Armário de memórias

 

 

(*) Texto de Aparecido Raimundo de Souza.

(**) Sobre o autor.

 

 

1

 

QUANDO EU tinha quatro anos de idade, mamãe me prendeu no armário de seu quarto pela primeira vez. Não propriamente o que hoje se conhece por roupeiro, mas um bem talhado guarda-roupas gigante, mandado fazer sob medida todo em Jacarandá maciço, sisudo, atilado, dezesseis portas, com penteadeira embutida, espelho e maleiro. Cheio de vestidos, calças, cuecas, calcinhas, sapatos, malas velhas, ferramentas, retalhos, traços, troços, e traças. Do primeiro castigo passou para o segundo e se estendeu para o terceiro. Era só fazer algo errado e a punição vinha a cavalo. Além de não poder assistir aos desenhos prediletos na televisão, como “Lippy The Lion&Hardy Har Har, Magilla Gorilla e seu Peebles, Pantera Cor de Rosa, Pica Pau, Bacamarte e Chumbinho, Tartaruga Touché e Dum Dum, Papa Léguas e o Coiote, Timão e Pumba, WalleyGator, Shazzan, Popeye, He-Mam&She-Ra, Coelho Ricochete e Blau Blau e Os Herculoides” entre outras pérolas da época.  Igualmente não usufruiria dos filmes de Jerri Lewis, Daniel Boone e Zorro, nas sessões de domingo à tarde, no cinema local, bem ainda, ficaria de fora da piscina do clube dos funcionários, nem participaria das peladas com os amigos Joãozinho e Timóteo, no campinho que distava algumas quadras da residência do Rafael, outro menino que formava o grupo dos “inseparáveis”, que se reunia na biblioteca da escola, não com o intuito de estudar, ao contrário, engendrar confusões cabeludas, e, claro, pô-las em prática, como da última, onde culminou com a professora de matemática baixando na emergência do hospital.

 

2

 

Aos dezoito, por impulso ligado a um padrão cotidiano de família, foi papai, a bola da vez, a conhecer o glorioso espaço. Apareceu um homem em casa, cobrando um dinheiro grande, que ele  tomara emprestado. Por malbaratar a grana em coisas supérfluas, como corridas de cavalo e a aquisição clandestina de galos de briga, não conseguira pagar sequer os juros. Pela cara de poucos amigos da criatura, percebi que o agiota não arredaria pé do portão. Resolveu ir embora de vez, quando o fiz ingressar na sala e o acomodei na ampla bergère, guarnecida de almofadas aconchegantes e solicitei à Dorinha, nossa empregada, que servisse um café presidido com farta bandeja de biscoitos de polvilho e bolo de chocolate. Enquanto esperava pela bebida, o cidadão, ao invés de se ater ao “Gordo e o Magro” com Stan Laurel e Oliver Hardy, preferiu correr os olhos, como um gato escaldado, filmando tudo, centímetro por centímetro, sem deixar escapar um canto que fosse. De onde sentara o rabo enorme, podia ver a cozinha, a porta do meu quarto, do quarto de minha irmã e o quarto dos meus pais, e nesse, especificamente, a cama e os cacarecos que se guardavam lá embaixo. O armário altaneiro ficava posicionado numa parede intermediária aos olhos do intruso e papai somente seria, por ele descoberto, se de repente, desse um espirro ou uma de suas tossidas infernais resolvesse fazer gracinha, devido ao pigarro produzido pelo uso constante do tabaco. Depois que o camarada se pôs a caminho, acorri a lhe devolver a liberdade almejada. Recordo que meu velho saiu muito nervoso, as maçãs do rosto vermelhas, as mãos tremendo bastante. Nem uns bons goles da “purinha” que ele guardava a sete chaves, ajudaram a acalmar os ânimos.

 

3

 

Enfiei, às pressas, a nossa empregada Dorinha no garboso covil dos enrascados, quando ela marcou encontro com três namorados e os espadaúdos e elegantes, com suas fuças afogueadas apareceram, quase na mesma hora. Era um domingo, faltava pouco para as nove da noite. A bisca tomara banho, se emperiquitara toda e quase saia com a serviçal da vizinha, para ir à praça da matriz, onde o cantor Jerry Adriane faria um show beneficente, quando ouvimos o ecoar de palmas insistentes. Ao atender me deparei com o primeiro do trio de marmanjos. Mandei que entrasse. Lembro que inventei uma desculpa esfarrapada e consegui despachar o sujeito. O outro chegou logo depois, e, por pouco, uma confusão sem precedentes não criou forma. O terceiro (cara de babaca semelhante aos antecessores) foi mais trabalhoso: inventou de tomar água, de ir ao banheiro, de usar o telefone, essas coisas que os chatos de galocha artimanham para torrarem a paciência daqueles que nada tem a ver com os assuntos que eles criam para tirarem a gente do sério. Fiquei furioso. Contei tudo à mamãe quando ela chegou do serviço. Minha velha deu um esbregue na desmiolada. Suas palavras, contudo, soaram em vão, como se gritadas numa galeria vazia. Depois disso, por um curto espaço, a vida, voltou ao normal.   

 

4

 

Meti, correndo, minha irmã Beatriz no elegante e acolhedor guardião dos desajuizados, quando Eurípides, o noivo dela, marcou presença, sem avisar. Parecia violento a olhos não adestrados,  no fundo, não passava de um palerma.  A sem vergonha, tirava umazinha, em seus aposentos, curtia o maior love com o filho do dono da mercearia, o Everaldo, um russo malhado, bombado, cheio de tatuagens e a boca repleta de obturações em ouro. Por ventura, o tempo exato de acomodar a ordinária e a sua pureza viciosa em inescrúpulos em meio às prateleiras e gavetas e voar com o Everaldo para debaixo da cama da Dorinha (que adorou a ideia) e aferrolhou a porta metendo a chave no bolso do avental. Tempestade acalmada, Dorinha, cretina como sempre, me segredou que preferiria, tivesse enviado o Eurípedes, em lugar do Everaldo, uma vez que esse musculoso varão, em tudo, se constituía no seu espécime de homem desejado para compromissos mais sérios, como casamento de véu e grinalda, com direito a igreja, padre, padrinhos, limousine e uma penca enorme de filhos correndo pra lá e pra cá.

 

5

 

Encafuei mamãe na toca salvadora, acabara de guardar o carro na garagem e ajudava a Samanta, minha namorada, com as sacolas de compras até a dispensa. Pura sorte. Questão de segundos. Papai regressara, de repente, de uma viagem que planejara há meses, mas não sei por que cargas d’água abortara o compromisso, sem mais nem menos. Mamãe, nesse interregno, recebia uma saraivada de beijos e abraços, atarracada aos encantos de um rapaz (amigo de infância de ambos). O cidadão morava alguns portões abaixo do nosso, mesma calçada que servia de piso para as mesinhas e as cadeiras do bar do Joaquim “Toco de Cigarro”. O proprietário tinha sido sorteado pelos seus fregueses com esse apelido, porque vivia com uma guimba apagada dependurada no canto esquerdo da boca. O bafafá redundou numa correria dos diabos. Os amantes, surpresados, se levantaram confusos. Mamãe teve o tempo cronometrado no relógio da sorte para catar, do chão, às coisas do camarada e carregar para o generoso abrigo. O Léo (era esse o nome do apaixonado e amigo dos dois) disparou como um poldro brabo, pela janela, nu em pelo vestido unicamente com um sobretudo verde claro que pertencera a vovô Custódio. Meu pai tinha um ciúme dessa peça de roupa, como das suas coleções de cartões telefônicos e rolhas de garrafas de vinho. A escorregadela da autora dos meus dias atonou, mais tarde, quando o folgado ricardão, na pressa de não ser pego com a boca na botija, foi visto todo esfolado. Ao sair a trote picado se rebentou todinho caindo por cima de uma pilha de tijolos que papai comprara para erguer um puxadinho de dois cômodos com banheiro nos fundos do quintal para a Beatriz que se casaria, em breve, não com o Everaldo (que a engravidara), mas com o noivo, o Eurípedes que, numa cacetada só, acumulou, de graça, a alcunha de chifrudo, ou melhor, a  fama  de comer a merenda antes do recreio, e, de roldão,  tomando no rabo,  assumindo o crescimento de uma  barrigada indesejada, mesmo sabendo não ser ele o autor da façanha.

 

6

 

Papai, com seu corpanzil embarafustou sala adentro. O rosto bulboso em brasa, as mãos crispadas. Assemelhava, sem tirar nem por, a um desses artefatos bélicos prestes a explodir. Correu até a cozinha, tomou uma xícara de café amargo, em seguida um cálice da sua inseparável “purinha”. Na volta, deu comigo enrodilhado nos braços da Samanta, assistindo um filme na seção da tarde, com a cara mais sem vergonha e deslavada deste mundo.

- Cadê sua mãe? – perguntou seco, os olhos castanhos estreitados, as narinas raiadas de veias palpitando. – Onde se enfiou aquela desgraçada?!

- Foi ao supermercado – menti temeroso e já esperando o pior.

- Vou lá conferir. Vocês dois, não arredem os pés daqui... 

Acompanhamos a sua curta trajetória. Entrou no carro e partiu apressado em direção ao alvoroço do tráfego que àquela hora se fazia infernal. Não sei, ao certo, se chegou realmente até o destino que lhe indicara, ou se tomou outro rumo no meio do caminho. O fato é que demorou bastante, o necessário para que eu acudisse a mãe da emaranhada entaladela que se vira prisioneira. Lembro que pulei do sofá, e, afoito, ganhei o quarto. Minha velha estava branca, com pequenas cicatrizes lhe cerzindo o rosto pálido. Parecia um cadáver sem vida, alma arpoada pelos dissabores. Eu a havia confinado, tirado a chave e enfiado no meio da calcinha de Samanta (caso papai resolvesse me revistar, ou espiar no interior do roupeiro), igualmente como costumava fazer com minha irmã nos tempos em que crescíamos no alvor sereno da infância distante. Passado o impacto do susto, a ajudei sair do aljube. Ela estava completamente tomada de suor, misturado com resquícios de pavor e medo. Afrontada na sua dignidade, com vitupérios e aleives, se abriu num choro convulso, como se algemada a grilões indestrutíveis.

- Meu Deus, seu pai?!

- Da mesma forma como entrou, saiu no seu rastro.

- Aonde ele pretende me procurar?

- Disse que a senhora deu um pulinho no supermercado.

- E ele?

- Resolveu averiguar.

- Será que voltou por desconfiar de algo?

- Só Deus sabe como tudo isso terminará...

 

7

 

Papai, claro, não atinou com o que saíra a caçar. Na volta, soubemos por terceiros que cruzou os bigodes com o Léo, se esgueirando, corrediço, como se fugisse do tinhoso, abobalhado por entre postes, carros estacionados e latões de lixo, agasalhado pela vestidura de vovô, a lhe cobrir as vergonhas e partes do corpo esfoladas. Graças a Deus, nada fez, contra o biltre. A força do temor à religião que seguia, como uma hierarquia militar, que da criança ao mais idoso curvava os ímpetos de devolver o mal com outra ação igual, ou pior, lhe abrandou o coração. O fato de se deparar com a criatura cabisbaixa, envergonhada e, de quebra, escoriada e lanhada, achou que, em face da canalhice que cometera, pela consequência de ter saído dos braços aconchegantes da amada proibida, feito um cão sem dono e se espatifado, incontinenti, sobre uma enorme pilha de lajotas, concluiu que o Senhor do Universo lhe aplicara o merecido castigo. Que seguisse seu caminho em paz...

 

                            Final

 

Depois desse episódio, algumas mudanças bruscas aconteceram. O pai largou da mãe e passou a morar sozinho numa das casas que mantinha de aluguel, até que, cinco anos depois, faleceu de um ataque fulminante do coração.  Mamãe casou com o Léu meses à frente. Minha irmã teve quatro filhos. Dorinha ajuizou, arranjou um cobertor de orelha para esquentar suas ganas e, apesar disso, continuou com a gente. Eu me enrolei com a Samanta. Desse embaralho tivemos uma filha linda. Quanto ao móvel centenário continua firme e forte. Perdura saudável e disposto, no mesmo lugar. Serve, ainda, de alternativa de fuga para os novos, quando aprontam. O Léu, por exemplo, apesar de jurar de pés juntos que ama a mamãe, deu umas puladas de cerca. Arranjou uma fulaninha. Comeu se divertiu, depois meteu o pé no traseiro da pobre infeliz. Inconformada, a vagabunda não entregou os pontos. Descobriu que o “seu homem” era casado e, de posse do endereço, veio, como se diz a boca miúda, “botar as coisas em pratos limpos”. Mamãe amoitou o sem vergonha, no auspicioso e querido cantinho dos transgressores e marginalizados, não sem antes prometer, opugnada, depois que se livrasse da biscate arrancaria os pendurados do companheiro, com uma afiada faca de cozinha. Ontem maloquei meu sobrinho Eliseu (o adolescente encrenqueiro de minha irmã Beatriz). Ele quebrou os dentes de um colega da escola e os pais do moleque vieram tirar satisfações na nossa beira, com a polícia a tira colo.

 

(**) Aparecido Raimundo de Souza, 62 anos é jornalista.

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