Adeptos do candomblé pedem fim da violência contra jovens

Salvador amanhecerá coberta de branco, cor de Oxalá, orixá da paz, na manhã do próximo dia 21 de novembro (sexta-feira). Isso porque, pelo décimo ano consecutivo, os adeptos dos cultos de matrizes africanas vão promover, na madrugada do dia 20 de novembro (quinta-feira), a Alvorada dos Ojás.


A atividade, na qual as árvores da cidade são amarradas com tecidos brancos utilizados durante as obrigações do candomblé (os ojás), é promovida pelo Coletivo de Entidades Negras (CEN), entidade nacional do Movimento Negro. Assim como no ano passado, os dois mil metros de ojás utilizados na ação serão pintados pelo artista plástico e diretor do bloco Cortejo Afro, Alberto Pitta.


Além de exigir respeito e combater a intolerância religiosa, a atividade puxará, em 2014, uma campanha a favor do Projeto de Lei 4471/12, que, se aprovado, extinguirá os autos de resistência.


Prestes a ser votada no plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília, a proposta é de autoria do deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) e prevê a investigação das mortes e lesões corporais cometidas por policiais durante o trabalho. Atualmente, os casos são registrados como autos de resistência (ou resistência seguida de morte) e não são investigados.


MANIFESTO


Para dar início à alvorada, um ato político será realizado em Lauro de Freitas, maior município da Região Metropolitana de Salvador, no Dia Nacional da Consciência Negra (20 de novembro), às 8h.


Na ocasião, militantes do Movimento Negro vão caminhar do Terreiro São Jorge da Goméia, no bairro de Portão, até o Centro de Referência Mãe Mirinha, onde será lançado um manifesto reivindicando respeito à ancestralidade africana e o fim dos autos de resistência. No mesmo local, uma árvore será amarrada com o ojá, dando início oficialmente à sétima edição da alvorada.


Segundo o ativista negro Ricardo Andrade, a escolha de Lauro de Freitas para receber a atividade deu-se por causa dos cotidianos assassinatos de jovens negros por policiais militares no município – muitos forjados para parecerem auto de resistência. “Essa foi a forma que encontramos para pedir paz e exigir que o extermínio da nossa juventude tenha fim e seja investigado”, explica o militante.


Por causa da importância do Dia da Consciência Negra, feriado municipal em Lauro de Freitas, o prefeito Márcio Paiva (PP) convocou o funcionalismo público a participar da atividade no dia 20. “A conclamação visa também o combate ao racismo institucional do Estado”, destaca Andrade.


AMARRAÇÃO


Em Salvador, a Alvorada dos Ojás acontece na madrugada de quinta (20) para sexta (21), entre 21h e 5h, com a amarração dos tecidos em árvores no Dique do Tororó, Corredor da Vitória, Itapuã (até a Lagoa do Abaeté), Avenida Paralela (em frente ao Centro Administrativo da Bahia – CAB) e no bambuzal do Aeroporto Internacional Dois de Julho.


O encerramento das atividades deste ano será no domingo (23), das 10h às 14h, quando o palco flutuante do Dique receberá diversas atrações culturais, como o bloco Cortejo Afro (com convidados) e as bandas Bicho da Cana, Banjolada, Toti Gira e Opanijé.


Coordenadora estadual do Setorial de Religiões de Matrizes Africanas do CEN e responsável pela organização da alvorada, a equede Noélia Pires, do Terreiro Omi Tolá, explica que a amarração dos ojás nas árvores une dois elementos sagrados do candomblé.


“O ojá é o traje que cobre o ori (a cabeça), parte mais importante do corpo para a religião, durante as obrigações do candomblé. Já a árvore é um elemento sagrado da natureza”, relaciona a religiosa. “Não fazemos essa atividade por fazer, ela tem um sentido”, frisa ela.


Tamanha é a sacralidade dos dois elementos para as religiões afro-brasileiras que, antes de iniciada a atividade de amarração, rituais são realizados para pedir licença e proteção aos Orixás.


VIOLÊNCIA


De acordo com o historiador Marcos Rezende, coordenador nacional do CEN, o objetivo da programação da entidade é alertar a sociedade tanto para o extermínio da juventude negra das periferias quanto para a intolerância religiosa – duas das formas mais recorrentes de racismo.


Segundo Rezende, a violência que ceifa a vida dos jovens negros e pobres emite energias negativas que tiram o equilíbrio ambiental buscado pelas religiões afro-brasileiras. “Independente da religião desses jovens, a violência que os matam desequilibram os elementos naturais. E o candomblé preza exatamente pelo equilíbrio dessa natureza”, afirma o historiador.


A Alvorada dos Ojás conta com o apoio da Fundação Cultural Palmares, da Superintendência de Promoção da Igualdade Racial de Lauro de Freitas (Supir) e das secretarias estaduais de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi) e de Política para Mulheres (SPM).

Fotos: Fafá M Araujo

SERVIÇOS:

O QUE – Lançamento do manifesto pelo fim do auto de resistência e abertura da Alvorada dos Ojás

QUANDO – 20 de novembro (quinta-feira), às 8h

ONDE – Terreiro São Jorge da Goméia, bairro de Portão, Lauro de Freitas

O QUE – X Alvorada dos Ojás

QUANDO – Das 21h de 20 de novembro (quinta-feira) às 5h de 21 de novembro (sexta-feira)

ONDE – Dique do Tororó, Corredor da Vitória, Itapuã (até a Lagoa do Abaeté), Avenida Paralela (em frente ao Centro Administrativo da Bahia – CAB) e bambuzal do Aeroporto Dois de Julho

O QUE – Show de encerramento da X Alvorada dos Ojás

QUANDO – 23 de novembro (domingo), das 10h às 14h

ONDE – Palco flutuante do Dique do Tororó

ATRAÇÕES – Cortejo Afro (e convidados), Bicho da Cana, Banjolada, Toti Gira e Opanijé

CONTATOS:

Yuri Silva, assessor de comunicação do CEN – 71 9241-5328

Marcos Rezende, coordenador nacional do CEN – 71 9742-9290 | 9225-9992 | 8813-9905

Ricardo Andrade, militante do CEN em Lauro de Freitas – 71 8132-8838 | 8725-2639 | 9966-5681

Equede Noélia Pires, coordenadora estadual de Religiões de Matrizes Africanas – 71 9331-6044

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