"A Avenida é dos blocos negros", por André Santana

Desfile do Afródromo, neste domingo, deixou uma pergunta: pra que novo circuito no comércio?

Ontem, 10/02, foi dado início a mais uma onda de africanização do Carnaval de Salvador (é, porque a resistência em aceitar as heranças africanas como as bases sólidas da nossa cultura são tantas que são necessárias várias ondas). O desfile do Afródromo trouxe para a passarela do Campo Grande (com justiça, nomeada Nelson Maleiro), os mantenedores das tradições, criadores dos ritmos, decoradores das nossas belezas, e alimentadores das nossas reais alegrias.

Brown comandou um belo desfile na manhã deste domingo, reunindo blocos afro e afoxés, desde os mais midiáticos como Ilê Aiyê e Filhos de Gandhy até os ainda não descobertos pelas oportunistas estrelas do axé music, como Arca do Axé, Bankoma e Mundo Negro. Todos lindos e completos em suas performances, em roupas, fantasias, danças, cantos e tambores. Muitos tambores, como ferramentas poderosas do nosso discurso de alegria como resistência à opressão, festa como sobrevivência frente ao extermínio. Apesar de tudo, “estamos vivos”, confirmam os tambores.

O desfile do Afródromo pelo Campo Grande, seguindo pela Avenida Sete em direção à Praça Castro Alves, provou que não precisamos de um novo circuito destinado à ‘guetificar’ ainda mais os blocos de matriz africana. Ainda bem que a proposta inicial, de realizar três dias de desfiles no Comércio, não foi possível para este ano, forçando a realização do espetáculo deste domingo.

Foto - Mauro Akin Nassor

Criar outro circuito é ir contra uma lógica que foi se engendrando na dinâmica do carnaval: o luxuoso circuito da Orla é dominado por artistas e foliões unidos economicamente e epidermicamente, que são os mesmos que ocupam aquela faixa próxima ao mar o ano inteiro, na baixa ou alta estação, para morar, trabalhar ou se divertir. São os que querem e podem ficar separados da gente do lugar, por cordas ou camarotes. Aquele “festival de verão a céu aberto” poderia ser em qualquer lugar do mundo. Bom que seja aqui, na nossa cidade. Já o Circuito do Centro reúne os que por aqui vivem, travam suas batalhas cotidianas e atraem todos aqueles que querem chegar perto da realidade soteropolitana, experimentar suas contradições e seu modo de viver a desigualdade, traço nacional. Por isso é no Centro da Cidade que as entidades negras devem estar. Aqui está o carnaval da tradição, das memórias populares, da criação e construção dessa grande festa e da renovação para que ela continue viva e forte. Nossa identidade está nessas ruas e becos que contam nossa história: Cabeça, Forca, Faísca, Aflitos, Maria Paz, Piedade, Dois de Julho, Paraíso, Rui Barbosa, Tesouro, Chile, ufa, é tudo nosso. É aqui que queremos brincar.    

 

Muito suor e lágrimas foram derramados para termos direitos a pisar nesse espaço. O Ilê ousou desfilar nestas ruas, em 1975, muitos outros negros e negras tiveram a mesma coragem antes e depois do Ilê. Desistir de lutar por uma participação respeitosa, no circuito Osmar, é retrocesso. Custou muito chegar ‘à cidade’, descer para o Comércio é desistir do páreo. O que precisamos é de respeito com essas entidades, rediscutir horários, financiamentos e exigências de profissionalismo à altura do crescimento da festa.  

Esse é o debate que deve ser travado: igualdade e respeito no disputado desfile da Avenida. Caso contrário, vamos descer e continuaremos coadjuvantes. Ou não foi um sinal o fato domingo Brown desfilar à frente, com poderoso trio, obsessivo assédio midiático e confuso discurso de miscigenação e, lá no fundo, virem os negros e seus tambores. Vamos celebrar o Afródromo, mas se ele realmente nos trouxer o protagonismo da festa no lugar onde historicamente ela acontece, que é o mesmo espaço de circulação e ocupação dos negros dessa cidade, o ano todo. Se é no centro que travamos nossas batalhas, é nele que demos celebrar nossas vitórias.  

André Santana é jornalista e mestre em Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia. É co-fundador do Instituto Mídia Étnica e do Portal Correio Nagô.

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Comentário de Flavio M Oliveira em 16 fevereiro 2013 às 9:45

O discurso de miscigenação de Carlinhos Brown é irresponsável porque alimenta a fantasia de negros e negras que desejam "limpar" suas futuras gerações através da miscigenação. Conforme disse o Alê Maia, é esse desejo que povoa o imaginário popular... Muita gente pode achar ultrapassado falar de um projeto racista do início do século XX, mas essa apologia à miscigenação que ainda existe no Brasil de hoje é o resultado daquilo que foi plantado lá no passado, e cujo objetivo sempre foi a eliminação dos negros e de nossa identidade. Eis uma frase que encontrei na internet e com a qual estou de pleno acordo: "As classes dominantes fazem questão de preservar a sua ascendência européia mas incentivam o povão a tornar-se cada vez mais miscigenado. Preservam sua identidade étnica, mas tentam acabar com a nossa identidade negra."

Comentário de Negro Rai Torransu em 15 fevereiro 2013 às 10:57

Fui e continuo sendo contra este novo percurso do Comércio. Participei do desfile do Afródromo no domingo de Carnaval e vi de perto a reação das pessoas na rua, que ficaram entre emocionadas e perplexas diante daquela grandiosa manifestação iluminada pelo sol do verão soteropolitano. Acostumadas a assistir o afro na penumbra, muitas choravam, vibravam ou simplesmente incorporavam- se ao cortejo, enfrentando conosco em nossas indumentárias ricas em tecido, o calor inclemente do meado do dia. Indubitavelmente, o circuito da Avenida nos pertence, assim como a cidade do Salvador nos pertence, como também nos pertence a luz do dia para que possamos dividir com nossa população grandemente negra o orgulho da nossa rica herança.

Pela manutenção do Afródromo no Circuito Osmar!!!

Comentário de Gilson Rego em 13 fevereiro 2013 às 12:58

O carnaval de rua era apenas da maioria negra e dos pobres em todas as cidades brasileiras. Até inicio  da década de 70 as elites e classe média costumavam fazer seu   carnaval fechado nos clubes e associações, justamente para não se misturarem com os carnavalescos de rua. Inclusive a participação dos negros, nestes espaços era totalmente proibidas. Ai blocos afro, afoxés, batucadas, em Salvador, incrementava  o carnaval de rua dando visibilidade,  chamando a atenção de pessoas no mundo inteiro por ser de participação popular, portanto de inclusão. Então, os ditos” únicos bonitos” passaram a usar as ruas também , mas com cordas, empurrando a todos os que estivessem na frente, se apropriando dos espaços públicos, deixando muito evidente a seguinte mensagem: Saiam da rua que nós, os brancos, queremos brincar o nosso carnaval. A partir do processo de segregação e discriminação, empurraram as entidades carnavalescas populares a apenas desfilarem a noite, com pouca ou nenhuma cobertura midiática. Inventaram um pai para ritimos executados pelas agremiações populares, desde o século XVI, quando os primeiros negros chegaram às Américas como escravizados. Este  mesmo “pai?” do estilo musical chamado axé cantou por décadas “ nega do cabelo duro que não gosta de pentear” . E agora os negros são expulsos dos circuitos nos quais a cobertura midiática está mais concentrada, rumo a outro circuito. Estes circuitos tradicionais também podem ser identificados como, locais  nos quais está a maior concentração de  pessoas brancas, principalmente dos estados do Rio, Minas,S. Paulo e Brasilia que segundo avaliações de pesquisas já somam os 75% dos integrantes dos blocos carnavalescos de Salvador, classificados pela mídia baiana como de “gente bonita”. Logo, a lógica do racismo trabalha no sentido de retirar os negros dos espaços para a chegada desta parcela de brancos, principalmente dos outros estados. Percebe-se então que da maneira como age o branqueamento e consequentemente a expulsão de negras(os) , provavelmente   acontecerá o seguinte. As populações deste novo circuito vão criar novos formatos  de se fazer carnaval, atraindo a atenção de inúmeros setores, criando visibilidade  internacional, desenvolvendo um carnaval democrático. Então ,no futuro, novamente os brancos se apossarão dos espaços e mais uma vez os negros estarão sendo expulsos, talvez já tentando desenvolver carnaval pelo subúrbio, plataforma, paripe   etc, tal qual o processo  das escolas de samba  e (pasmem)! Idem para  as religiões de matriz africana, cuja boa parcela das lideranças, inclusive dos candomblés, ja são brancas e os negros tem sido empurrados para outras religiões. Portanto, percebe-se que, enquanto negras(os) continuarem se colocando como os únicos bons e os mais democráticos de todos os grupos sociais brasileiros, o resultado será sempre a expulsão dos espaços e a marginalização social acrescidos de uma coisificação e marginalização deste segmento. Assim se faz necessário uma  séria discussão acerca desta temática. Se realmente é uma vitória ou uma grande derrota.

Comentário de carlos alberto ramos santos em 12 fevereiro 2013 às 23:08

Hoje é manhã de carnaval (ao esplendor)
As escolas vão desfilar (garbosamente)
Aquela gente de cor com a imponência de um rei, vai pisar na passarela (salve a Portela)
Vamos esquecer os desenganos (que passamos)
Viver alegria que sonhamos (durante o ano)
Damos o nosso coração, alegria e amor a todos sem distinção de cor
Mas depois da ilusão, coitado
Negro volta ao humilde barracão
Negro acorda é hora de acordar
Não negue a raça
Torne toda manhã dia de graça
Negro não se humilhe nem humilhe a ninguém
Todas as raças já foram escravas também
E deixa de ser rei só na folia e faça da sua Maria uma rainha todos os dias
E cante o samba na universidade
E verás que seu filho será príncipe de verdade
Aí então jamais tu voltarás ao barracão

Musica- dia de graça

Compositor. candéia

Comentário de LAZARO JOSE DE JESUS DA SILVA em 12 fevereiro 2013 às 18:29

André feliz colocação,chega de desmandos não devemos regredir, uma simples pergunta quantos blocos e afoxés podem desfilar ou desfilam no circuito barra/ondina que não faz parte da central do carnaval,e das produtoras dos olhos azuis.

Temos os horários dos blocos na avenida,e que não se cumpre,pois a grande dificuldade dos patrocinios,aos afros e afoxés, além de que deveria ser proibido os trios que desfilam a tarde após completar o desfile deixam suas gigantescas fortalezas de aço os carros de apoio parados criando dificuldade para os que vem a noite, afros e afoxés.

Romperam-se os grilhões da escravidão mas na pratica está longe devemos lutar sempre, vejam que a mídia deu destaque por ser BROWN a MUDANÇA DO GARCIA já faz o movimento a quanto tempo e são reprimidos sem dar-se o mesmo destaque,

Vejam a Lavagem do Bonfim como éles fizeram, Cais Dourado, Enxaguada,e ETC.

Render-se nunca retroceder jamais valorização e respeito a cultura já.

guzzafrombepe7@gmail.com

Comentário de Lorena Morais em 12 fevereiro 2013 às 13:39

André, faço minha as suas palavras. Levar este Afrodromo para a cidade baixa é regressar. É voltar ao período colonial em que a comunidade negra e pobre era separada da elite branca e rica. Negros na cidade baixa e brancos da cidade alta. O que vemos hoje no Carnaval de Salvador é o retrato da realidade econômica e social que vivemos. No Circuito Barra Ondina estão os bloco mais caros, dos artistas mais caros e aclamados pela Indústria Cultural. Estão os camarotes mais requisitados, a mídia nacional. É um carnaval que reprime, que separa por cordas quem pode e quem não pode. O Afródromo na Cidade Baixa é um tiro no pé. É fazer na verdade o que a elite quer: separar ricos e pobres, separar brancos e negros.

Sou totalmente contra a esta criação. E digo mais: nós já temos o nosso lugar! A avenidade é nossa! Nós que batalhamos todos os dias, subindo e descendo para levar para casa o pão de cada dia. Nada como fazer a festa no lugar que nós fazemos crescer. É tudo nosso!

Comentário de marcus maia em 12 fevereiro 2013 às 10:26

Estava no campo grande logo apos deixar o pelourinho onde estava a serviço da saltur fui pra la ver o carnaval e nenhum momento tive o acesso negado ressalto assim como eu que estava com a camisa e o crachá da saltur outras pessoas tiveram o acesso livre a passarela do c. grande. o qual eu parabenizo a organização do carnaval.o ocorrido foi que encontrei o meu esposo no c.grande e fomos atras do bloco ile estava tudo lindo ate chegarmos na av. sete estava ao lado da corda houve um grande tumulto pedir ao cordeiro pra passar pro outro lado ao tentar atravessar por dentro do ile eu e meu esposo fomos empurrados por o diretor do ile senhor macale, conhecemos ele de tanto ter saído no bloco esse ano não sairmos por motivo de trabalho.como cidada tenho direito de ir e vim mim sentir constrangida ao ter esse direito violado.gostaria de informar a minha indignação pela falta de edução violência. alves.lucineide2012@bol.com.br  

Comentário de Aline Silva em 12 fevereiro 2013 às 10:21

Desculpem em não opinar sobre o discurso de miscigenação do Brown, é que eu não assisti esse discurso. 

Comentário de Aline Silva em 12 fevereiro 2013 às 10:19

 não concordo, empurrar para um guetho seria levar os blocos afros à invisibilidade e não é essa a proposta dele, muito pelo contrário o circuito do comércio seria exclusivo para os desfiles do blocos afros e os turistas vindo de navios já cairiam nos camarotes em frente ao circuito onde os blocos iriam desfilar, os blocos teriam visibilidade mundial e ainda desbancariam os outros blocos, pq um dia todo mundo cansa só de cachaça, briga e empurra, empurra e busca algo de útil na vida e na diversão e é isso que os blocos afro iriam mostrar no comércio CULTURA NEGRA, HISTÓRIA NEGRA, e isso seria levado para o mundo que iria inclusive mudar sua visão do Brasil e cada vez mais iria querer vir ver nosso espetáculo, nossa história. Quanto a mim preferiria mil vezes ir a um espaço só para os meus, poder assistir de perto algo de útil para minha vida e para meu povo, feito pelo meu povo do que continuar vendo os blocos afros brigando com OS MERCENÁRIOS DE PLANTÃO POR LUGAR NA FILA já sabemos onde isso dá, deixa eles acharem que mandam pq têm mais dinheiro, deixa eles acharem que são os bambambam sair de cena e desistir de uma batalha, não significa fraqueza e muito menos que desistimos da luta, não foi assim quando criamos nossa própria música, nossa própria revista, nossa própria rádio, tv pela net, os rappers não têm seus próprios estúdioos??? então??? pq não nosso próprio circuito no mesmo horário que o deles, tenho certeza que do jeito que anda o carnaval anti-cultura eles morrem rapidinho ... agora dentro da proposta do Brown do circuito do comércio existem muitas outras questões a serem discutidas e resolvidas, como transporte, espaço para o povo da cidade e etc e tal... Se for para os blocos afros continuarem com a mesma essência, regras, e sua raiz sou totalmente a favor. 

Comentário de Alexandre Lopes Tomé em 11 fevereiro 2013 às 22:31

Não conheço o projeto em seus detalhes. Todavia, é fato histórico que alguns de nós se contentam com as migalhas que caem das mesas fartas da casa grande e fazem disso um projeto de felicidade. Espero, sinceramente, que não seja esse o caso.

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