OPINIÃO DE RAÇA

Certa vez, ao produzir um material didático intitulado Educação Diferenciada, primeiro trabalho que realizei pautando o universo feminino, dialogava com uma grande companheira feminista sobre semelhanças e diferenças entre mulheres e homens negros na luta pela igualdade.

Como de costume, minha amiga filósofa, formada por uma das mais conceituadas universidades do país, sentenciou com uma só frase: “Se não fossemos nós, vocês homens negros, nem estariam aqui.” Foram anos tentando decodificar o que a frase simples, mas cheia de significado, esboçava. Do ponto de vista materno, pensei, realmente, sem a figura da mulher, não teríamos homens e nem mesmos mulheres, mas com o tempo pude perceber que aqueles dizeres tinham mais a ver com os mistérios e os segredos do universo feminino, que vão muito além do delicado ato de dar à luz, pois o mesmo precede de escolha, sedução e decisão, e o tempo me fez perceber que nestes quesitos a palavra final é sempre delas.

Quanto mais convivi, mais aprendi com essas mulheres; seja na condição de filho, pai, companheiro, namorado, sobrinho, tio, amigo e, algumas vezes até, como adversário. Sempre a frase de muitos sentidos aparecia para reflexão, pois a existência física e moral nas famílias negras passam essencialmente por elas. No meu caso, tive a felicidade de ter a maternidade, em alguns momentos, disputada; lembro-me do dia em que uma dessas poderosas que tanto admirei chegou para minha mãe e disse: “Cida, esse menino é meu filho, e sabe por quê? Filho, amigo e irmão de verdade são o que a gente escolhe e não aqueles que aparecem em nossas vidas.” Seu nome: Tereza Santos.

 

Homenagear quem, ao longo de cinco séculos, tem se constituído como um dos alicerces não só das famílias negras, mas sim desta nação, é mais que um dever: é a obrigação de um país que tem uma dívida histórica com essas mulheres. Dívida essa iniciada lá na África, quando lhes arrancaram seus filhos para serem, aqui, escravizados, depois elas tiveram que suportar a jornada dupla de sustentação de suas famílias e dos seus senhores, e mais tarde, no pós- escravidão, continuaram nas cozinhas para dar sustento a suas famílias, uma vez que para o homem  negro o sistema havia reservado apenas desemprego e uma tal lei da vadiagem.

Hoje, muito além dos serviços domésticos, elas disputam o mercado de trabalho e sobressaem nas mais variadas profissões. São juízas, delegadas, psicólogas, atrizes, professoras, ativistas sociais, cabeleireiras, produtoras, jornalistas, coronéis da polícia militar, empresárias e existe uma que é capitão de fragata na marinha brasileira. Segundo o último censo do IBGE, grande parte delas são chefes de família no Brasil, mas continuam na base da pirâmide econômica e, por conta da discriminação racial, recebem os piores salários mesmo quando exercem o mesmo trabalho de um homem ou de uma mulher branca e até do companheiro negro.

 Mas, apesar do histórico de opressão, essas Marias, Beneditas, Luislindas, Terezas, Suelis, Alaídes, Penhas, Clarices, Fernandas, Aparecidas, Graças, Isabéis, Lecis, Iaras, Olívias, Marinas, Ivetes, Estelas, Patrícias, Simones, Valquírias, Renatas, Célias, Ivones, Raquél’s e muitas outras famosas e anônimas resistiram, persistiram, choraram, sonharam. E desses sonhos e resistências florescem a essência da alma e da vida do povo brasileiro. Por isso, neste mês é possível afirmar sem sombra de dúvidas: Ah! Se não fossem elas... Realmente não estaríamos aqui.

 

 

* Mauricio Pestana é diretor executivo da Revista Raça Brasil.

Exibições: 532

Comentar

Você precisa ser um membro de Correio Nagô para adicionar comentários!

Entrar em Correio Nagô

Comentário de Otacílio Favero de Souza em 5 março 2013 às 17:22

Na verdade, essa fala de maurício, mnesmo sendo um pouco despolitizada e até certo ponto malefica as mulheres, tem algumas coisas que de fato temos de refletir. abraco a todas e todos

Comentário de Teresa Aragão de Andrade em 5 março 2013 às 9:47

  Texto magnífico ,  amigo . Estamos  ,  todas  nós mulheres ,  homenageadas  .

Realmente , o  que  seria  do mundo , se  não  fôssemos  nós ,  mulheres  batalhadoras ,  guerreiras  ,  críticas ,companheiras , amantes , conselheiras , mães generosas , carinhosas , sensíveis ,  que  tombam ,  mas  possuidoras  de   forças  para  dar  a  volta  por  cima  ! Herdamos  dessas  mulheres ,  e  de  muitas  mais  ,  tudo  isto  e  mais  alguma  coisa .  E  com  isto  podemos  dar  um  VIVA   para  todas  nós ,  mulheres !

Comentário de Jorge Barreto dos Santos em 5 março 2013 às 8:33

Ah meu amigo, e eu que já perdi todas as minhas mais velhas que me ensinaram muito do pouco que sei, me deixaram dizendo que eu tenho que seguir firmemente no proposito do meu caminho, para que eu repassase de forma filosófica a visão BAKONGO de ser, de viver, de receber por direito tudo aquilo que vem atravéz do seu caminho, mostrar que a estrada é larga mas o caminho é tão estreito que so cabe voce.

As RASINDÉS, LAUÊS, GERIGES, OTÁS, GANZULÉS, MUNUDIS, KAMBIRIS,NESIS, IBEREIS, e tantas outras que já se foram, levando o que passaram de conhecimentos religioso sagrando divinal, profanando a sabedoria de cada caminhada. Realmente, AH! SE NÃO FOSSEM ELAS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Quem seria eu?!

Translation:

Publicidade

Baixe o App do Correio Nagô na Apple Store.

Correio Nagô - iN4P Inc.

Rádio ONU

Sobre

© 2019   Criado por ERIC ROBERT.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço