NÃO QUEIRAM INVERTER A COISA!                        

 

            O texto, publicado neste espaço, Correio Nagô, sob o título: Para além do blackface, mostra quanto os herdeiros do colonialismo lutam acirradamente neste país pela manutenção de privilégios que lhes foram consagrados socialmente, dentro do processo histórico. Aimé Cesaire nos ensina que o colonialismo torna o colonizador em um expert em descivilizar, do mesmo modo que faz deste um bruto, na verdadeira acepção da palavra, degradando-o de tal modo que culmina “em despertá-lo para os instintos ocultos, para a cobiça, para a violência, para o relativismo moral, etc. Em Moçambique, a FRELIMO identificou como “xiconhoca”, um tipo de personagem criado pela colonização portuguesa, no curso das discussões sobre ligações e interligações entre colonização e racismo, Spike Lee traz algumas discussões em Bamboozled, Faça a Coisa Certa e mais alguns outros trabalhos.

Até o momento em que o movimento negro contemporâneo resgatou histórias quilombolas e a resistência contra o processo da escravidão e o sistema colonial no Brasil, herói negro que estudávamos nos livros escolares, era Henrique Dias, por este ter combatido quilombos e através de sua brigada, ter perseguido escravos que fugiam.

A elite colonizadora aqui ou em qualquer lugar deste país tem a mesma linha de intervenção. Acabamos de assistir no Rio de Janeiro a Imperatriz Leopoldinense ser limada, sumariamente, por trazer uma história do Xingu para a avenida. Com a participação do Líder Raoni, falando sobre as tragédias impostas pelo homem branco na região Norte do país. Em contrapartida, o público foi brindado com a representação dos povos originários desta terra através da Beija-Flor, que ainda retornou à passarela para o chamado desfile das campeãs, trazendo em seu tema: Iracema, a Virgem dos Lábios de Mel.

            No combate as sucessivas mentiras difundidas pelos colonizadores, a negrada em suas vias e veias de sociabilidades desenvolveram o CORREIO NAGÔ, que viria a ser uma revolucionária ferramenta de comunicação na luta de resistência, sendo uma alternativa de imensurável eficácia até aos dias atuais. E, assim, se constituindo, em um contraponto, a escrita da história em sua versão registrada pelo setor hegemônico que tem se alternado na esfera do poder. Conforme o texto em questão, “Daniela Mercury tem mais de 30 anos de carreira, na qual vem enaltecendo a cultura afro-brasileira”. Na verdade, não se trata de enaltecer, mas sim de se locupletar. É diferente. Que o diga Tia Ciata e as outras Tias Baianas, que no processo da “diáspora baiana” se encontraram e acharam guarida na “pequena África[1] e o tratamento para com a mulher negra, nesse estado, permanece inalterado. Desta forma, não tem essa mulher branca que se pinte de preto, que beba betume, ou seja, qual for seu recurso, que seja capaz de sentir ou de saber o que são as subjetividades adoecidas e machucadas, por esse processo diacrônico, que é a evolução do racismo e do colonialismo nesta sociedade. Nesse sentido, é uma tentativa de minimizar a dor e as angústias desenvolvidas por negras mulheres e que formaram as personalidades destas como se qualquer uma mulher, fosse capaz de sentir e/ou assimilar. Isso é de uma violência estarrecedora.

            Outra coisa, o fato do Axé ser mais um desses patrimônios de luta e resistência que permitiram que chegássemos até aqui, ser patenteado por alguém em defesa de sua herança colonizadora, JÁ É UM BLACKFACE. Aliás, a foto dela com outros pretos, fantasiados em cima do trio do Crocodilo, nos remete ao fato de que nas Leis do Corvo Jim, onde os pretos também se pintavam de preto, provavelmente, por já estarem tão assimilados e desfigurados que se fazia necessário uma fantasia, ou melhor, uma tinta.

Hoje Salvador celebra a pipoca nas ruas, com estrelas locais desfilando sem cordas, com apoio dos governos municipal e estadual. Há 18 anos, Daniela puxa seu trio sem cordas para o público. Desceu com o Crocodilo para a Barra, ainda enquanto circuito alternativo, transformando-o no principal espaço do Carnaval atualmente. http://correionago.com.br/portal/para-alem-do-blackface/

Neste sentido, é preciso deixar claro que ESTRELA E ATRAÇÃO do carnaval de Salvador desde muito que vinha sendo a criatividade do seu povo. Quer fossem com as batucadas, com a sua musicalidade, com a sua expressão libertária através das suas danças ou fantasias que expressassem aquele seu momento, etc. Há um equívoco e/ou tentativa perversa de burlar a consciência das pessoas através de informações distorcidas: A CORDA NÃO É O DRAGÃO QUE TEM ENGOLIDO O CARNAVAL DE SALVADOR, SE LOCUPLETANDO CADA VEZ MAIS.

             Portanto, os Cordões Carnavalescos não são novidades. Agora, colocar todas as cordas de blocos, cordões carnavalescos ou batucadas do carnaval no mesmo patamar, é anacronismo e não soma! Agir assim é ser delinguente para com o fato histórico, colocar a corda de Vai-levando, Desajustados, Apache do Tororó, Os Brutos também Amam, Os Filhos de Filó e Sofia e muitos outros no mesmo enfoque da linha de interesse de blocos como Internacionais, Corujas, Traz os Montes, Eva, Pinel, Crocodilo e outros do gênero, é fraudar a história e Clio não permite. Aliás, sobre a descida do Crocodilo para a Barra, é preciso refletir o carnaval daquele momento e aquele público. Pouco antes de o bloco Crocodilo descer para a Barra, aconteceu um incidente com esse bloco, que no lugar exato da avenida, conhecido como BECO DA RIBEIRA, o bloco entendia que a caetanave, que vinha saindo dos Aflitos, para ganhar a avenida, estava atrasando o seu lado. O “pessoal do Crocodilo” queria se recolher no momento próximo com os foliões do Eva, Camaleão, e outras agremiações da mesma linha, que iam na frente, a coisa só não foi pior por conta de Seu Orlando Tapajós ter interferido, pedindo um pouco de consciência e paciência à direção do Crocodilo, tentando fazê-los entender o que era a caetanave, e que aquilo se tratava de um projeto de resgate.

            Na Barra, não existe essa coisa de pioneirismo, como tem sido cantada, a esse tipo de busca que nega as contribuições da humanidade em seus momentos históricos, Marc Bloch chama de “gosto apaixonado pelas origens da filosofia francesa da história”. Dentro de uma perspectiva diacrônica, há muito que a Barra tem carnaval, agora, dentro da sua linha de tempo e de concepção de carnaval nos instantes vivenciados. O carnaval, hegemonizado pelos clubes e seus bailes e batalhas de confetes, tinha Palmeiras da Barra, Associação Atlética e outros. Depois, veio uma das experiências mais revolucionárias do carnaval de Salvador, que foi o Broco do Jacú, veio o Previsão, e o carnaval dali amadurecendo, até chegar Traz os Montes, e olha que o lançamento do Trio Traz os Montes na Barra era um grito de carnaval. O HABEAS COPOS faz parte desse processo, é bom ter calma na pesquisar, até porque, pesquisas rasas trazem danos irreparáveis à história da humanidade.

            Sobre o projeto das redes de grandes hotéis e restaurantes, o professor Pasqualino Romano salienta algo muito interessante: “o ciclo da nova riqueza, a criatividade passa pela captura e apropriação de uma massa considerável de trabalho intelectual e afetivo em trocas de tarifas consideradas muito baixas em relação ao lucro que dela se aufere”. Tinha que se ter uma forma de levar os pretos, sem que estes se fizessem presente, para o quadro cinematográfico da harmoniosa “cordialidade brasileira”. Essa coisa, de principal espaço do carnaval, está dentro dessa política comandada pelo dragão implacável de que todo ano tem que ter uma música como a nova e mais tocada. E, local das “atrações”, leia-se artistas com chancela de estrela carimbada pelo acervo social, político e cultural que faz a filosofia das Organizações Globo.

O grande problema está em como poderão os oprimidos que ‘hospedam’ o opressor em si, participarem da elaboração como seres duplos, inautênticos da pedagogia de sua libertação.  Somente na medida em que se descobrem ‘hospedeiros’ do opressor, poderão contribuir para o partejamento de sua pedagogia libertadora”, Paulo Freire.In. http://correionago.com.br/portal/para-alem-do-blackface/

            Esse corte em Paulo Freire é deslocado perversamente, completamente descontextualizado. Ele fala do elemento assimilado pela máquina colonial. Assim, não podemos esquecer que um dos grandes debates no final do século XIX no Brasil, antes de ser proclamada a abolição, era sobre a necessidade de abolir a escravidão para que fosse salvo o processo de colonização. A professora, Celia Maria Marinho, traz dados importantíssimos sobre esse período de “confusos” desdobramentos para os anos seguintes da vida do Brasil. Neste aspecto, é bom ficar atento que o professor Paulo Freire bebeu muito na fonte da resistência anticolonial dos povos africanos.

É interessante a ação do colonizador no tempo. Ele diz REFLITAM, pensem como quem diz: quero que sejam humanos porque por mais controverso que possa ser o pensamento do outro não se trata de elaboração racional.  Frei Betto traz uma colocação interessante sobre o assunto ao afirmar que “quando a tendência é colonizar o outro, a coisa vem do princípio de que eu sei e ensino para ele. Ele não sabe”. Do lugar em que esse Rafael dos Anjos fala é de uma academia que luta e reluta diariamente para defender a reserva da herança colonial que ali reside. A equipe de edição do CORREIO NAGÔ tem que ter mais prudência e fazer valer aquilo que afirmam:

Outra missão da nossa rede social é estabelecer um canal de notícias tratando da cultura negra, possibilitando a difusão do que vem sendo produzido por diversas comunidades e grupos militantes do movimento negro. http://correionago.ning.com/page/o-correio-nago

            Digo sem medo de errar que textos desta natureza podem ser encontrados em revistas como CARAS, Veja e demais veículos de comunicação do gênero. Em um país que reclamamos a falta de espaço para debate e reflexão como o sujeito do texto em questão mandou que pensássemos, não é necessário dizer o que ele considera como reflexão nossa até aqui. É muito simples dizer: “Caso você veja algum conteúdo ofensivo, de calúnia, difamação, racista, machista, sexista, de baixo calão, de incitação à violência e que viole os direitos autorais, por favor, comunique-nos”. O estrago está construído, é preciso discutir melhor as publicações, checar as fontes e assumir os cuidados necessários para uma publicação, a coisa CORREIO NAGÔ, ainda é muito forte para nós que não contamos com espaços na mídia convencional.

Uma coisa é postar um pensamento que venha com fundamento mesmo apresentando uma linha contrária; outra coisa é postar uma intervenção sem a menor sustentação, trazendo distorções. Falácias que aqui entram via conceito de Pedro Hispano. O professor Jorge Conceição quando dialoga sobre a identidade ancestral construída a partir do espelho quebrado pelo processo chamado de “pedagogia da senzala”, deixa a seguinte REFLEXÃO:

Descolonizar, não é um ato mecânico, automático, fácil de acionar e obter resultados positivos imediatamente. Descolonizar, é uma filosofia de reconstrução do sentimento de humanidade (equidade) que no colonizado foi distorcida; neste sentido, constitui-se inicialmente nas ações educacionais que passam por conteúdos históricos, geográficos, antropológicos e filosóficos desconstrutores de todas as simbologias e ações negativas, veiculadas nas “didáticas” das famílias, escolas e demais instâncias das relações pluriétnicas: não alteramos as nossas consciências como mudamos de roupas ou sapatos!

 

Eduardo Sergio Santiago de Queiroz

dudassantiago@gmail.com



[1][1]Hoje aqui na Bahia fica essa hipocrisia sobre a paternidade do samba!

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