A GENTE NÃO QUER SÓ A MÍDIA

Há uns quinze anos, quando eu morava em Aracaju, entrei numa loja dos Supermercados G. Barbosa e logo na entrada dei de cara com uma instalação de campanha do Dia dos Pais. Havia três manequins vestidos em estilo social, casual e esportivo, um cartaz com uma frase alusiva ao dia comemorativo e incentivando a compra. Os três manequins eram brancos, não me parecia que a maioria dos pais sergipanos estivessem ali representados.

Hoje, aqui em Salvador, minha cidade natal, saio nas ruas e vejo os painéis de propaganda nas traseiras dos ônibus exibindo peças de faculdades sempre com modelos negros ou pardos. De igual forma os cartazes de publicidade do governo. É, parece que evoluímos, pois finalmente numa região do país onde a população negra é bastante numerosa começamos a nos ver na mídia. No afã de parecerem politicamente corretas, de fazer “uma média” como dizem os antigos, ou de pagar pau, como dizem os jovens, as empresas agora colocam negros em tudo que é propaganda. Esta nova realidade traz, pelo menos duas vantagens para os negros. A primeira e mais específica é que os modelos negros ampliam sua fatia de participação no mercado e, por conseguinte, sua renda. A segunda, e mais abrangente, é que a mídia está ajudando a desconstruir a visão discriminatória de que o negro era inferior e que não era bonito, portanto não poderia aparecer em peças publicitárias. Felizmente esta situação mudou e agora está tudo bem. Não, não está tudo bem , eu já vi esse filme acontecer nos EUA, achei que estava tudo bem, depois descobri que não é bem assim. Eu vou explicar essa história nos mínimos detalhes. Voltando nosso olhar em direção aos EUA, de 40 anos atrás, tinha um filme chamado “Ao Mestre com Carinho” com o ator negro, Sidney Poitier, que era um galã por quem muitas adolescente suspiravam. Depois vieram outros astros negros tais como Richard Roundtree, Eddie Murphy, Will Smith, Whoopi Goldberg, Wesley Snipes, Denzel Washington. Na música havia Diana Ross, Tina Turner, George Benson, Whitney Houston, Donna Summer, Lionel Ritchie, Stevie Wonder e Michael Jackson que abriram espaço para Tracy Chapman, Beyoncé, Alicia Keys, Akon, Neyo e por aí vai. Hoje, a gente liga a TV e vê seriados como “Todo Mundo Odeia o Chris”, protagonizado por um ator negro e também “Eu, a Patroa e as Crianças” que gira em torno do dia-a-dia de uma família de negros. Na política, antes de Hillary Clinton, a secretária de estado americana era Condoleezza Rice que havia sucedido a Colin Powell, ambos negros. Observando todo esse panorama dos EUA eu achava que a situação de desigualdade estava bem mais resolvida. Só que quando eu conversava com negros americanos eles não tinham essa percepção e discordavam de mim. Até que um dia um americano me explicou melhor o porquê da discordância. Ele me disse que, de fato a luta pela equidade tinha provocado o debate e facilitado a introdução de algumas ações de reparação. Mas para eles, o que de fato aconteceu é que a elite dominante concedeu, na verdade, um cala-boca aos negros na forma de uma ascensão limitada e midiática para parecer que a mudança era substancial. Alguns negros tiveram projeção em áreas de grande visibilidade e daí se podia dizer “bem, o problema está resolvido pois vocês agora tem negros na música, em Hollywood, na política, nas passarelas, basta ligar a TV pra ver os negros em evidência. O que mais vocês poderiam querer?”. O fato é que, apesar da “maquiagem”, da falsa igualdade que se vê na mídia, para a maioria da população negra dos EUA, pouca coisa mudou e eles clamam por ações inclusivas mais abrangentes. A maior parte da população negra está em situação sócio-econômico-educacional inferior à da maioria dos brancos, nas penitenciárias a maioria é negra, já nas universidades a maioria é branca. Então, os negros em evidência na mídia de que muito se fala não são tantos assim e a grande massa continua nas camadas menos favorecidas e, tanto quanto no Brasil, aparecem maciçamente nas estatísticas da desigualdade.

Aqui no Brasil a é comum a gente ver uma propaganda de curso de pós-graduação em gestão onde apareçam uma mulher branca e um negro, vestidos como executivos. Tudo politicamente correto, evidenciando que a instituição abraça a causa da equidade de gênero e da diversidade étnica. Porém, ao consultar as estatísticas da ocupação de cargos de executivos nas empresas veremos que há bem poucas mulheres e negros nestes cargos. Não estamos tratando aqui de rejeitar a propaganda politicamente correta e requerer a volta aos padrões de mídia do passado, mas também não podemos nos contentar com migalhas e achar que atingimos um patamar satisfatório de equidade porque ainda estamos bem longe disso. O negro não tem que se limitar aos espaços que lhe foram concedidos na propaganda, na música e no futebol. Negro tem desejos ilimitados como qualquer ser humano (pois negro é parte da raça humana e não raça inferior) e também almeja ser médico, juiz, engenheiro, advogado, presidente. Portanto, a mudança da situação na mídia é bem-vinda , mas é insuficiente para reparar os danos sociais causados pela escravidão e insuficiente para atender os nossos desejos amplos e ilimitados como devem ser. Talvez por terem esta consciência, os americanos conseguiram eleger um negro à presidência, enquanto na Bahia nós não elegemos nem um governador , nem mesmo um prefeito da capital.

Nos EUA, os negros americanos ficam sabendo que temos a cidade de maior população negra fora da África e que mantemos muitas tradições tais como o candomblé, a capoeira, o caruru, o acarajé, Irmandade e Procissão da Boa Morte, etc. Também escutam falar que no Carnaval dançam juntos o preto, o branco e o índio, porque como dizia Caetano “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. Eles vêm conhecer o nosso modelo de democracia racial, mas bastam 02 dias de permanência e observação casual aqui e eles nos inquietam com depoimentos que expressam a sua vivência e percepção: desembarquei no Aeroporto de Salvador, de um avião onde piloto e comissários eram brancos, no banheiro do aeroporto a moça que limpava os vasos era negra, , o gerente da locadora de automóveis era branco. No hotel, o rapaz que nos recebeu para carregar as malas era negro, as camareiras também, dos 06 recepcionistas, apenas 01 era negro, o gerente do hotel era branco. Na rua almoçamos num restaurante onde os garçons eram negros, o gerente não era. Eram também negras a maioria das pessoas que estavam na praia vendendo protetor solar, queijo assado, CDs e DVDs, amendoim e castanha, o que catava latinhas e o sujeito que vocês chamam de “guardador de carros”. Mas era branco o dono da grande barraca que veio nos perguntar se estávamos sendo bem atendidos. No Carnaval, a banda que tocava em cima do trio tinha muitos negros, dentro do bloco, dançava uma maioria branca protegida por cordeiros negros. Do camarote onde estávamos, repleto de pessoas brancas, a gente via um monte de gente vendendo água, cerveja, churrasquinho, quase todos negros. A pirâmide social de vocês começa negra na base e vai branqueando até o topo.

E a gente que aqui está desde pequenininho olha para eles e diz “Você acha? Eu nunca tinha reparado nisso” assim bem sem graça, tipo sorriso amarelo.

Por isso precisamos estar atentos para não nos manterem confinados nas senzalas da modernidade. Apenas estar na mídia, a muitos de nós não basta, a gente não quer só a mídia, a gente quer a política, a gerência, a medicina, além do futebol e da arte, a gente quer saída para toda e qualquer parte.

Eu gosto muito de música, mas não sei tocar nenhum instrumento, aprecio o futebol, mas não me entendo bem com a bola, eu não faria sucesso no campo da música nem do esporte. Mas sou tarado pela informação e pelo conhecimento, amigo dos idiomas e curioso por natureza, intelectual por opção. Eu quero ser diplomata e por quê não? Não me pegue, não me toque, por favor, não me provoque. Sou negro sim, sou Zumbi, dos grilhões me libertei. Faz tempo!

Exibições: 328

Comentar

Você precisa ser um membro de Correio Nagô para adicionar comentários!

Entrar em Correio Nagô

Comentário de Cilene Amorim em 24 novembro 2010 às 9:32
Excelente!
Comentário de dilma silva em 22 novembro 2010 às 22:21
Também não sei tocar nenhum instrumento, nem tão pouco entendo de futebol. Tenho fome de conhecimento, pois sei que só dessa forma terei um espaço neste planeta. Adorei teu artigo!!! Continuas assim . Estou torcendo por você.
Comentário de Alberto Freitas Jr em 21 novembro 2010 às 21:50
Bem a propósito, recentemente assisti com meu filho "Fúria de Titans", filme que conta as aventuras do herói mitológico grego Perseu. Logo de cara, deparei-me com uma falsificação da história. Perseu encontra o rei Cefeu, a rainha Cassiopéia e a princesa Andrômeda, brancos. A mitologia grega diz que Cefeu, Cassiopéia e Andrômeda eram da corte etíope, negros, portanto, e que Perseu casou-se com Andrômeda, o que também é omitido no filme.
Aliás, a mitologia grega é pródiga em destacar a presença dos etíopes (caras pretas), quer seja no comércio com os povos helênicos, como amigos dos Deuses (a Etiópia era o local onde Zeus e outros passavam férias e participavam de banquetes com os nativos) ou na Guerra de Tróia (combateram ao lado dos troianos.
Tais fatos são omitidos na história que chega até nós e aos nossos filhos.
Comentário de Keila Souza da Costa em 21 novembro 2010 às 21:12
Excelente, AC! Considerando que as identidades estão relacionadas com as memórias sociais, sem dúvida, a presença do negro na mídia, tendo acesso a bens de consumo e não só nos noticiários sensacionalistas e páginas policiais, pode ser considerado um primeiro passo para fortalecer a nossa autoestima e desconstruir memórias sociais 100% negativas.
De fato, a baixa representatividade dos negros no cenário político, econômico e social só reforça que continuamos acorrentados, cercados de capitães do mato, que nos privam do direito de mostrar o nosso potencial para além das cozinhas, dos serviços gerais (sem desmerecê-los). Chegaria a desafiar as emissoras de TV, por exemplo, a apresentarem os seus produtores, redatores... Aos anunciantes a apresentarem o seu quadro funcional. Infelizmente, vivemos numa sociedade de construção de imagens, de maquiagem, produção de narrativas. Mas, estereotipias étnicas precisam ser combatidas agora da porta para dentro, “conquistamos” um “cala boca” na mídia e agora precisamos ganhar espaços concretos e ascendentes na sociedade. Por isso, precisamos estar cada vez mais informados, utilizar as redes sociais e o Correio Nagô para denunciar e pensar a construção de perspectivas de inclusão social, o que significa, também, deixar de consumir produtos e serviços de empresas que não sejam sustentáveis e que não tenham aderido ao conceito da diversidade da porta para dentro!
Abraços a tod@as!
Comentário de Antonio Carlos Silva Ferreira em 21 novembro 2010 às 19:55
Fico feliz com as manifestações. Afinal, o objetivo do artigo é provocar a reflexão e suscitar o debate.
Comentário de carlos eduardo de souza em 21 novembro 2010 às 19:33
olha uma vez eu ouvi dizer que o negro para se destacar entre os brnacos na midia ou em qual quer lugar tem que ser duas vezes melhor para se tornar parecido pensa que agora estamos numa condição de igualdade e espero que melhore abraço a todos!!!!
Comentário de Vanice da Mata em 21 novembro 2010 às 11:58
Será coincidência atuarmos como "atrizes/ atores" principais somente em propaganda de universidades tidas como de "segundo escalão"? Na sua maioria são particulares e, via de regra, as mais baratas (não quero dizer com isso que todas as mais baratas sejam menos qualificadas, ok?!). No universo das tidas como de "elite", a nossa participação ainda é para estar quite com a exigência legal de um percentual mínimo de negros, quando há um grupo na propaganda. Se tiver só um ator/ atriz nestas propagandas para produtos "classe A", vai ver qual a cor del@... Triste Bahia...
Comentário de silvio humberto cunha em 21 novembro 2010 às 11:17
Parabénsss! Vc demonstrou bem os limites dessa inserção pelo consumo. Além disso, tenho o "mercado"(tranças, roupas, penteados, acesso a universidade) gerado pela consciencia negra...quem de fato se apropria dos recursos gerados...os mesmos...portanto, precisamos pensar novas estratégias...ainda estamos apenas a reagir . Precisamos fazer novas perguntas/questões para assim galgarmos novos espaços...um deles é a diplomacia...as vezes...os jovens negros/as que já "aprenderam a comer de garfo e faca" têm se contentado com pouco...falta-lhes uma especie de "ousadia organizada" . Por exemplo, em 1992..organizar um curso pre-vestibular para negros foi extremamente ousado...Hj, não é mais, mas organizar-se para entrar na diplomacia...é sim... Então, quais são pedras do dominó precisam ser derrubadas?
Comentário de Vanessa Santos em 21 novembro 2010 às 8:31
A mídia tem realmente meios muitos sagazes de "maquiar a realidade". De fato, essa "ascendência" do povo negro no mercado midiático tem justamente este fim. Entretanto, eu iria mais longe: A mídia não quer só "maquiar a realidade", o que ela quer mesmo é nos "APAGAR"! De que modo? Prestando bem atenção, será possível perceber que nas propagandas do "Alpha Ville", não havia nenhum negro; nas propagandas de carros executivos também não há; são sempre os brancos, lá... e mais, na propaganda do Renault Clio, o dito "carro popular", o ator negro, não tem nem direito à fala, (como acorria antigamente em peças teatrais e na TV...) ele fica relegado a segundo plano, é "apagado", quase não existe. Avançamos muito, sim, em se tratando de mídia, mas não vamos também fechar os olhos, achando que, pelo menos neste âmbito, está tudo resolvido. O que queremos realmente? que a mídia continue nos "apagando"? nos dando um simples "estar lá? e nossa voz? nossa opinião na mídia? noto que em algumas propagandas já conseguimos muito mais que isto, mas ainda não é sufiente! a mídia continua legitimando espaços que tradicionalmente pertencem a elite branca, e pior, faz isso de forma muito sutil! O que quero dizer com isso? NÂO à falsa representação politicamente correta do negro ( que, aqui em Salvador, ainda está longe de ser correta) e NÂO também ao falso status concedido pela mídia ao povo negro!
Comentário de Adelson Silva de Brito em 21 novembro 2010 às 7:20
A mídia, hoje no mundo, é a ferramenta preferencial aplicada na transformção da informação.O que ontem se convencionou denominar "tecnicas de marketing" foi interpertado pelas "inteligencias do business" e direcionado ao serviço de propostas mais abrangentes do que vender pasta de dentes, creme de barbear. O que se chamou um dia de "marketing" hoje evoluiu para o que se denomina de "marketização".Hoje o "marketeiro" vende qualquer coisa. A sociedade brasileira, racista em todos e cada um de seus procedimentos e evoluções coletivas, elege o negro para o papel de "coadjuvante invisível" com direito à sua parte no bolo da contribuição, e alijado da participação no bolo do benefício".Veja, fica "mais fácil" dividir o bolo do benefíco, quando voce reduz, à partir de critérios de seleção (olhe uma "função social" do racismo) pré-estabelecidos, o grupo dos "com direito a participação no bolo dos benefícios". Entenda-se, excuindo o negro, através da sua exclusão da mídia é a forma usual, surda, paulatina e eficiente da promoção da "reduçao do número de candidatos ao bolo dos benefícios".Vamos deixar de oba-oba e atacar a questao no seu cerne, de forma corajosa e inteligente.Ler e estudar não são atividades restritas a intelectuais. Vamos nos referir a movimentos, tais como o boicote aos onibus de Montgomery, Alabama de 1955, para aprendermos e atualizarmos a movimentação pacífica pela consecução da nossa verdadeira e definitiva emancipação. Sem coragem e dedicação para efeito de uma educação concreta, independente e direcionada especificamente ao Afrodescendente, não havería Barack Hussein Obama, que acontece no topo de uma cadeia de acontecimentos e desenvolvimentos.
Alafia.

Translation:

Publicidade

Baixe o App do Correio Nagô na Apple Store.

Correio Nagô - iN4P Inc.

Rádio ONU

Sobre

© 2019   Criado por ERIC ROBERT.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço