A história do racismo no futebol brasileiro

MARIO FILHO (1918-1966)
A história do racismo no futebol brasileiro

Por Julio Ribeiro Xavier em 10/04/2012 na edição 689

O Negro no Futebol Brasileiro, de Mario Filho, 342 pp., Editora Mauad X, 1947

Em tempo de Copa do Mundo, tendo o Brasil como país-sede em 2014, é sempre bom lembrar a trajetória da nossa “paixão nacional”. E ninguém melhor do que o jornalista e escritor Mario Filho para abordar o assunto. Mario Filho nasceu em Pernambuco, viveu no Rio e trabalhou nos jornais A Manhã, A Crítica e O Globo. Depois dirigiu o Jornal dos Sports até a sua morte, em 1966. A prática de racismo no futebol não é uma novidade no Brasil. Mario Filho tratou do assunto em 1947. Com O Negro no Futebol Brasileiro, livro publicado em 1947, o jornalista abordou um assunto incômodo para a época: o lento e doloroso ingresso de negros e mulatos no futebol brasileiro. Afinal de contas, até pouco tempo, nossa sociedade pregava aqui e no exterior que a nossa democracia racial era um exemplo para o mundo de convivência harmoniosa entre negros e brancos.

Nos primórdios, no nosso “esporte nacional”, ainda não era comum jogar banana ou xingar um jogador negro de “macaco” nos campos de futebol. Naquela época, futebol era coisa de branco e rico. Introduzido no Brasil pelos ingleses que aqui chegaram, no futebol não se admitia mulato ou negro nos campos, e nas aquibancadas eram raridade. Era o Brasil onde o futebol tinha um sentido aristocrático. Era “coisa de bacana”.

Com a vitória da equipe brasileira no Campeonato Sul-Americano em 1919, a imprensa e alguns escritores, como Coelho Neto, passaram a dar grande destaque ao futebol, que entrou no gosto do povo. Em 1921, o então presidente Epitácio Pessoa “recomendou” que o Brasil não levasse jogadores negros à Argentina, onde se realizaria o Sul-Americano daquele ano. Era preciso, segundo ele, projetar no exterior uma “outra imagem” nossa, composta “pelo melhor de nossa sociedade”.

Cínico e hipócrita

Era a política do Estado brasileiro, em relação àsua população negra, alcançando o futebol. O primeiro herói mulato do futebol brasileiro foi um atacante de cabelos crespos, filho de pai alemão e mãe negra. Friedenreich, do Paulistano (SP), se tornou ídolo em 1919, depois de fazer um gol contra o Uruguai. “O povo descobria, de repente, que o futebol deveria ser de todas as cores, futebol sem classe, tudo misturado, bem brasileiro,” escreveu Mario Filho.

O livro aborda a inovação da equipe de futebol do Clube Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, que era oriundo da Segunda Divisão e que, utilizando um time formado por brancos, negros e mulatos, conquistou o título da Primeira Divisão do campeonato carioca enfrentando equipes formadas apenas por brancos. Mas Mario Filho lembra um comentário de um dirigente vascaíno da época: “Entre um preto e um branco, os dois jogando a mesma coisa, o Vasco fica com o branco. O preto é para a necessidade, para ajudar o Vasco a vencer.”

Mario Filho foi mais além ao lembrar o torneio do Natal entre as equipes de futebol do Rio de Janeiro e São Paulo. No dia 25 de dezembro de 1916, paulistas e cariocas disputaram um jogo de seleções em São Paulo. Como muitos brancos se recusaram a jogar no Natal, os cariocas completaram o time com negros e mulatos. No campo, uma derrota: 9 a 1. Após o jogo, os cariocas afirmaram que a seleção não representava o verdadeiro Rio. “A real possuía família e jamais deixaria seus parentes solitários numa noite de Natal. Só negros e mulatos eram capazes de agir dessa forma.”

Ao escrever um livro dedicado a abordar a trajetória dos negros e mulatos no futebol brasileiro, Mario Filho conhecia bem o campo em que estava pisando. O campo do racismo cínico e hipócrita que persiste até os dias de hoje e que faz muitos estragos não só nos gramados, mas em toda a estrutura da nossa sociedade.

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[Julio Ribeiro Xavier é historiador, Pelotas, RS]


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Comentário de maria cristina batista alves em 10 agosto 2012 às 9:52

O ser humano foi criado para umas lutas até meio que estranha para se entender...luta pela terra,luta pelo mar,nossa luta pela cor preta as lutas deles pela cor branca...até os bichos irracionais lutam para sobreviverem...lutas pelas lutas...eu que sou uma lutadora, também...as vezes fico confusa...e o que tem que prevalecer...é a liberdade de expressão...e a igualdade... já.

Comentário de Jouse Damascena reis em 8 agosto 2012 às 20:50

Esse é um dos grandes aspectos que demonstra o racismo cruel da nossa sociedade, vale ressaltar que o jogador Carlos Fonseca jogador do  fluminense no ano de 1914 usou  pó de arroz para parecer mais claro, por medo dos torcedores  aristocratas.Essa era atitude de alguns negros da época que por medo de nao serem aceitos se submetiam a tal humilhação. E ainda tem gente que diz que temos complexo.

Comentário de Antonia Conceição Abbamonte em 7 agosto 2012 às 10:02

Os racistas que se lixem e continuem atolados nas suas insanidades mentais, sei o que é sofrer  por ter escolhido a Cultura dos Orixás, há os que usam dos conhecimentos desta sábia Cultura para confundirem os menos preparados, mas aguardem, Xango está na luta com todos nós, que reverenciam tão sábia Cultura que é: preventiva, justa, Mãe de todos os que a ela recorrem. Mojubá

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