A AFROCONVENIÊNCIA NO BRASIL, por George Oliveira


 Um email enviado por um amigo com a seguinte matéria: “Candidato de pele branca é aprovado por cotas raciais na 1ª fase do Itamaraty ”chamou a atenção para uma passagem que tinha lido há pouco tempo do livro “Escrevo o que eu quero”. Este livro reúne uma série de panfletos do líder negro Steve Biko, assassinado brutalmente pela polícia racista do apartheid sul-africano em 12 de setembro de 1977.

No primeiro panfleto intitulado: “Alma negra em pele branca” Biko fala sobre a convivência interracial e como os brancos liberais neutralizam a luta negra. Ele revela que: “não importa o que um branco faça, a cor da sua pele – seu passaporte para o privilégio – sempre o colocará quilômetros a frente do negro.”. Embora fale de um “outro lugar”, outra época e outro país, percebemos privilégios que muito se assemelham aos descritos por Biko em nosso país.

Definir quem é negro ou negra no Brasil é sempre uma polêmica. Constantemente nos deparamos com argumentos que buscam defender que somos todos humanos e que não existem raça. Do ponto de vista biológico esse argumento é válido, mas no campo social percebemos o quanto a pigmentação segmenta os grupos por conta de fenótipos (cor da pele, cabelo e outras características físicas). A autodeclaração é questionada e tentam, sem êxito, ridicularizar o debate racial.

Uma ambigüidade surge no debate: se há uma dificuldade em determinar quem é negro/a basta perguntar para um policial, segurança de shopping ou de agência bancária. Com certeza detém de algum método infalível que os motiva a uma ação ou omissão na profissão que desempenham. Por isso, a população negra é vítima de inúmeras violações de diretos (racismo) e essa mesma população é invisibilizada quando as ações afirmativas (reparatórias) estão questão.  

Amparado nessa flexibilidade e particularidade da definição através da autodeclaração, surge a afroconveniência, que consiste em afirmar/negar a raça/etnia de forma bastante conveniente e oportunista. Ouso distribuir os adeptos da afroconveniência em dois grupo:

O primeiro deles formados por negros e negras que assumem (pelo menos publicamente) sua negritude “apenas” em detrimento de privilégios. As vezes isso os possibilita assumir cargos e vagas, buscar força e reconhecimento perante a população negra, votos e apoios. Algumas vezes também são levados por modismos e as modificações limitam-se apenas a estética. O que difere da definição de consciência negra descrita por Steve Biko: “Ser negro não é questão de pigmentação, mas o reflexo de uma atitude mental”.  

O segundo grupo é formado pelos brancos. Por mais que argumentem que tiveram um bisavô negro ou que a definição deveria ser através de exames de DNA, quando nos referimos aos brancos levamos em consideração fatores do fenótipo. Ser branco no Brasil garante os privilégios similares aos que Biko chama de “passaporte, mas declarar-se negro permite o acesso a uma parte do bolo que historicamente foram detentores e agora vêem sendo repartida através das ações afirmativas.

O mais cruel é perceber que as pessoas que estão neste segundo grupo, além dos privilégios “naturalizados” pelo racismo, ainda ocupam as vagas oriundas das ações afirmativas. São duplamente beneficiadas: por serem brancos e por autodeclararem negra.

Onde estaria a falha: nas ações afirmativas ou no desvio de caráter de pessoas com atitudes oportunistas?  

Veja a matéria: http://oglobo.globo.com/educacao/candidato-de-pele-branca-aprovado-...

Imagens: http://www.corbisimages.com

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George Oliveira

Economista

Militante do Movimento Negro

Mestrando do CIAGS/UFBA

grbo2003@yahoo.com.br

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Comentário de Paulo Cunha em 15 setembro 2013 às 19:12

No manual do recenseador, os termos branco, preto e pardo são categorias cravadas com base na cor, mas amarelo e indígena são termos ligados à etnia.

Amarelo é, segundo o manual, uma categoria aplicada às pessoas de origem oriental: japonesa, chinesa, coreana, etc. E indígena é tanto para os indígenas que vivem nas reservas como para os que vivem fora delas. Temos assim três classificações de cor, e outras duas são classificações étnicas.

Muitos brancos podem até possuir alguma ascendência africana, mas sendo longínqua, distante de sua geração, não há porque se identificarem como negros pois são predominantemente eurodescendentes.

Mas quando o cidadão se identifica com a cor "pardo", fica óbvio que ele é negro, que faz parte da população negra, a menos que seja um "pardo" de ascendência predominantemente indígena. Porém, olhando para a foto do Mathias, não tenho dúvida que se trata de mais um caso de AFROCONVENIÊNCIA, um branco que, se tiver alguma ascendência africana, ela está tão distante de sua geração que nem se manifestou em seu fenótipo.

Comentário de Instituto Mídia Étnica em 11 setembro 2013 às 22:57

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