A Primeira Greve Geral de Porto Alegre e o líder Negro Francisco Xavier da Costa (1871-1934)

                                                                                               

                                                                                                                  

       

     Há 111 anos, em outubro de 1906, ocorreu a primeira Greve Geral em Porto Alegre, conhecida como a “Greve dos 21 dias”, que reivindicou, entre outras coisas, oito horas de trabalho. Contando em torno de 3.500 operários, estes ocuparam as ruas e praças de Porto Alegre. Uma característica desta greve foi o número expressivo de trabalhadores estrangeiros e de mulheres operárias.

   

   O intendente (prefeito) de Porto Alegre, na época, era o engenheiro José Montaury (1858-1939), e Antônio Augusto Borges de Medeiros (1863-1961) governava o Estado. A ideia de uma paralisação se gerou entre os marmoristas, que se reuniam na Escola Eliseu Reclus, na Rua dos Andradas nº 64, sob o comando do líder anarquista Polidoro Santos (1881-1924),

  

          Já o grupo socialista era representado pelo líder negro, gráfico e jornalista Francisco Xavier da Costa (1871-1934) e por Carlos Cavaco (1878-1961). O primeiro criou, em 1897, o Partido Socialista Rio-Grandense, e o segundo, considerado o “verbo de fogo”, incendiou, com sua oratória, a classe trabalhadora. Ambos fundaram, em 1906, a Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS).

   

      Além dos marmoristas, outras categorias aderiram à Greve, como carpinteiros, marceneiros, pintores, alfaiates, tecelões e estivadores. Após oito dias, a paralisação dos serviços industriais era quase total. Os comerciários aderiram quando esta se encontrava em sua fase final.

 

     Quanto à sua condução, os anarquistas defendiam a neutralidade e a independência política dos sindicatos, divergindo nesta questão do grupo socialista. A discussão na imprensa ocorria entre jornal anarquista A Luta, relançado, em 1906, por Polidoro  Santos e pelo gráfico José Rey Gil, e o jornal socialista, A Democracia (1905-1908), criado pelo líder Francisco Xavier da Costa. Um verdadeiro duelo de palavras ocorria entre os seus redatores.

   

       No decorrer da Greve, Alberto Bins (1869 - 1957) - representante dos industriais – e o líder Francisco Xavier da Costa chegaram a um acordo, no qual ficou estabelecido a jornada de trabalho de nove horas.  

 

    Embora as diferenças, no campo ideológico, anarquistas e socialistas tinham objetivos, em comum, como lutar por melhores condições de trabalho, reduzir a excessiva carga horária do operário, exigir aumento salarial, além de denunciar os maus tratos sofridos pelos operários. Durante a greve, o policiamento foi ostensivo, e os piquetes tentavam impedir os chamados “fura-greves”. No dia 9 de outubro de 1906, os operários descontentes quanto à proposta, da classe patronal, de 9h diárias, decidiram permanecer em greve. Seguiram-se várias prisões…

    

      Em 21 de outubro de 1906, a greve chegou ao seu término, embora os conflitos, entre operários e patrões, continuassem. Os anarquistas, por meio do jornal A Luta, denunciavam que, ao contrário do que outros jornais divulgavam, ocorriam punições e demissões, quando o operário retornava ao trabalho. As arbitrariedades, com certeza, eram resultado da ausência, na época, de uma legislação trabalhista, que garantisse os direitos dos operários. Encerrada a greve, a categoria dos marmoristas, que deu início à greve, seguiu na luta até conquistar a carga diária de oito horas.    

 

    De acordo com o jornalista João Batista Marçal, o líder socialista Francisco Xavier da Costa se deixou envolver pelo jogo da política burguesa. Ao perder espaço, na FORGS, para os anarquistas, ele concorreu, em 1912, pelo Partido Republicano Rio-Grandense (PPR). Eleito, em 1912, com 4337 votos, foi o primeiro vereador negro de Porto Alegre.  A Greve Geral de 1906 foi um marco da luta operária em nosso Estado.

 

                                            Pesquisador e coordenador do setor de imprensa do Musecom*

Bibliografia :

 MARÇAL, João Batista. A Imprensa Operária do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2004.

 MARÇAL João Batista; MARTINS, Mariângela.  Dicionário Ilustrado da Esquerda Gaúcha. Porto Alegre : Libretos, 2008.

SCHMIDT , Benito Bisso. De Marmore e de Flores: a Primeira Greve Geral do RS / Porto Alegre, Outubro de 1906.  Porto Alegre : Editora da UF

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