ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O MOVIMENTO AFRODESCENDENTE NA AMÉRICA LATINA E CARIBE: EM QUE SITUAÇÃO ESTAMOS HOJE?


Por Jesús Chucho García (Red AfroVenezuelana)


Ao final da década de noventa, o movimento afrodescendente, em sua diversidade e pluralidade ideológica, logrou uma extraordinária coesão para avançar em três linhas básicas de ação.


A primeira esteve direcionada na necessidade de articular-se nacional e transnacionalmente para dar resposta a problemas comuns globais contra o racismo e a discriminação racial, tendo seu maior êxito (Chile, 2000) e Terceira Conferência Contra o Racismo, a Xenofobia e suas formas correlatas (considerado a maior conquista dos últimos séculos das e dos africanos e seus descendentes). Dali se desprenderia um plano de ação que hoje segue servindo de guia e colocou o tema para os governos da América Latina e Caribe.


A Segunda linha tratou de incidir nos planos de desenvolvimento inspirados no Consenso de Washington onde as pautas foram fixadas pela Banca internacional (Banco Interamericano de Desenvolvimento, Banco Mundial) e, somado a eles, as empresas capitalistas com responsabilidade social (kellogs, Ford, entre outras).


Esta etapa foi de grande agressividade por parte da Banca Internacional que produziria uma espécie de “endividamento etnosocial” devido a que os gerentes desses bancos seduziram nossos movimentos para que incidíssemos em nossos governos para pedir empréstimos para resolver nossa crise estrutural, exemplo disso foi o famoso Plano Pacífico (Colômbia) ou projetos no Peru e Equador nas comunidades afro destes países. Aqui, sem dúvida, não é demais mencionar o interesse do Departamento de Estado dos Estados Unidos de lançar uma ofensiva de influência nos movimentos afro através da USAID, Diálogo Interamericano e a Fundação Interamericana. Esta aqui a gênesis do que mais tarde chamaríamos de embrião da afro-direita.


A Terceira linha está orientada no sentido de discernimento ideológico do movimento afrodescendente que podemos classificar em três tipos de comportamentos.


TIPO A, onde se localiza um setor do movimento que se adequou com pouco sentido crítico a estrutura governamental e pouco a pouco foi caindo na desmobilização como movimentos sociais autônomos, deixando-se absorver pela estrutura do Estado-governo, não sabendo diferenciar entre a agenda do Estado e a agenda própria do movimento, terminado o Estado-governo impondo-lhes a agenda.


TIPO B, aqueles setores que conseguiram participar nos postos dos poderes públicos e legislativos convertendo-se em Ministros, Vice-ministros e Diretores de instituições, logrando alguns acertos e outros tragados pela tecnoburocracia que os separou totalmente das comunidades. Os dos poderes legislativos que ocuparam e ocupam postos de deputados e senadores em alguns Congressos e Assembléias, conseguiram impulsionar algumas legislações a favor de nossas comunidades, porém muitas vezes estas legislações se converteram em letra morta porque talvez não emergiu como uma necessidade totalmente sentida por nossas comunidades ou simplesmente foram defeituosas, sem aplicabilidade prática para resolver os problemas cotidianos.


TIPO C, aquelas organizações que levantaram as bandeiras da construção de uma sociedade socialista onde os referentes políticos e ideológicos da quilombagem das e dos africanos e seus descendentes são vitais para construir a nova humanidade que exigem milhões de afrodescendentes. Essa nova humanidade com bases ancestrais plasmadas na ética, política e desenvolvimento sócio-econômico das Américas pouco tem sido tomada em conta pelos ideólogos que estão moldando o socialismo do século XXI (Venezuela), a Revolução Cidadã (Equador), o Socialismo Comunitário (Evo Morales) ou o Neotupamarismo (Uruguai). Ainda não há existido uma ponte sólida entre os partidos que estão no poder nestes países e os movimentos sociais revolucionários afro. Essa é uma grande debilidade e devia entrar no debate dos fóruns nacionais e internacionais das perspectivas para 2011 como Ano Internacional das e dos Afrodescendentes.


Parecia existir uma visão sedimentada solidamente na história contemporânea dos aportes africanos e seus descendentes apenas ficaram nas lutas anticoloniais como cota inicial das guerras de independência e se congelaram há séculos atrás. Nossas contribuições transpassaram as barreiras do tempo e foram protagônicas ao largo das lutas da segunda metade do século XIX, as lutas contra as ditaduras do século XX e as construções da abertura plural dos Estados e a construção das democracias participativas que romperam com as democracias “representativas” estabelecida pelos Estados Unidos e OEA.


Hoje os focos de construção das diferentes modalidades socialistas (Equador, Bolívia, Venezuela, Nicarágua, Uruguai, sem deixar de mencionar Cuba) são uma referência obrigatória na luta contra as distintas formas de dominação imperialista, contra as distintas formas de violar nossas soberanias e é aí onde o movimento afrodescendente deve insertar-se para além da luta contra o racismo, a discriminação racial ou o “censismo” muitas vezes mediados pelas agências, os organismo multilaterais, as grandes ONG´s, a Banca Internacional e o Departamento de Estado dos Estados Unidos.


Não estamos dizendo que temos que baixar a guarda contra o racismo, já que sua vigência se metamorfoseia, ao contrário devemos redimensionar nossas lutas no sentido mais político, não estamos dizendo que não devemos contar-nos no levantamento censitário como estratégia para elaborar políticas públicas mais acertadas, porém a luta vai mais além, vai na inserção político-ideológica das novas democracias, da inclusão nas estratégias de longo prazo de nossas Estados em processo de transformação.


Neste sentido hoje devemos perguntarmo-nos: como estamos os afro nos estatutos dos partidos de governos dos focos progressistas? Como estamos os afro nos planos regional como a ALBA? Como estamos os afrodescendentes nas relações África-América do Sul nas Cúpulas que se realizam a cada dois anos entre os países da África Subsahariana e América do Sul onde Equador tem nestes momentos uma grande responsabilidade igual a de Venezuela e Brasil? Como estamos os afrodescendentes na democratização das terras e desenvolvimento sustentável que garanta a soberania alimentar? Como estamos os afro na luta para freiar o aberrante câmbio climático produzido pela emissão de gases, o desflorestamento, o urbanismo anárquico, sabendo que as reservas de águas e biodiversidade em geral estão localizadas em nossos espaços ancestrais?


A agenda do movimento deve ser enfocada irreversivelmente na construção e consolidação da sociedade socialista, antiimperialista, por uma nova humanidade. Não podemos seguir como meios tons neste sentido. Sabemos da existência de uma política dirigida desde os setores mais racistas e afrooportunistas dos Estados Unidos para ocupar os espaços afrodescendentes, tendo sua maior expressão na Colômbia, Honduras e de um setor do movimento negro brasileiro de onde a ex-ministra de Estado Condoleza Rice havia incluído o tema afro e logo foi reforçado por Hilary Clinton em sua visita a Bahia de Todos os Santos.


O setor mais agressivo na construção da afrodireita o constitui Colômbia com o governo de Uribe e, agora, com o governo de Santos. É hora de criar e juntar esforços com os setores afroprogressistas das Américas para estar ao compasso da dinâmica político-social e romper a barreira da auto-exclusão a que nos reduzimos (o folclorismo inútil de frágil sorriso, o “censismo”, a luta contra o racismo sem maior transcendência). Devemos simplesmente apostar na construção de um modelo socialista com inclusão afro partindo da experiência histórica construída tragicamente nas Américas e no Caribe e com as referências de Kwame Kruma, Amilcar Cabral, Shankara, Neto, Machel e Julius Nyerere. O ano de 2011 deve ser o ano para impulsionar a luta ideológica revolucionária nos movimentos afrodescendentes da América Latina e Caribe.

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