“A própria existência do blog já é uma resposta ao preconceito”, diz idealizadora do blog “Negras no altar”

Redação Correio Nagô* – Em 2012, uma conversa entre duas amigas negras resulta na ideia para criar um blog. Uma delas estava prestes a casar. A outra quis ajudar. Juntas, partiram para a internet para encontrar dicas, mas a pesquisa acabou gerando questionamentos. Não sobre a decisão de se casar. E sim sobre mulheres negras e casamentos.

“Partimos para internet em busca de todas as dicas necessárias e, ao terminar, nos perguntamos: as mulheres negras não casam? Por que as mulheres negras quase não existem nesses sites e blogs? Passei a pesquisar sites sobre casamentos que tivessem como referência as mulheres negras e não achei”, conta a soteropolitana Rebeca Brito, em entrevista ao Portal Correio Nagô.

Foi assim que ela decidiu criar “Negras no altar”, um blog sobre casamentos. “Eu disse para essa minha amiga que eu criaria um blog sobre casamento para ajudar a todas as mulheres negras a organizarem seus casamentos”, relembra.

Logo no alto da página do blog, Brito faz questão de destacar o que motivou a criação: “Negras no altar porque nós também casamos”. “A frase está em destaque porque eu queria mostrar para as mulheres negras que não existe problema nenhum em se casar, desde que elas queiram”, diz Brito, que é formada em Ciências Sociais.

Para a idealizadora, há uma ausência de sites, blogs e publicações especializada em casamento que representem a mulher negra. “você não vai achar nenhum outro aqui no Brasil além do Negras no Altar que aborde essa questão”, garante para logo em seguida defender sua intenção.
“Infelizmente, fomos levados a pensar que o que é bonito, o que é bom, está relacionado aos padrões eurocêntricos, então precisamos reverter isso, precisamos ser representadas”, destaca.

Brito diz ainda que, enquanto a situação não for revertida, blogs como o dela são cada vez mais necessários para combater o preconceito e o racismo. “Acredito que a própria existência do blog, já é uma resposta ao preconceito da nossa sociedade. Se nós, negras e negros, estivéssemos mais presentes nos espaços, nas grandes mídias, nos altos cargos do governo, nas empresas de grande porte, etc, provavelmente blogs como o nosso não existiriam”, emenda.

Ela conta que a criação do blog foi a forma que encontrou para fazer “sua parte” contra o racismo. “Mas enquanto essa realidade não mudar, vamos continuar colocando o dedo na ferida para lembrar que no Brasil não existe esse paraíso da diversidade racial. Acho que toda pessoa que tem compromisso com a causa precisa fazer sua parte, colaborar de alguma forma para mudar o jogo”.

Parceria - Depois de meses com o blog no ar, Brito conta que sentiu a necessidade de que outras pessoas ajudassem na tarefa. Hoje, além dela, o blog conta com três colaboradoras que “fazem as coisas acontecerem”.

“Primeiro conheci a Annanda Baptista, depois a Laís Braz e a Michelle Veríssimo que veio para completar o time. Cada uma mora em um estado, nos comunicamos por e-mail, ou facebook e vamos planejando tudo”, explica. Baptista é formada em Arquivologia e mora no Rio de Janeiro. Já Braz e Veríssimo são jornalistas e vivem em Brasília e em São Paulo, respectivamente.

Segundo Brito, cada uma tem autonomia de escrever suas matérias. “Só sinalizamos o dia em que vamos postar, para não coincidir de todo mundo publicar ao mesmo tempo. Procuramos ficar antenadas às demandas das leitoras, o que mais interessam a elas e assim vamos desenvolvendo as postagens”, complementa.

Ainda de acordo com ela, o blog tem sido “muito bem aceito” e que recebem muitas mensagens positivas. “É muito gratificante ver nosso trabalho reconhecido e valorizado pelas pessoas”. Os pedidos que mais recebem são de sugestões para vestidos de noiva, dicas de maquiagem e penteados e postagens sobre DIY (faça você mesma).

Postagens – No blog, as leitoras encontram dicas sobre maquiagem, penteados, decoração, vestidos “As dicas são pensadas para as mulheres negras. Uma dica de maquiagem para mulher branca, não serve para uma mulher negra, obviamente porque os tons de pele são diferentes. Precisa saber achar o tom ideal da base e do pó compacto na hora de se maquiar, pois se você utilizar uma cor que não combine com sua pele, o resultado não vai ficar legal”, explica.

As dicas, segundo Brito, ajudam ainda às mulheres elevarem a auto-estima. “A mesma coisa é em relação ao penteado escolhido. Várias leitoras me escreveram falando o quanto queriam ter conhecido o blog antes, pois não queriam alisar o cabelo para o casamento e por não terem muitas referências de penteados para noivas negras acabaram alisando no dia. Hoje cada vez mais mulheres assumem seus cabelos crespos e elas também querem casar com seus lindos cabelos naturais, se antes faltava essa referência, agora estamos aqui para não permitir isso”, complementa.

Brito diz que o grupo está com uma lista de “ideias maravilhosas”. Elas intencionam transformar o blog em um site, mas ainda dependem de investimentos financeiros. Ainda pretendem criar vídeos para o canal delas no Youtube. E para o futuro criar uma revista para noivas negras, além de escrever um livro contando sobre a experiência com o blog.

“Durante esse um ano e meio, só uma pessoa questionou se um blog para negras não era racismo às avessas. Acho que esse tipo de acusação só prova o quanto nossa sociedade é racista. Enquanto está tudo conforme o padrão as pessoas não se incomodam, mas basta criarmos nossos próprios espaços para quererem nos acusar de radicais, de racistas às avessas e falarem que todo mundo é igual, que todo mundo é brasileiro”, opina.

Na trajetória do blog, o quarteto ainda comemora vitórias. “Ver que o blog tá crescendo e se tornando uma referência pra outras pessoas é uma vitória. Eu não imaginava que ia dar tão certo, cada mensagem que recebo falando que a proposta é interessante, que a ideia do blog é inovadora, me deixa muito feliz. Ver outros sites e blogs, pessoas que eu acompanho falando bem do Negras no Altar é uma vitória. Estar dando essa entrevista também é uma vitória, significa que nosso trabalho está sendo visto e levado a sério”, finaliza.

Confira o blog: http://negrasnoaltar.blogspot.com.br/

*Por Anderson Sotero

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