Participei do Encontro Ibero-americano do Ano Internacional dos Afrodescendentes (AfroXXI de 16 a 19/11/2011) e, para quem não pode estar lá,  diversas informações sobre o evento podem ser obtidas nos links abaixo:

http://www.funag.gov.br/afro21/

http://www.atarde.com.br/cidades/noticia.jsf?id=5785867

http://www.atarde.com.br/cidades/noticia.jsf?id=5785793

http://www.atarde.com.br/cidades/noticia.jsf?id=5785561

Proponho-me  aqui a apresentar breves comentários sobre 02 das mesas a que assisti:

Acesso à Educação de Qualidade – Mesa 21

Helena Oliveira, representante da UNICEF no Brasil, apresentou as prioridades daquela agência da ONU no que diz respeito à infância e juventude no Brasil, apresentando alguns dados que atestam a conhecida realidade que faz com que as crianças negras sejam as menos favorecidas no sistema político-econômico e social vigente. As prioridades,  sintetizadas em verbos de ação tais como sobreviver, aprender, proteger, crescer estão descritas no site da UNICEF: http://www.unicef.org/brazil/pt/activities_9420.htm

Da Colômbia, país sul-americano com maior contingente de negros depois do Brasil, tivemos a fala de Maria Isabel Mena que apresentou um projeto que, dentre outras coisas realizou pesquisa de mapeamento do racismo no ambiente escolar na Colômbia. As semelhanças com a nossa realidade não são meras coincidências.

Alta Hooker, reitora da URACAAN (Universidade das Regiões Autônomas da  Costa Caribe Nicaraguense), discorreu sobre os desafios da educação, na instituição que optou por uma modelagem  voltada às necessidades e interesses das comunidades que a URACAAN atende e que são 02 regiões da costa do Atlântico majoritariamente formadas por negros.

No programa do evento estava previsto nesta mesa a participação do Ministro da Educação do Brasil, que não se fez presente nem mandou representante. Um dos argumentos dos que criticam as cotas na educação como ação afirmativa, é que a solução é melhorar o nível da educação pública, daí eu me indago se a ausência do Ministério da Educação do Brasil  naquela mesa, sem apresentação de justificativas,  não é uma evidência da falta de interesse do governo em discutir e adotar soluções de maior e mais duradouro impacto positivo na realidade.      

Participação Institucional dos Afrodescendentes  – Mesa 08

Rayfield Bobb, governador da RAAS (Região Autônoma do Atlântico Sul) da Nicarágua iniciou os trabalhos da mesa lamentando o fato de que estaria apenas coordenando a apresentação das palestras quando preferia falar sobre a bem sucedida experiência dos afrodescendentes do seu país com a criação das 02 regiões autônomas RAAN e RAAS, respectivamente, Região Autônoma do Atlântico Norte e Região Autônoma do Atlântico Sul.  Segundo ele, nas 02 regiões, os governantes e parlamentos locais recebem os recursos oficiais e decidem em que e como aplicá-los. Isso permitiu inclusive a criação de uma universidade (URACAAN) com projeto pedagógico voltado aos interesses das comunidades que atendem. Ray Bobb, destacou a presença , na platéia, de uma deputada negra nicaragüense e da reitora da URACAN que viria a ser palestrante na mesa 21, da qual já tratei neste post.  

O uruguaio Edgardo Ortuño , Vice-Ministro de Indústria e Energia, falou sobre as dificuldades  de inserção no poder uma vez que, no Uruguai, se desenvolveu uma concepção de nação herdeira de cultura branca européia onde os índios foram praticamente dizimados e os 10% de negros são invisibilizados.

A Desembargadora Neuza Maria Silva falou da sua trajetória no Judiciário, onde apesar dos 39 anos de serviços comprovados em carteira e de notório bom desempenho pessoal e das unidades que dirigiu, até hoje precisa provar que ocupa o cargo por mérito, uma vez que sua condição de negra e mulher suscita frequentes questionamentos preconceituosos.

O Vice-Presidente da Comissão Nacional Afro-Costa Riquenha, Walter Robinson desenvolveu sua palestra recuperando, na história, o processo de exploração da mão de obra escrava para a formação e o crescimento econômico das nações escravagistas e apontou a necessidade de se estabelecer a reparação, e consequentemente a erradicação das desigualdades, com base na contribuição dada pela mão de obra escrava na formação desses patrimônios dos quais hoje não recebem dividendos.Uma das observações que mais me chamou a atenção na fala de Robinson é que ele defende a ocupação dos espaços institucionais pelos negros em uma base de proporcionalidade, isto é, numa cidade como Salvador onde temos uma maciça população negra, deveríamos ter mais negros ocupando cargos públicos, inclusive de relevância, na medida da proporção da população negra. Essa observação dialoga com o depoimento da Desembargadora Neuza Silva na medida em que parece existir uma espécie de senso comum que vê o negro como inferior. Desta forma,  um negro para ser desembargador ou senador tem que ter um currículo extraordinário e comprovado altíssimo nível de competência porque o fato de ser negro e ocupar um alto cargo suscitará questionamentos e ele terá que sempre provar que é não é bom e sim excelente. Mas, se para um não-negro ocupar o cargo basta ser bom  porque o negro tem que ser excelente?  Porque se espera que o negro esteja até acima das expectativas do cargo? Para dificultar a sua ascensão e permanência no cargo? Robinson  defende que  não devemos cair nesta armadilha e sim que a gente exija a ocupação dos espaços pelos nossos pares e daí vamos melhorando o processo. Até porque se vários não-negros já estiveram envolvidos em escândalos, corrupção para não falar em flagrantes de atuação de competência medíocre, isso significa que o grupo de onde saíram é imperfeito e são seres humanos sujeitos a falhas, assim como nós. Baseado no que entendi do argumento de Robinson, não estou pregando que nossos representantes podem  praticar crimes contra o Estado, mas sim alertando para que não deixemos que de nós seja exigido um padrão de perfeição que dos demais não é exigido. Porque isso sim também é uma forma de discriminação.

A.C. Ferreira

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