Samuel Vida publicou artigo em A TARDE de hoje (dia 5.5.10) discutindo o processo eleitoral para a Reitoria, e a gestão de oito anos do reitor Naomar Almeida.


Silêncio nada inocente


A Universidade Federal da Bahia (Ufba) vive um importante momento em torno da escolha do(a) futuro(a) reitor(a), após oito anos de gestão do professor Naomar de Almeida. Neste último período a universidade experimentou importantes modificações, interrompendo um ciclo de estagnação que durou décadas.

Dentre as modificações desenvolvidas, destaca-se a implantação das políticas de ação afirmativa para o ingresso na universidade, demanda dos movimentos negros, assimilada pelas instâncias universitárias. Esta foi, indubitavelmente, a mais significativa modificação experimentada pela Universidade, alterando a tradicional forma de apropriação, injusta e desigual, das oportunidades de acesso ao ensino superior público em nosso Estado.

Significou, ainda, um inusitado movimento de diálogo com a comunidade negra, ampliando o leque de interlocução com a sociedade baiana, além de reconhecer a necessidade de engajamento da Universidade na luta contra o racismo.

A adoção das políticas de ação afirmativa, que asseguram o acesso de estudantes oriundos das escolas públicas, negros e indígenas, trouxe um sopro de renovação na composição socioeconômica e étnico-racial, reduzindo o elitismo e aproximando o perfil da Ufba da realidade sócio-cultural e demográfica da Bahia. Cabe registrar que as profecias dos intolerantes à democratização da Universidade fracassaram completamente. O desempenho acadêmico dos cotistas não comprometeu a qualidade universitária, tampouco instituiu ou acirrou rivalidades classistas ou étnico-raciais.

Entretanto, a experiência inicial de democratização da Universidade não se desenvolveu completamente. A falta de aprofundamento edesenvolvimento da experiência iniciada com as ações afirmativas para o ingresso na graduação põe em risco o cumprimento das metas pretendidas.

Há três grandes eixos de demandas a serem corajosamente enfrentadas para a continuidade da democratização. Em primeiro lugar, a formulação democrática e a implementação efetiva de políticas de assistência estudantil adequadas ao atendimento das necessidades específicas dos cotistas, oportunizando a superação das dificuldades para a permanência e o pleno aproveitamento das potencialidades acadêmicas. Em segundo lugar, o reconhecimento dos limites excludentes e antidemocráticos do caráter monocultural, etnocêntrico e epistemicida que caracteriza a Universidade no domínio epistemológico, programático, institucional e simbólico, viabilizando um debate orientado para o reconhecimento da pluralidade cultural como valor a ser vivenciado na concepção e funcionamento das atividades universitárias.

Em terceiro lugar, a implementação das políticas de ações afirmativas na esfera da pós-graduação, possibilitando a democratização dos processos seletivos profundamente marcados por influências subjetivas e preferências teóricas e temáticas idiossincráticas.

A garantia da diversidade sócio-racial na pós-graduação assegura, também, a formação de novos quadros docentes e pesquisadores, e alarga o horizonte temático das investigações científicas na Bahia.

Diante desta situação, chama a atenção, no contexto do debate e da campanha eleitoral para a escolha do(a) futuro(a) reitor(a), o estranho silêncio acerca da temática. Exceto diante da provocação feita pela Apub, e reiterada pelo jornalista Robson do Val, durante o programa TVE Debate, indagando a posição dos candidatos acerca das ações afirmativas, respondida de forma lacônica e evasiva, as candidaturas apresentadas evitaram o assunto.

Nenhum material de divulgação e campanha trata da questão ou reconhece a necessidade de continuar o processo de aprofundamento da democratização.

Trata-se de um importante indicativo da ausência de um firme compromisso dos concorrentes com a manutenção das ações afirmativas, sua consolidação e ampliação. Tratase de um silêncio nada inocente que deve ser interpretado criticamente, manifestando-se numa cobrança pelo comprometimento expresso das candidaturas. Caso contrário, merece a silenciosa e eloquente resposta da abstenção e do voto nulo durante o pleito.

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<b>Samuel Vida - Professor da Faculdade de Direito da Ufba
samuelvida@yahoo.com.br</b>

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Comentário de Paulo Rogério em 5 maio 2010 às 17:40
Este artigo havia sido publicado pelo prof. Samuel Vida aqui em nosso Correio Nago, mas ele acrescentou novos elementos, como o debate da TVE, por isso estamos republicando.

Translation:

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