“Arte pela arte não existe” entrevista com o ator e diretor Ângelo Flávio



Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

No começo de maio, Ângelo Flávio, 33, passou três dias em Mucugê, na Chapada Diamantina, filmando o longa À Beira do Caminho, de Breno Silveira, que tem João Miguel como protagonista. “Foi massa. Pela primeira vez na vida andei de helicóptero”. Um santuário toma o centro da sua casa, no Barbalho. “Levei na viagem minha guia de Xangô, para trilhar sempre um caminho de concentração e fé”. Ao lados de velas, orações e contas, os dois troféus Braskem de Teatro que ganhou, o primeiro em 2004, pela atuação na peça Evangelho Segundo Maria, e o outro de 2007, quando o CAN – Coletivo de Atores Negros Abdias do Nascimento, que fundou, venceu na categoria revelação com o espetáculo O Dia 14.

Quando foi receber o primeiro troféu, levou ao palco uma folha em branco. “Gente, de que cor é esse papel?”, provocou. Ninguém respondeu. “Vamos lá, gente. Tá, eu mesmo respondo, é branca”. Com uma caneta, desenhou um ponto preto. “De que cor é esse papel?” Seguiu desenhando outros pontos. “Tem muitos pontos pretos aqui nesse papel, não é? Mas ele continua sendo branco. E as pessoas querem me convencer de que isso é a democracia: pontos pretos numa estrutura que continua branca”.



Filho de empregada doméstica, Ângelo lembra que teve que pedir uma bolsa para conseguir frequentar o Curso Livre de Teatro da Ufba. “Vinha e voltava andando todo dia, da Baixa de Quintas até a Escola de Teatro. Nos intervalos vendia bolo e pastel para meus colegas”. Quando decidiu fazer vestibular, pediu dinheiro emprestado ao professor para pagar os R$ 99 da inscrição.

Em meados do curso de Direção Teatral, montou o CAN, à que 12 atores negros aderiram (hoje são sete). “Me incomodava muito com aquele teatro para a elite, sem compromisso. Ou era comédia ou drama burguês”. Como montagem de conclusão do curso da Ufba, dirigiu o elogiado Casa dos Espectros (“investi tudo que tinha no banco”). Depois, montou O Dia 14, sobre os acontecimentos pós-abolição. “A Casa... teve só duas indicações ao Braskem. Achei injusto. Querem negar meu discurso fragilizando a minha arte. Aí quando O Dia 14 ganhou cinco indicações, disseram que era para compensar… Nunca tô no mérito de PN! Meu discurso não é para a comunidade negra, é para o meu País. Vou morrer brigando por direitos coletivos. Nem se for fazer novela a Globo vai me cooptar”.

No Rio de Janeiro, ele já participou da montagem de Silêncio, da conceituada Companhia dos Comuns, e dirigiu a diva Ruth de Souza no monólogo Transegun. A Bahia, ele diz que não larga. “Sou apegado a Salvador, apesar da síndrome de provincianismo que existe aqui”. Com a CAN, Ângelo pensa em montar, no ano que vem, um infantil e um espetáculo na Estação da Lapa, no metrô. “Espero que até lá o metrô exista”. Por tudo isso, não tema dizer que sua obra é panfletária. “Teatro é discursivo, não tem pra onde correr. Brecht é panfletário. A gente está vivendo numa inércia. Arte pela arte não existe. A arte é sempre um mecanismo de leitura”.

Cinema

Quando pequeno, Ângelo adorava ir ao cinema ver os Trapalhões, acompanhado pela mãe. Depois, “mais velho”, com uns 13, 14 anos, ia sozinho, pegando carona na traseira do ônibus para chegar ao Glauber Rocha. Esperava a confusão da saída para entrar sem pagar. “Não perdia um filme”.

Ele conta que estava sem “paciência” para atuar, mas foi novamente seduzido pelo cinema. Além do longa À Beira do Caminho, do diretor de Dois Filhos de Francisco, Ângelo também está em Quincas Berro D’água, de Sérgio Machado, Estranhos, de Paulo Alcântara, e em O trampolim do forte, de João Rodrigo Mattos. “Desisti de participar de Capitães da Areia porque achei que meu personagem ia alimentar uma histeria homofóbica. Não quis”. Ele também participou do longa Eu me lembro, de Edgard Navarro, e do premiado curta O fim do homem cordial.

http://revistamuito.atarde.com.br/

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Comentário de Paulo Rogério em 16 maio 2010 às 13:28
Valeu, Edson..Só uma coisa, a matéria não é minha, é do jornal A Tarde.. Um abraço!
Comentário de Edson Cadette em 16 maio 2010 às 12:48
Paulo,
Perolas da juventude pensante afrobrasileira como este jovem podem ser encontradas em todas as partes deste imenso pais. Porem, o nosso grande problema e encontrar mais espacos na cultura nacional para expormos nossas ideias. Infelizmente os donos do poder no pais ainda sao bastante conservadores quando o assunto e espaco para ideias diferentes do eixo branco Europa, EUA. Temos que seguir buscando o nosso proprio espaco com nossas proprias ideias. Parabens por mais este excelente artigo.

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