A INCRÍVEL BUNDA DE HULK (ou DESCONSTRUINDO A ESTRANHA TEORIA DO “MACHISMO AO REVÉS”)

Hoje quando abri meu e-mail, me deparei com algumas inquietações e provocações de minha amiga socióloga Elisia Santos, em relação à Copa do Mundo 2014:

 

 

“Uma conversa sem rodeios.

 

É pura festa nesta copa, abertura sem graça, sem vuvuzela, sem Fuleco, é metrô de Salvador que saiu e todo mundo quer fazer um selfie, sem nem saber o que significa a palavra “self”. É uma folia só, todo mundo com muito assunto para o ano inteiro. E eis que um assunto não pára nas redes sociais virtuais e pessoais: o bumbum do jogador número 7, o incrível Hulk, mais conhecido no interior da Paraíba como: Givanildo Vieira de Souza.

O atacante é “alvo” de comentário das mulheres e de alguns homens, por causa de seu avantajado glúteo, e muitos homens se incomodam com tantos elogios. Acredito piamente que recalque causa isso, começando nas redes uma nova campanha: E se fosse mulher, seria machismo?

Um grupo de mulheres denominadas #CopaMulherzinha, lideradas pela socióloga Claudia Santos, divulga no Facebook, todos os dias nos jogos da Copa fotografias de homens negros de países africanos, latinos e europeus, além do atacante Hulk, enfatizando a beleza desta Copa e reverenciando os homens negros como deuses do ébano. E então isso é machismo?

Quando questionadas, muitas preferiram seguir suas vidas lendo suas teóricas e analisando os jogos performáticos de bundas e pernas de jogadores; contudo os homens muito revoltados respondem afirmando que vão dar o troco, que vão colocar fotos de mulheres, que vão colocar bundas femininas na tela... Pergunta-se: que troco é este? O saldo continua negativo para as mulheres negras. Colocar elas agora como objeto sexual é a novidade? Então vamos para uma conversa sem rodeios.

Precisamos nos situar: o que significa objetificar mais uma vez a mulher negra? O que te acrescenta? Onde isso deixa de ser o habitual? O poder hetero e branco opera nessa prática, difamando toda mulher negra como um corpo de desejos e penetrações fálicas.

O machismo cria suas vantagens nos iludindo como principal centro de atenção provisório para o sexo e de puta sem moral permanente. O poder não é só um espaço, não é só um compartilhar, há muito mais por isso, e é aí que nós mulheres negras perdemos.

Não somos incluídas em nada, e quando queremos divagar ou construir nossas piadas internas, desejam desfazer das nossas ações como se tivessem o direito de ditar as regras das nossas brincadeiras.”

 

 

As inquietações de minha amiga Elisia felizmente são inquietações não só de todas as mulheres brasileiras apaixonadas pela maravilhosa bunda do jogador Hulk, mas também de nós homens gays que não cansamos de postar e compartilhar conteúdos de exaltação a um dos atletas mais belos do meio do Esporte. Porém, foi através de redes sociais virtuais, em especial o Facebook, que uma guerra de discursos machistas e sexistas foi estabelecida entre nós mulheres, homossexuais e homens heterossexuais, transformando cada postagem em verdadeiras trincheiras de batalhas simbólicas. A descoberta dos atributos glúteos de um homem nunca provocou tanto impacto nas relações intergêneros em nossa sociedade.

Mas qual será de fato o significado que nós estamos atribuindo à bunda de um homem?

O caso de Hulk se torna bastante interessante por aspectos que compõem a identidade sociocultural do jogador: Hulk é um homem proveniente da Paraíba, território nordestino profundamente demarcado pelas cercas farpadas do patriarcalismo: como a maioria de todos os homens nordestinos, viveu e cresceu nos latifúndios da heteronormatividade compulsória, da virilidade exacerbada, da hipersexualidade, da agressividade e violência como religião. As construções de homem nordestino, lembrando o historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr., são simbolizadas pela centralização de seu principal símbolo de poder: o falo. O homem nordestino se apresenta como uma espécie de essência do ideal de heterossexualidade compulsória, como uma versão “primitiva” do que conhecemos como macho alfa. Nordestinos são “arretados”, “cabras machos”, “valentes”, detentores de uma masculinidade e sexualidade inquestionável, sólida, íntegra, hermética.

No ideal heterossexual compulsório, a bunda do homem é um território anatômico cercado e ocupado por tabus. Homens não podem rebolar quando andam, requebrar os quadris quando dançam e explorar possibilidades de prazeres anais, pois são práticas que desafiam e ferem os princípios de tal ideal, o que os novíssimos estudos de masculinidades caracterizam como “castração anal”: quem somente deve explorar os territórios glúteos e anais são as mulheres e os transgressores do ideal hegemônico, nós homens gays. Porém, felizmente sofremos influências decisivas dos movimentos feministas e LGBT’s que eclodiram na segunda metade do século XX e que causaram, em inúmeros níveis e graus, transformações significativas nas questões de gênero e sexualidade, impactando de determinada maneira os ideais hegemônicos de masculinidade que imperam. Hulk, além de ser representado nas plataformas midiáticas por sua grande força física e explosão muscular nos jogos (o que evidencia os estereótipos de nordestinos fortes, viris, naturalmente aptos para o trabalho físico pesado), sua bunda passou a se contrapor de maneira bem incisiva à supremacia do falo, maior símbolo do poder masculino no mundo ocidental, no qual nossa sociedade está inserida.

Nós mulheres e gays que somos responsáveis por esse, digamos, “fenômeno”. Foi a partir da Copa das Confederações no Brasil em 2013 que as primeiras manifestações sobre a incrível bunda de Hulk começaram a acontecer. Eu fui uma dessas primeiras pessoas a perceber a grandiosidade da envergadura de Hulk e a praticar certa idolatria, movido por fetiches e fantasias sexuais naquela camisa 19. Foi com a escalação frequente de Hulk nos Amistosos preliminares à Copa do Mundo que nós mulheres e gays começamos a invadir o território anatômico de uma das maiores bundas de nosso país. Apesar das mulheres mais púberes, adolescentes e jovens preferirem o Neymar, herói obtuso construído pela Rede Globo, mulheres mais maduras e nós gays (e até mesmo bissexuais e lésbicas!) transformaram cada jogo da Seleção Brasileira em uma espécie de ritual coletivo de exaltação fervorosa do lindo e tímido Givanildo.

Mas o que há de errado nisso?

Primeiro, há uma questão bastante problemática da construção dos fetiches sexuais no imaginário erótico-sexual brasileiro. Hulk possui uma afrodescendência genética como a maioria em peso da população nordestina, invisibilizada pelos discursos midiáticos e percepções coletivas. Nos discursos xenofóbicos regionalistas em relação à Região Nordeste, somos considerados como “inferiores”, “irracionais”, “desprovidos de cognição” e “aptos para os trabalhos forçados e braçais” por principalmente sermos descendentes de negras e negros, nossos Ancestrais que outrora foram submetidos à escravização física e mental colonial. Assim, de maneira generalizada, a partir dessa perspectiva entende-se nordestino como sinônimo de afrodescendente, que por sua vez se torna também sinônimo de inferioridade. Atualmente em uma coletiva de imprensa, Hulk rebateu uma pergunta xenofóbica feita por um repórter que possuía em seu discurso o estereótipo do nordestino engraçado e jocoso, principalmente por nossos falares regionais diferenciados presentes em nossa Língua Portuguesa. Particularmente, aqui considero e penso o Hulk como um homem afrodescendente heterossexual nordestino.

Existem em nosso imaginário coletivo inúmeras representações, mitos e estereótipos acerca do homem negro e suas construções de masculinidade e sexualidade, que por coincidência são convergentes às características do ideal de heterossexualidade compulsória nordestina, que quase explodem de tão dilatadas. Sendo afrodescendente e ainda nordestino, o homem será absurdamente um poço sem fundo de virilidade e hipersexualidade. Aqui se encontra a possível origem de nossos fetiches em relação ao Hulk: sua robustez, musculatura, envergadura e amplas proporções anatômicas são aspectos associados a uma hipotética hipersexualidade naturalizada pela decodificação fantasiosa dos nossos fetiches sexuais. Conceber o homem negro e/ou afrodescendente dessa maneira é uma prática muito perigosa, por conta de nossa sórdida cultura do racismo e da insistente discriminação étnicorracial que estupra simbolicamente homens negros e, indubitavelmente, mulheres negras com discursos herdados do nosso passado colonial, transcodificados no que o afro-sociólogo Paul Gilroy chama de Novo Racismo.

Frantz Fanon em sua grandiosa obra Pele Negra, Máscaras Brancas já nos alertou sobre isso há muito tempo. A partir do mito do homem negro hipersexualizado, o qual chamo de Mito do Super Negão, o homem negro é brutalmente sintetizado e minimizado ao seu pênis, sempre projetado imageticamente como macrofálico. A racionalidade, os poderes cognitivos, os status e identidades socioculturais são elementos usurpados, negligenciados e renegados aos homens negros, vistos de maneira coisificada, objetificada e até mesmo zoomórfica. A maldita memória das práticas do sistema de tráfico africano transatlântico e do cotidiano escravocrata colonial se manifestam em nossos tempos como uma torpe ferramenta de estereotipação e discriminação racial. Recebi nos últimos dias via rede social Whatsapp uma montagem fotográfica quase que perfeita do rosto de Hulk em um corpo de um homem macrofálico, o que me faz propor a tese de que a maioria dos fetiches erótico-sexuais sobre a bunda de Hulk possuem uma relação muito forte com sua afrodescendência e os estereótipos que são associados aos homens negros. Assim, acredito que Hulk, além de estar sofrendo uma violência simbólica latente, está sendo reduzido à sua bunda e aos seus músculos na conjugação fetichista: jogador de futebol/nordestino/afrodescendente. Hulk seria um imenso glúteo ambulante. E só.

Entretanto, há algo que nos incomoda ainda mais.

Alguns homens heterossexuais, principalmente negros, tem usado esse tipo de argumentação em discussões via redes sociais, o que acho válido, pois os homens heterossexuais não costumam se incluir de maneira intensa nas discussões de gênero e sexualidade para além do binômio homem-mulher. Porém, nas guerrilhas virtuais via Facebook há um forte levante de homens heterossexuais que acusam nós mulheres e gays de transformarem simbolicamente o Hulk em um objeto sexual, como uma estranha tentativa de “machismo ao revés”. Nós questionamos esse discurso atrofiado que temos combatido nesse decorrer da Copa do Mundo esse ano, mas também temos que refletir a partir de uma perspectiva de negociação simbólica. O sexismo e o machismo são poderosos instrumentos de imposição do sistema patriarcal ocidental, inventado por homens, não por mulheres. Estas que são oprimidas e submetidas, tendo seus corpos cotidianamente esquartejados. A invenção dos fetiches coletivos em relação a bunda do Hulk nada mais é que uma manifestação da liberdade sexual e de gênero que as mulheres e LGBT’s vêm conquistando historicamente, século após século, o que caracteriza uma dinâmica de compensação: nós mulheres e gays nos tornamos ameaças ao sistema patriarcal, que nos excluem dos espaços de sociabilidade e, sobretudo, poder.

O Futebol é um monopólio da cultura patriarcal e é óbvio que nossas interferências e intervenções sempre irão incomodar, pois nossos rituais coletivos de culto fetichista à bunda de Hulk é uma prática de transgressão do sistema, por mais estranho que isso possa parecer. Simbolicamente, homens podem sim ser encarados como “objetos sexuais”, mas nunca estarão extremamente suscetíveis a fobias, agressões, violências e estupros incessantes como nós mulheres e gays. Pensar em “machismo ao revés” é o quase idêntico a pensar em “racismo ao revés”, afinal não existe colonialismo sem patriarcalismo.

Até parece que foram nós mulheres e gays que criamos as propagandas de cerveja e as panicats. Se a gente se retar mesmo, vamos exigir calções mais curtos para o Hulk, como os uniformes retrôs da Seleção Brasileira, coisa dos tempos nos quais não existiam redes sociais virtuais e nós mulheres e gays nem podíamos comentar direito as coxas e bundas deliciosas dos jogadores em campo.

Elisia Santos é socióloga, graduada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e proprietária da empresa Salão Rosas Negras em Salvador – Bahia.

Daniel Dos Santos é professor e historiador, licenciado pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) – Campus V, Membro Fundador e Pesquisador Residente do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Africanos e Afrobrasileiros (AFROUNEB).

Exibições: 1290

Comentar

Você precisa ser um membro de Correio Nagô para adicionar comentários!

Entrar em Correio Nagô

Translation:

Publicidade

Baixe o App do Correio Nagô na Apple Store.

Correio Nagô - iN4P Inc.

Rádio ONU

Sobre

© 2019   Criado por ERIC ROBERT.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço