todos os tipos de aborto -, passou a fazer o procedimento ao dar­se conta da longa espera enfrentada pela estuprada, o que não raro acabava por vencer o prazo estabelecido pela lei, até a l2a semana de gestação.

Os médicos mais jovens atribuíram a mentalidade arcaica à formação na univer­sidade, onde não havia debate sobre o tema e, quando havia, era obscurecido pelo pen­samento conservador de alguns mestres. "Há preceptores da gente que dizem que não fazem aborto legal, que só se for em caso de risco de vida", contou à antropó­loga uma jovem ginecologista. A desinfor­mação impressiona: embora a maioria dos obstetras entrevistados tenha presenciado mortes em consequência do aborto induzi­do, apenas uma minoria sabia que o proce­dimento é a primeira causa de mortalidade materna na capital baiana.

A médica Estela de Aquino, autora de uma investigação sobre atendimento mé­dico a mulheres que abortaram em Salva­dor, Recife e São Luís, defende em seu es­tudo que a atenção ao aborto, ao menos nas três capitais investigadas, "encontra-se bem distante do que propõem as normas brasileiras e os organismos internacionais, incluindo os acordos assumidos pelo go­verno brasileiro". O mais preocupante, po­rém, não é o atendimento em si. mas a parca orientação sobre os cuidados para evitar uma gravidez futura, sobretudo em São Luís. Nas três capitais, faltou às mulheres que tiveram problemas após um aborto clandestino receber das uni­dades de saúde informações básicas so­bre métodos contraceptivos e sobre o ris­co que corriam de engravidar de novo imediatamente após o aborto.
 


Vida real
Relatos de quem fez aborto

NA "ABORTEIRA"
"Ela bota um líquido na seringa e joga lá dentro. Você começa a sentir dor como se fosse um parto. Cheguei lá uma da tarde e às nove da manhã
do dia seguinte tinha expelido a criança. Depois de 24 horas fui para o hospital fazer a curetagem, porque ficam restos dentro."
Dayane, 23 anos, fez quatro abortos com uma "curiosa"

NA CLíNICA PARTICULAR
"Eles fizeram uma coisa muito benfeita. Quando cheguei lá me trataram bem, eu chorava muito, falavam que se eu não quisesse fazer. que eles não fariam. Me deixaram muito à vontade. Eu falei que queria fazer. Contei para meu ginecologista depois. fiz vários exames e não tive problema algum."
Regiane. 24 anos, um aborto aos 19

O REMÉDIO

"Comprei Cytotec. botei dois e tomei dois. Tome dor. tome dor. fui socorrida para a maternidade. chegou lá o médico deu um toque e o comprimido veio. Ele disse: 'você tomou remédio pra abortar'. Falei que tenho o vírus HIV. que perdi uma menina com quatro meses. e o médico entendeu. porque por ele eu estava na cadeia até hoje."
Pernambucana, 24 anos

A MÉDICA
"Presenciei a situação de uma moça de 23 anos. Ela já estava gestante de umas 20 semanas. Usou 25 comprimidos de Cytotec por orientação de uma amiga, provavelmente rompeu a bolsa e ficou em casa dois, lrês dias. Veio para cá à 1 hora da tarde. só foi atendida às 6 e já estava em pré-choque séptico. Ela foi transferida à 1 da manhã, chegou na maternidade-referência e algumas horas depois morreu."
Trabalha em Salvador (BA)

O NAMORADO
"Ela tinha feito o aborto e eu vi a cena: estava lá. seminua. ensaguentada. de pé e chorando muito. e o feto ao lado. Devia ter uns 10 centímetros e dava pra ver que era um menino ... Eu nunca vi em toda a minha vida alguém tão arrependido quanto ela. o desespero dela. Disseram que foi um procedimento muito malfeito. muito feio, que poderia ter consequências."
Helder, 17 anos, sobre a namorada, de 16
 
 
Da Redação: todas as imagens que ilustram essa reportagem foram adcionadas pela equipe do Correio Nagô.

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