Aláàfin Òyó ni Ìlú Salvador - O rei de Oyó em Salvador

Salvador recebeu a visita do Alaafin Oyó (rei de Oyó) Obá Ladeyemi III, junto com sua comitiva de cerca de 20 pessoas. Na ocasião, o rei visitou alguns dos terreiros da nação ketu mais antigos com o propósito bem definido de cooperação mútua. De acordo com [3]:

“A cidade de Oyo localiza-se no Estado com o mesmo nome, na região sudoeste da Nigéria. Esta cidade foi capital de um dos maiores impérios africano, tendo ocupado grande parte da África Ocidental, desde onde hoje é a Nigéria, passando pelo Benin e pelo Togo, até ao Gana. A autoridade máxima deste império é S.M.I. o Alaafin Oyo. Este rei tradicional é considerado o descendente direto de Odudua, o fundador e primeiro ancestral dos iorubas.”


Figura 1 - Alaafin Oyó e parte de sua comitiva. Fonte: Facebooks da Secom e da Casa de Oxumarê

Para analisar como o racismo invisibilizou a visita nem é preciso comparar com uma possível vinda da rainha da Inglaterra. Bastasse um rei de Mônaco e a mídia já estaria em polvorosa. Esse duro golpe da mídia e dos governantes (nem a presidenta nem o prefeito apareceram), diminuíram a repercussão mas não a efetividade da visita.

Mas o que representa esse reino de Oyó para o povo de Salvador e região? Do ponto de vista cultural e religioso os laços são fortes e explícitos. O candomblé da nação Ketu cultua mais de 15 Orixás, sendo que dois deles são aclamados como reis: Oxossi e Xangô. Não existe nenhuma confusão em se ter dois reis uma vez que é sabido que cada um tem seu reino independente. O termo Alaketu é utilizado tanto para denominar Oxossi quanto a própria nação e quer dizer 'O Rei de Ketu'. No caso de Xangô, também referenciado como Alaafin Oyó, a sabedoria popular o clama como o rei de Oyó. Esses dois reis que perpetuaram na tradição oral afro-brasileira relatam a existência de dois reinados ainda existentes e atuantes nas terras de origem: O reino de Oyó na Nigéria e o reino de Ketu no Benin (veja foto abaixo).

Figura 2 - Alaketu (rei do Ketu) no Benin. Fonte:[5]

Na página do facebook da festa de Xangô em Oyó (World Sango Festival) foi postado: “Hoje na casa de Alaketu na Bahia o Alaafin traçou a história de relacionamento entre Alaketu e Oranmiyan como irmãos”. Oranmiyan foi o filho de Odudua que fundou Oyó e se tornou rei de Ilê Ifé.

Dentre outras cidades africanas lembradas oralmente, como Irê, Ketu, Ilú Tapá Nupé e Ijexá, Oyó talvez seja a que essa lembrança esteja mais vívida. No culto ao Orixá Xangô, que é muito difundido no Brasil, diversas cantigas são entoadas e a cidade de Oyó é frequentemente citada, como no trecho a seguir:

A unjô lokô / Nós dançamos na fazenda

Oyó nilê... / Na casa de Oyó

Esses conhecimentos precisos têm suas bases calcadas na oralidade da cultura afro-brasileira, uma sabedoria amplamente difundida e genuinamente popular. Com um vínculo cultural e histórico sólido como esse, a troca é uma urgência para manter a vivacidade dos saberes e remontar as peças do quebra cabeça desfeito pelo colonialismo. Somos como dois irmãos que cresceram separados e que agora podem se reencontrar para relembrar da infância e dos valores além de compartilhar experiências e estratégias de sobrevivência.

No sentido de trocar experiências, o Alaafin Oyó, propôs: Fazer uma grande festa de Xangô em Salvador, que reúna os terreiros daqui e os sacerdotes de Oyó. Também que as pessoas daqui pudessem ir para a festa de Xangô em Oyó.

Nem é preciso comentar o enriquecimento cultural que isso pode trazer. Além disso, o ministro de relações internacionais do reino de Oyó, também propôs: Que o povo de axé do Brasil aprenda a falar a língua Yorubá de forma fluente para que nossa comunicação fosse direta, sem a presença de intérpretes.

A tradução foi um ponto de incômodo imenso para o público, pois as intérpretes inglês-português definitivamente não estavam preparadas. Primeiro por estarem totalmente descontextualizadas com relação aos termos, tradições etc. Segundo por não estarem habituadas ao sotaque do inglês nigeriano. Aliás, a maioria da comitiva falava apenas Yorubá, então a comunicação com as pessoas daqui ficou quase inviabilizada. Definitivamente, aprender a nossa língua ancestral é uma necessidade. Pra quem pensa que isso é uma missão impossível, basta conhecer o processo de recuperação da língua pelo qual passaram os judeus. Eles só tinham a língua hebraica sendo usada em rituais litúrgicos (assim como nós) e conseguiram reativar a língua em toda a diáspora. E eles nem tinham filmes, livros e um grande número de nativos pra ajudar no aprendizado, assim como nós temos na Nigéria.

Mas são as estratégias de sobrevivência que marcam um segundo ponto de representatividade dessa visita. O candomblé do Brasil vem sendo moldado desde as primeiras pessoas sequestradas da região de Congo e Angola e trazidos para cá. Porém o conteúdo étnico do país, especialmente em Salvador, se modificou nos séculos XVIII e XIX, quando os diversos grupos Yorubá e Fon entraram em conflito (inclusive Oyó). Esses conflitos estimulados pelos europeus foram molas propulsoras para a captura de milhares de pessoas yorubás, na região da atual Nigéria e Benin.

Com tantos yorubás vindo para Salvador e região, o império de Oyó tomou uma atitude importante: enviar correspondentes imperiais à cidade com intenção bem definida de ajudar a organizar a vida social e religiosa desse contingente. Desses correspondentes, a mais lembrada é Iyá Nassô Oká, a principal fundadora dos candomblés da Barroquinha e Casa Branca. Por isso, ela é lembrada na Casa Branca como Iyá Nassô Oyó Acalá Magbô Olodumaré. Essa atitude deliberada provocou a criação de uma estrutura organizacional para o culto e a vida social da nação Ketu como pequenas réplicas dos seus reinos africanos originais, mantendo hierarquia e costumes extremamente complexos.

Talvez o principal triunfo desse modelo de gestão foi a estratégia de replicação, como espécies de franquias, onde novas casas (micro-reinos) puderam ser abertas reproduzindo as mesmas estruturas hierárquicas da casa matriz. Esse modelo futurista possibilitou a propagação e manutenção das casas de nação Ketu em todo o território nacional, contribuindo como estratégia de difusão e resistência.

Essa tecnologia gerencial não é novidade para Oyó e reinos próximos. Nos séculos XVII e XVIII, Oyó teve a experiência de permitir a existência de reinos menores dentro do seu império, como Ife, Ijesha, Egba, Ijebu, Sabe e Owu. Atualmente, Oyó está dentro da República Federal da Nigéria, mas mantendo certa soberania.

E fazendo uma releitura desse modelo, o rei sugeriu que fizéssemos uma nova implementação: A fundação de um reino dentro do Brasil que possa reunir todo o povo de Axé e ser parceiro do reino de Oyó.

Há muito tempo espero ver alguém falar isso publicamente. Muitos prós e contras podem ser discutidos, mas é um princípio do processo revolucionário que estamos precisando. Óbvio que o rei sugeriu isso visando uma relação em que todos saem ganhando. Oyó anda enfrentando problemas e um reino parceiro da magnitude do tamanho do povo de candomblé do Brasil iria ser uma ajuda e tanta para eles. A gente sairia ganhando com o fortalecimento cultural e a unificação do povo de santo.

Inclusive, a vinda do Alaafin por si só foi um evento extremamente agregador para os terreiros como nunca antes visto, com várias (os) Iyalorixás e Babalorixás se visitando. Ele próprio falou diversas vezes da importância dessa união.

Figura 3 - Mãe Stella, Mãe Carmem e o Alaafin Oyó no Gantois. Fonte: [6]

Não podemos deixar de mencionar que a visita também cumpre um papel importante para autoestima do povo negro que nunca vê sua história contada de um ponto de vista em que existem reinos organizados que duram séculos e perpetuam tradições. Mais do que isso, trouxe uma informação para o povo de axé que o povo que deu origem às suas tradições existiu e existe em África, indo de encontro ao processo de 'desafricanização' do candomblé.

Finalizo relatando um dos momentos mais bonitos que presenciei durante a visita. O rei e sua comitiva já estavam saindo do terreiro da Casa Branca, descendo as escadas, quando ele resolve voltar e de dentro do barracão pede que encontrem Iyá Tieta, uma das mais antigas da casa. Ao encontrá-la ele tira uma das contas do pescoço dele e coloca no dela dizendo: “Isso é para trazer amor para sua vida”. Um gesto de humildade e reconhecimento ao candomblé da Bahia que ele descreveu como a cultura Yorubá mais viva e vibrante fora da África.

O autor:

Igor Dantas é Assobá do Ilê Axé Yaominidê (Terreiro do Babalorixá Alberto de Omolú)

Referências:

[1] Tradições orais do candomblé

[2] Discursos do Alaafin Oyó Obá Ladeyemi III em Salvador

[3] http://intercambiobrasilnigeria.blogspot.com.br

[4] http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/do-calundu-ao-candomble

[5] http://odili.net/news/source/2011/aug/21/615.html

[6] Página no Facebook do World Sango Festival (promovido pelo reino de Oyó)

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