Artigo de Fabiana Mascarenhas: Respeitem meus cabelos crespos

Artigo originalmente publicado na editoria de Opinião do jornal A Tarde, Salvador-Bahia, no dia 14/06/2012

Fabiana Mascarenhas*

Quando criança tinha vergonha do meu cabelo. Sonhava em ter o penteado igual ao das amiguinhas de sala, sempre liso e brilhante. A televisão, a mídia, a indústria de brinquedos, a própria sociedade, tudo me levava a achar que era feia por ter cabelo crespo. Não à toa, fui uma das inúmeras crianças que teve apelidos por conta da cor da pele. Nascida de um pai negro e uma mãe branca, no seio familiar, meus pais me faziam entender que era linda do que jeito que nasci. Nunca houve discurso em defesa dos negros, assim como nunca tiveram o costume de arrumar o meu cabelo no estilo “afro”, com o objetivo de reafirmar a minha negritude.

Talvez, por isso, um episódio ocorrido na última semana tenha me deixado tão sensibilizada. Uma criança negra, com cabelo escovado, entrou com a mãe em um elevador lotado de um centro comercial de Salvador. A criança – que imagino ter entre sete e oito anos –, olhou para mim e, depois de muito examinar, perguntou porque o meu cabelo "é para cima". Explico que ele não é para cima, que penteio assim porque gosto e acho bonito. Em seguida, ela diz: "Ele é duro, né?". Neste momento, todos no elevador riem. Respondo que ele é crespo, não duro. “Não existe cabelo duro ou mole, mas liso, cacheado, crespo. E o seu, você acha que é como?”, pergunto.

Ela responde que a mãe diz que o cabelo dela é duro e, por isso, ela alisa. “Não gosto. Queria ter o cabelo assim como o seu, mas minha mãe não gosta. Diz que é coisa de preto pobre”, fala, inocentemente. A mãe, sem olhar em nenhum momento para mim, dá um forte beliscão na garota e diz: “Menina, como é que você diz uma coisa dessas! Cale a boca!”. No mesmo instante, nasce um silêncio constrangedor no ambiente. No entra e sai das pessoas, a criança, com cara de choro, deixa de olhar para mim e mantém o olhar fixo na porta do elevador.

Chegamos, então, ao 11º andar. Tenho que descer. Antes, porém, falo com a garota: "Sua mãe tem o direito de ter a opinião dela e escolher de que maneira ela deve criá-la, mas ter o cabelo desse jeito não é coisa de preto pobre. Não importa se a pessoa é preta, branca, pobre ou rica, ela tem o direito de usar e fazer o que ela quiser com o cabelo. Quando você crescer e puder cuidar do seu próprio cabelo, aí você deixa assim, do jeito que você quer, tá bom?”.

"Mais do que ensinar a filha a valorizar a própria raça, os valores que me foram passados tinham como base o respeito à diversidade. E foi assim que cresci, tendo o entendimento de que, mais do que na aparência, a minha negritude estava na consciência"

A garotinha apenas sorri. A mãe, por sua vez, olha para mim com cara de indignação. Puxa a menina para perto dela e diz, em tom alterado: “Pode deixar que da minha filha cuido eu. Ela vai ter o cabelo do jeito que eu quiser”. Foi, então, que respondi: “Até pode ser, mas a raça dela é essa, minha senhora. E isso, felizmente, você não pode mudar”. A porta do elevador se fecha.

Volto a lembrar dos meus pais, que sempre me mostraram que toda e qualquer pessoa deveria ser respeitada do jeito que era, independente da cor ou classe social. Podia ter o cabelo trançado, encaracolado, escovado, black power, enfim, cada um adere ao estilo que lhe convém. Mais do que ensinar a filha a valorizar a própria raça, os valores que me foram passados tinham como base o respeito à diversidade. E foi assim que cresci, tendo o entendimento de que, mais do que na aparência, a minha negritude estava na consciência.

O caso chama atenção pela total ingenuidade da criança e pelo posicionamento da mãe, tão negra quanto eu. Depois de a porta do elevador se fechar, ficou em mim a tristeza pela garota. Que tipo de valores essa mãe está passando à filha? Me pergunto se tendo este tipo de criação, ela crescerá tendo um posicionamento diferente. É bem provável que não, o que dificulta ainda mais o combate ao preconceito, uma vez que serão crianças como ela os agentes do futuro. Estarão à frente das empresas, dos centros religiosos, do governo, reproduzindo o preconceito que perdura há anos, justamente por conta dessa transferência absurda de valores. Não podemos esquecer, ninguém nasce preconceituoso. Portanto pais, eu lhes pergunto: Que tipo de valores vocês estão passando para seus filhos?

* Fabiana Mascarenhas é jornalista e repórter do jornal A Tarde.

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Comentário de antonio carlos santos da silva em 18 junho 2012 às 10:05
Infelizmente, fatos como esses ainda ocorrem em nossa sociedade, pelo fato de que a mídia não privilegia nem referencia os afrodescendentes como padrão de beleza,cultura, moda nas novelas e propagandas, os livros didáticos só reproduzem o negro ainda como escravos e, ainda sofremos com a falta de compromisso e testemunhos de alguns professores em disseminar a historia e cultura africanas como devem ser passadas às novas gerações. Parabéns por mais um alerta...não podemos deixar passar "em branco" as oportunidades de engrandecer a nossa "raça" é mostrar sem medo a sua importancia
Comentário de Inaiá Boa Morte Santos em 15 junho 2012 às 22:10

Muito boa esta reflexão companheira parabéns. 

Comentário de nivaldo pereira em 15 junho 2012 às 11:40

MUITO BEM POSTADO O SEU TEXTO QUERIDA JORNALISTA FABIANA MASCARANHAS QUE PARTICIPAÇÃO EDUCATIVA VOCÊ TEVE FRENTE A CRIANÇA E A SUA GENITORA. ONTEM FUI VER A GRANDE CANTORA ALAÍDE COSTA E VI COMO ELA TEM ORGULHO DE EXIBIR O SEU CABELO CRESPO. QUERO CRER QUE ELA SEJA UM DOS EXEMPLOS A MAIS  DA MÁXIMA QUE VOCÊ DIZ NO SEU TEXTO:E FOI ASSIM QUE CRESCI, TENDO O ENTENDIMENTO DE QUE, MAIS DO QUE NA APARÊNCIA, A MINHA NEGRITUDE ESTAVA NA CONSCIÊNCIA PARABÉNS PELO CONSCIENCIOSO CONTEÚDO DO TEXTO

Comentário de surama caggiano em 15 junho 2012 às 8:56

Por ser afrodescendente e eurodescendente sempre ouvi minha vida toda que meu cabelo era bom na raiz, mas ruim no resto do comprimento, me mostravam que a parte do ruim se relacionava obviamente com o lado da minha mãe que é negra, e a parte boa era do meu pai que é branco, eu ouvia isto na escola, com amigos, na televisão, no trabalho e até mesmo dentro de casa, com o tempo percebi que era assim todo o processo social em que eu vivia, por uma simples analise do meu cabelo, com o tempo aprendi que não existe cabelo ruim ou bom, existi o meu cabelo e gosto dele assim como é, assim como eu sou... parabéns pelo artigo.

Comentário de IRACI DE FREITAS PINTO em 14 junho 2012 às 23:06

Adorei o artigo, pois ouço as pessoas me dizerem: "Por que você não alisa seu cabelo"? Respondo que gosto dele ao natural. Antes cortava quadro e agora decidi deixá-lo crescer.

 

Comentário de Marco Antonio Soares em 14 junho 2012 às 18:49

Deveria ter uma lei proibindo pais de usarem químicas em cabelos de crianças.

Comentário de Marco Antonio Soares em 14 junho 2012 às 18:45

Você deveria ter dito pra menina ' você já viu alguma dessas artistas negras lindas como Taís Araujo ou Sharon Menezes usarem cabelo de chapinha ?, claro que não, né, pois chapinha é que é coisa de pobre. Gente fashion e chic usa o blac power" ehehehe. Sei q soaria preconceituoso ao se referir a "coisa de pobre" mas é o melhor antídoto contra o preconceito racial introjetado nos próprios negros.Também discordo do lance de não existir cabelo duro. Existe sim, inclusive há cabelo liso duro. O meu cabelo é crespo graúdo e duro, se fosse mole seria aquele encaracolado q muitos brancos, até mesmo loiros, têm. A minha filha tem cabelo crespinho miudinho e molinho mas acho que é da idade, o meu tb era mais macio quando eu era menino. O cabelo da mãe da minha filha é ugual o seu.

Comentário de Adriana de Oliveira Costa em 14 junho 2012 às 17:01

Algumas citações no seu artigo, me fizeram ir de encontro com a minha história...Na adolescência foi muito complicado para mim, aceitar a minha identidade negra, meus cabelos, tanto que devido a mídia que a todo momento divulgava como beleza, apenas as meninas brancas, loiras, e de olhos azuis, alisei o meu cabelo como forma de ser aceita...mas no Ensino Médio e na universidade vivenciei processos educativos que contribuíram de maneira significativa, para que hoje eu me aceite, me ame e me valorize com negra. Uma das primeiras atitudes que tive foi tirar todo o relaxamento(química) do meu cabelo e assumir meus lindos cachos. Hoje eu me sinto bem assumindo a minha identidade como negra, e sinto-me com o dever de contribuir para que outras pessoas assumam a sua identidade, seus cabelos. E viva a diversidade! 

Comentário de NADIR SANTOS DE ALMEIDA em 14 junho 2012 às 16:46

Moro em um lugar onde certas pessoas acham que: usar rasta ou o cabelo natural é desleixo. Assumo a minha negritude e não aceito ouvir este tipo de comentários. As pessoas que me conhecem sabem que amo a cor da minha pele. Admiro sempre que vejo uma negra que assume e não nega a sua raça. O meu filho mais velho usa o cabelo blak, porém a sua namorada não esta achando legal.

Comentário de sérgio luiz da silva em 14 junho 2012 às 16:28

Vc tem uma linda cabeça, coberta pelo um lindo cabelo!

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