Minha nobre amiga Sueli Carneiro, conforme nos falamos a última vez, por telefone, você me pediu para mandar notícias do Exército. Peço desculpas pela demora no
atendimento do seu pedido, entretanto as mando agora via texto do meu blog ( www.capitaomarinho.blogspot.com ). Ah, vou
aproveitar no decorrer deste texto para citar algumas pessoas, pois não posso
ter a sensação de que estou sozinho neste momento delicado da minha vida.


Recebi a ligação de um capitão da Polícia Militar da Bahia, o qual me relatou que o Sgt Eurico, criador do Núcleo de Religiões de Matriz Africana da Polícia Militar da Bahia (NAFROPM-BA), foi convidado por militares do Exército para falar
da atuação do NAFROPM. Ao término da ligação, liguei para Marcos Rezende
(coordenador geral do Coletivo de Entidades Negras) para compartilhar com ele a
minha felicidade. Sueli, acho que os atabaques estão na iminência de ecoarem em
homenagem aos Orixás dentro dos quartéis do Exército, da mesma forma que já
ecoam os cânticos católicos e os louvores evangélicos. Isso é uma ótima
notícia! Na minha empolgação, já vislumbro os babalorixás e as yalorixás sendo
recebidos e recebidas em cerimônias militares como autoridades religiosas, como
sempre foram recebidos os bispos católicos. Falando em bispo, aproveito para
mandar um abraço para Dom Gílio. Este, no 20 de novembro do ano passado, me
convidou para participar de uma celebração inter religiosa que ele coordenou
aqui em Bagé-RS. Que coisa marcante, ver na mesma celebração: católicos,
evangélicos, candomblecistas, umbandistas e espiritas reverenciando o nome do
nosso maior símbolo de resistência, Zumbi dos Palmares.


Sueli, vou acrescentar uma informação neste texto que talvez não seja de conhecimento público, segundo o presidente Lula, Zumbi dos Palmares vai ser o nome dado ao
segundo petroleiro produzido em estaleiro nacional, pois o primeiro, após um
intervalo de mais de 13 anos, foi batizado de João Cândido pela Transpetro, a
pedido do próprio Presidente, em reconhecimento ao heroismo do nosso “Almirante
Negro” na Revolta da Chibata ocorrida em 1910. O Petroleiro "João
Cândido" tem 274 metros de comprimento e capacidade para transportar 1
milhão de barris de petróleo. O navio foi construído pelo Estaleiro Atlântico
Sul, ao custo de R$ 300 milhões. Homenagem mais do que justa feita a pedido de
um grande estadista!


De marinheiro para soldado de polícia, vou citar Albino Apolinário, este tem meu apoio até em disputa de par ou ímpar. De forma aguerrida, pois paga um preço
alto pelo que diz, ele propõe que temos que politizar os nossos soldados de
polícia, pois enquanto isso não acontecer, os policiais serão a escória da
sociedade e também os algozes dos pobres e negros, como já vem denunciando
Hamilton Borges e Vilma Reis! Sueli, aproveito o ensejo para te recomendar o
livro, do meu amigo Carlos Nobre, “O NEGRO NA POLÍCIA MILITAR”. Caso
queira, pode pegar o meu exemplar com o nosso amigo Maurício Pestana aí em São
Paulo, pois emprestei a ele na expectativa de ver a obra citada na respeitadíssima
REVISTA RAÇA”, na qual ele, além de ser um excelente jornalista, a
ponto de emocionar o Presidente da República quando este foi entrevistado, é
também o Diretor.


Voltando a falar do Exército, esta semana, aconteceu um fato bastante “inusitado” no meu quartel aqui em Bagé-RS. Estava sentado à mesa, almoçando junto com alguns
militares e meu comandante, tenente coronel Ely, quando este me disse que eu
estou proibido pelo general Ricordi, comandante da Brigada do Exército de
Bagé, de me ausentar da cidade. Perguntei o porquê, ele disse porque o general
quer, e ele é o comandante da guarnição! Perguntei se o general mandou esta
ordem por escrito, o coronel disse que não e que estava transmitindo a ordem
conforme recebeu e que o major (subcomandante do batalhão) era testemunha
disso, e ainda acrescentou que comandante não precisa da ordem por escrito.
Não posso acreditar que esta ordem seja verdadeira! Vivemos ou não em um ESTADO
DEMOCRÁTICO DE DIREITO onde todos têm o direito de ir e vir?


Sueli, meu pai está com uma doença degenerativa em estado avançado, vivendo dentro de um quarto e chora de dor o dia todo, e minha mãe além de está depressiva, com
recomendações médicas de não ficar sozinha, ainda tem problemas de coração e
está com vários pedidos médicos para realizar exames cardíacos. Meus pais, além
de estarem doentes, são idosos e quem está amparando eles sou eu, e o general
sabe disso. Uma coisa é negar minha transferência para a cidade de Salvador
para que eu possa cuidar deles, ainda que eu preencha todos os requisitos,
outra coisa é ele me proibir de viajar para ver meus pais. Pedir ao meu
comandante para me levar ao general, mas este disse que só pode me receber dia
8 de setembro. Não tem nada escrito! Como posso impetrar um habeas
corpus
? Baseado em que eu posso fazer a minha defesa? Como um bom
oficial, resta-me aguardar até o dia 8 de setembro!


Sueli, a MINHA PRISÃO É FEITA DE MUROS INVISÍVEIS! Como posso fugir? Os “vigias” estão em todos os lugares, observando cada passo que dou. Se eu ousar sair de Bagé, qual será a reação deles? Não posso pagar para
ver, pois eu tenho três filhas para criar e, também, um pai e uma mãe que
voltaram a ser crianças, cabendo a mim a responsabilidade pelo cuidado dele e
dela. Se meu pai fosse coronel ou general do Exército, ao invés de subtenente
da reserva da Polícia Militar da Bahia, será que eu seria tratado desta forma?


Abdias Nascimento diz que a felicidade do negro é uma felicidade guerreira! E para mim as pessoas mais aguerridas são as mulheres negras; por isso procuro aprender muito com
elas. Busco aproveitar e aprender o máximo de cada conversa que tenho sobre
preconceito e discriminação racial com a professora Ivete Sacramento, primeira
negra a ser reitora no Brasil; a desembargadora Luislinda Valois, primeira
negra a ser juíza no Brasil; e a desembargadora Neuza Maria, primeira negra a
ser desembargadora no Brasil. Elas me ensinam como suportar as injustiças, pois
quanto mais as mulheres negras crescem profissionalmente, mas elas são vítimas
de preconceito! Já Alaíde do feijão (a maior divulgadora do meu blog), ela me
ensina, com o seu exemplo de vida e suas palavras sazonadas, a “driblar” o
monstro da desistência e ser forte diante do que aparenta ser invencível, pois
existe uma força superior a dos homens! E por eu acreditar nisso, sigo
acompanhando o curso do rio em direção ao mar e aguardando o momento de reencontrar
os meus familiares que estão cerca de 4000 Km (quatro mil quilometros) de
distância necessitando da minha presença. Sueli, termino este texto pedindo a
sua bênção e a dos mais velhos, principalmente os mais velhos que acham que eu
sou um inimigo! Axé e muita Paz!

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