Enquanto as economias desenvolvidas patinam, a maioria dos países africanos cresce em ritmo indiano 

Há alguns anos, os países africanos vêm crescendo bem acima da média mundial. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima incremento de 6,1% em média das economias subsaarianas em 2014. Essa taxa aumenta se excluída a África do Sul, que representa mais de um terço da economia da região, mas enfrenta uma recessão. Refazendo-se da Primavera Árabe, o norte do continente promete contribuir com o crescimento. O Banco Mundial prevê elevação média de 5% entre 2013 e 2015 para o conjunto da economia continental, ritmo superior ao brasileiro, equiparável ao indiano e abaixo apenas do chinês. E uma vez que o ritmo desses emergente diminui, países como Angola detém todas as condições para liderar o crescimento mundial.

Obras na baía de Luanda em 2011. Foto: Skytrax

A maioria dos países africanos está colhendo os frutos das pacificações, que trouxeram segurança jurídica, afastaram parte do financiamento de guerras e aproximaram o investimento em infraestrutura. Tais conquistas decorrem de anos de resistência à divisão artificial do continente pelas potências neocolonialistas, que criou as condições ideais para que traficantes transnacionais fomentassem as guerras internas pela exploração dos recursos naturais. Onde havia instituições, governos golpistas e corruptos eram sustentados pelas nações desenvolvidas em troca do domínio de suas empresas sobre os negócios locais. Essas mesmas empresas ainda administram setores essenciais das ex-colônicas, mas uma parte substancial do benefício da exploração econômica já fica nos próprios países.

Além disso, a recuperação econômica significa a abertura de um amplo mercado consumidor, o que atrai o interesse de outros players do mercado – especialmente asiáticos e latino-americanos. Contrariando a premissa de que o dinheiro procura o caminho dos países desenvolvidos em tempos de crise, o investimento externo bate recorde em parcela considerável das economias do continente africano.

Com o crescimento, vem a inflação, especialmente nas grandes cidades africanas. Entretanto, ela não assusta. Diferente do Brasil, onde os interesses rentistas dominam as análises, países com Argentina, Venezuela e Índia crescem com inflação, consequência do ímpeto consumidor para garantir cada vez maior pujança do mercado interno, atraindo investidores e diversificando a economia.

É esse o modelo adotado em Angola, por exemplo. O dinheiro do petróleo é usado na infraestrutura econômica e urbana, como os investimentos em transportes. Recentemente, o FMI reavaliou a previsão de crescimento de Angola, de 5,5% para 6,2%, com inflação alta, mas sob controle.

O dinamismo está concentrado no petróleo e minérios e no boom urbano, mas a maioria da população pobre sobrevive da agricultura. Esse é o principal motivo apontado pelo Banco Mundial para a dificuldade de compatibilizar a nova fase da economia com o desenvolvimento social. Os indicadores sociais estão melhorando, mas alterar o quadro de pobreza histórico demandaria crescer mais e persistentemente. E também a construção de um estado de bem-estar social, para não repetir o desenvolvimento desigual dos EUA.

Com base nisso, muitas análises contrabalançam o crescimento econômico com a dificuldade de retirar a maioria da população da pobreza. Mas essa é a mesma limitação dos demais países emergentes. A China não recebe mais críticas por sustentar seu crescimento às custas de uma mão de obra precarizada e sufocar uma população rural empobrecida. O questionamento dos limites do crescimento econômico africano é importante, mas não para desmerecê-lo.

Outras análises parecem creditar o boom africano à chegada das relações propriamente capitalistas, a exemplo da reportagem especial da revista inglesa The Economist em abril. Mas as relações anteriores também eram capitalistas, e garantiram o financiamento do desenvolvimento da Europa e dos EUA.

Já a imprensa nacional ignora o fenômeno. Acostumada a conhecer a sua própria história como consequência da decisões do colonizador, agora é incapaz de interpretá-la sem a lupa dos antigos senhores.

Já as empresas sabem que a nova fase do continente africano oferece muitas oportunidades. A presença de empreendimentos com bandeira brasileira é intensa, de construtoras a igrejas evangélicas.

O governo tem participado ampliando a cooperação econômica e diplomática nos últimos anos, parte da política de diversificação das transações comerciais brasileiras. Junto com a demanda chinesa e indiana por matérias-primas, o Brasil ajudou a compensar o impacto negativo da crise dos países desenvolvidos na África.

Os bancos públicos, indutores do crescimento nacional, financiam diversos empreendimentos com participação de empresas brasileiras. E o Brasil está interessado em intensificar essas iniciativas. O BNDES anunciou no final de abril que abrirá uma diretoria específica para a África, junto com a América Latina e o Caribe. 

Nilton Luz é estudante de Economia e escreve para o Correio Nagô na seção LGBT.

Exibições: 849

Comentar

Você precisa ser um membro de Correio Nagô para adicionar comentários!

Entrar em Correio Nagô

Comentário de Elisabete B.Pereira em 4 maio 2013 às 10:06

Grande vitória... Uhu!!!!!!!!!!!

Comentário de Nilton Luz em 3 maio 2013 às 12:01

Valeu, Paulo Rogério. Tinha lido seu texto há algumas semanas. Reli agora e vejo o quanto as opiniões estão sintonizadas, embora naturalmente sua análise seja mais rica e aprofundada.

Comentário de Paulo Rogério em 3 maio 2013 às 10:54

Nilton, parabéns pelo texto. Apesar das contradições políticas do continente africano, sobretudo o alto número de governos autoritários e violadores de direitos humanos, há um novo momento econômico no continente que dá um pouco de esperança para um continente que sempre foi visto como sem chances de disputar no cenário internacional, apesar da riqueza natural que surpreende. O continente africano nunca foi pobre, ao contrário, a colonização e o neocolonialismo são de verdade o câncer que vem impedindo o pleno desenvolvimento de 900 milhões de pessoas que vivem em África! Queria compartilhar com vocês um texto que fiz  ano passado sobre a 19a Assembléia da União Africana na Etiópia e publiquei aqui no Correio Nagô, onde comento sobre essa questão econômica africana. http://correionago.ning.com/profiles/blogs/os-desafios-da-uniao-afr...

Translation:

Publicidade

Baixe o App do Correio Nagô na Apple Store.

Correio Nagô - iN4P Inc.

Rádio ONU

Sobre

© 2021   Criado por ERIC ROBERT.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço