Artigo de Mãe Stella: Ojó Ibaré – Dia da Amizade

 

Vinte de julho – Dia Internacional da Amizade. Substantivo tão cantado e contado, mas dificilmente encontrado. Milton Nascimento canta: “Amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito”. Roberto Carlos diz que quer ter um milhão de amigos, para que mais forte possa cantar.

 

Impossível falar da amizade sem o substantivo correlato – amigo. Roberto Carlos pede um milhão, mas se conseguirmos apenas um já é bom demais, principalmente se este substantivo vier acompanhado de um adjetivo imprescindível: sincero. Na verdade, é impossível considerar alguém amigo, se ele não for sincero. Uma amizade assim sugere compreensão, perdão, capacidade de dizer não nas horas precisas, coragem de mostrar o que não se deseja ver. Amigo é aquele que entende o que o outro quer fazer, mas não necessariamente apoia: orienta e torce para que o caminho certo seja encontrado.

 

Pois não são apenas as opiniões semelhantes que fazem com que duas pessoas encontrem a amizade.

 

Um exemplo disso é a grande afinidade que une dois orixás de temperamentos opostos: Orumilá, que através da calma ajuda os homens a “aplainarem” seus destinos, e Exu que “quente como o fogo” auxilia criando confusões. A amizade tão cantada é agora contada: Orumilá viajava em comitiva e todos queriam ajudá-lo carregando sua sacola de divinação. Os “amigos” terminaram brigando entre si, fazendo com que Orumilá optasse por carregar seus apetrechos.

 

Orumilá não conseguia tirar aquele assunto da cabeça. Ele estava confuso a respeito de quem entre todos os que queriam ajudar-lhe era seu amigo de verdade e, por isso, resolveu fazer um teste. Mandou espalhar um falso boato de que ele tinha morrido. Muitos “amigos” apareceram para demonstrar o pesar à esposa de Orumilá. Cada um dizia que o referido orixá lhe devia dinheiro, o qual tinha que ser pago com o recebimento da sacola de divinação.

 

Escondido, Orumilá ouvia tudo aquilo com uma profunda dor. Foi quando apareceu Exu, tão pesaroso quanto os outros. A mulher de Orumilá lhe perguntou, então, o que seu marido devia para ele. Exu respondeu que simplesmente nada. Percebendo que a dor de Exu era verdadeira e desinteressada, Orumilá apareceu e disse: “Quando a afinidade com um amigo é grande, ele é considerado mais que um parente”.

 

Se não é fácil encontrar um amigo sincero, mais difícil ainda é ser um deles. Afinal, a arte da amizade implica que a índole seja pura, que já se tenha adquirido uma mente despoluída, onde não há lugar para a ambição, a mentira, a falsidade e outros pensamentos e atitudes dúbios.

 

É muito comum a amizade, que geralmente vem acompanhada de benevolência, aparecer nos momentos adversos. Nas tragédias que acontecem vemos pelos meios de comunicação brotar, momentaneamente, uma intensa e coletiva generosidade que, com a mesma intensidade que aparece, some. Pergunto-me: é generosidade real ou uma necessidade de acreditar que existe em si uma fagulha que seja de nobres sentimentos, que encubram tantos outros, como egoísmo, hipocrisia, hostilidade, inveja, indiferença? Muitos dizem que é na tristeza que se conhece um grande amigo. Será?

 

É para que nunca nos esqueçamos de cultivar o sentimento fiel de afeição e ternura para com os outros que foi instituído o Dia Internacional da Amizade. Esse dia foi escolhido por Enrique Ernesto Febbraro, que compreendeu o fato da chegada do homem à Lua, ocorrido em 20/7/1969, como uma prova significativa de que, quando as pessoas se unem, não existem obstáculos intransponíveis. Antes disso, esse argentino já havia divulgado o seguinte lema, enviando diversas cartas para diferentes países: “Meu amigo é meu mestre, meu discípulo e meu companheiro”.

 

Volto ao passado e lembro-me de uma antiga canção que diz: “Amigo, palavra fácil de pronunciar. Amigo, coisa difícil de se encontrar. Por isso se diz na frase tão usada: venha a nós e ao vosso reino nada”. Então vamos aproveitar este vinte de julho para refletirmos sobre maneiras saudáveis de construir e manter relacionamentos amigáveis com nossos semelhantes, é o que se diz em yorubá: baré.

 

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Artigo publicado no dia 20 de julho de 2011, na editoria Opinião do jornal A TARDE

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Comentário de Nilda Bonfim em 28 julho 2011 às 10:58
Aroê!!! Adorei seu texto mãe.
Colofè.
Comentário de Igor Dantas em 24 julho 2011 às 14:14

@A. Kandimba

O fato de você querer que eu saiba quem é ele é hilariante. Tenho que saber que é Mãe Stella, Mestre Didi, Olga de Alaketu, Mãe menininha, Alberto de Omolu...

Você é analfabeto funcional, não é possível. Lê de novo o que eu escrevi. Não falei de supremacia Ketu. Encerro aqui minha conversa com você.

Comentário de Igor Dantas em 24 julho 2011 às 12:55

Você teve dificuldade pra compreender o meu comentário. Não entendeu que não estou defendendo os Yoruba mas sim defendendo a cultura como ela é, as tradições que se aprendem com os pais e avós, sem influências de acadêmicos como você ou Nina Rodrigues (desconheço ambos).

Sua pesquisa parece que passou por todas as universidades brasileiras, mas esqueceu de perguntar às pessoas na rua sobre negritude, religião, valores etc, onde você ouviria respostas sinceras. Aí você veria que as duas culturas têm importância significativa na formação afro-brasileira.

Defendi que as pessoas do povo que querem falar sobre o assunto, como Mãe Stella, têm direito de falar com relação ao ponto de vista que aprenderam durante toda a vida, sem precisar nem saber quem é o tal Pierre Verger, Nina Rodrigues ou o tal Kandimba.

Se você quer fatos históricos aí vão alguns:

- No século dezenove em Salvador, 60% das pessoas eram de origem yoruba.

- Segundo pesquisa da Secretaria Municipal da Reparação, a maioria dos terreiros de candomblé de Salvador são Ketu.

Se você furar roncó (ir pra muitos candomblés, termo do angola), como eu já fiz, vai ver que se canta mais "Ogum ajô ê mariô..." do que "Goia aê aê...". Esse é o fato, o que não diz quem é melhor ou pior, mas somente da penetração do povo de ketu.

E, por favor, não queira referências das coisas que eu disse, sou pela cultura oral assim como o correio nagô. Te digo que tomei as dores do povo yoruba porquê sou Omo Orixá e não por que tenho nada contra o povo do angola. Pelo contrário, sou consciente da minha formação mista "angoketu", como as pessoas dizem por aí.

Espero que você pare com as ofensas e eleve o nível da discussão. De novo peço que você contribua expondo a sua pesquisa aqui. Proponha soluções pra resolver nossos problemas, porque criticas já temos muitos brancos fazendo.

Comentário de Igor Dantas em 24 julho 2011 às 2:50

Aristóteles (A. Kandimba),

Sua visão limitada à academia/teoria sobre africanidade me angustia. Vá um pouco nas ruas, vá conhecer pessoas de verdade ao invés de ficar usando meia dúzia de negrófilos como referência.

Se na rua você for, verá pessoas com referências muito mais genuínas sobre valores africanos: os ensinamentos dos mais velhos. Pessoas que cresceram ouvindo os mais velhos falando de negritude, religião e valores, conceitos que definem sua negritude. Aprenderam daqui a falar, cantar na sua lingua ancestral, não importando que lingua seja. E assim pensam o mundo. Aí um dia chega um qualquer, que leu seus livros de antropologia, dizendo que é proibido falar do seu ponto de vista.

Não importa onde você tenha nascido, pelos seus comentário no outro e neste artigo de Mãe Stella, parece que não captou o principal valor africano, a essência, que é o respeito aos mais velhos. Isso sim é universalmente africano, independente da origem.

E, diferente do que você falou que "os yorubás não são nem um dedo da África" olhe a quantidade de coisa que os Yorubás tem feito lá, aqui (povo do Ketu) e no caribe em todas as áreas.

Enfim, contribua aqui com cultura e pensamentos bantu, agregue algum valor. Ou se você só sabe criticar, vá pra São Paulo criticar cultura italiana, vá pro sul criticar cultura alemã. É bem mais útil pra gente.

Comentário de LUIS CARLOS DE OLIVEIRA em 22 julho 2011 às 20:03

-QUE LINDAS ESTAS LIÇÕES DE COLO!

 

SÍMBOLO DE FORÇA

 

Para Mário Cravo

Se abandonarmos os nossos deuses
Alguém poderá adotá-los;
Cobrir-lhe de armas os braços
Ou vestir-lhe um manto de estampa.
Um neto de escravo,
Cravo Neto,
Resgatou da voragem do tempo
Um deus africano.
Objetaram reinar unidas
Nações grandes aquém das nuvens
Sob este emblema.
Filho da terra e da água,
Lama.
Batizado em sopro,
chama.
– Se os deuses nos abandonarem
Nossas armas serão tão inúteis na guerra
Como agora, nossas armas
Para a paz.

 

LUIS CARLOS DE OLIVEIRA ASEOKAYNHA

PUBLICADO EM CADERNOS NEGROS 29

 

Comentário de Fernando Belissimo em 22 julho 2011 às 15:40
Grande mensagem parabéns......
Comentário de Vanice da Mata em 22 julho 2011 às 15:09
Kandimba, acho que a gente não está é se entendendo. Falamos a sós, depois.
Comentário de Juli J Silva em 21 julho 2011 às 17:04
Baré, mãe Stella!
Comentário de ILÍRIA ARRUDA DA SILVA ABRÃO em 21 julho 2011 às 16:29
Encontrar um amigo(a) verdadeiro é como reencontrar um irmão há muito esperado.
Comentário de Vanice da Mata em 21 julho 2011 às 15:34

"Visão farsa"? Não entendi.

E mesmo que farsa, é negando que coisas são afirmadas. Portanto, isso não é justo para com outras etnias que compuseram (e compoem) o sangue brasileiro.

No máximo (e aí eu vou concordar com você), Africanismo. Ficamos assim?

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