As cordas no Carnaval, por George Oliveira

Todo mundo já está cansado de saber que trabalhar como cordeiro durante o carnaval de Salvador é uma atividade desumana, racista e que contradiz todos os direitos trabalhistas conquistados no Brasil nos últimos oitenta anos. 

Vídeos, textos e trabalhos acadêmicos denunciam os maus tratos à partir de imagens e depoimentos dessa vida mais que real que maltrata os corpos de “quase” humanos (quase todos negros) que servem de escudo para outros humanos (quase todos brancos).

Numa rede social, um amigo chamou a atenção para a nova tendência do carnaval soteropolitano: carnaval sem cordas! Imediatamente iniciamos um debate que nos pareceu bastante contraditório. Indagávamos sobre o que os cordeiros irão fazer se o carnaval tem um numero reduzido de cordas.

Será que são os cordeiros que irão “inventar” outra oportunidade de trabalho e renda durante os sete dias de folia? Estão jogados à própria sorte? Mas sempre estiveram dessa forma e agora está bem pior.  Pois é, parece que o fundo do poço tem porão.

 

 

A prefeitura da cidade tem um observatório que funciona há mais de dez anos e esses coordeiros poderiam ser agentes fiscalizadores das violações de direitos humanos nos circuitos da festa. O que chamamos de agentes de informação pública. E mais, podem distribuir preservativo. Não sabemos ao certo, essas são apenas elucubrações.

A nossa certeza é de que essas atividades são mais dignas, não estamos aqui para defender a exclusão proporcionada pelas cordas dos blocos. E o carnaval “produz” mais desigualdades visíveis á olho nu. Um bom exemplo é o caso dos ambulantes que dormem nas ruas durantes e que podem ser abrigados em escolas públicas sobre a segurança da guarda municipal.

Sabemos muito bem que o racismo é camaleônico e esta sempre a nós desafiar. O carnaval da maior cidade negra fora do continente africano precisa estar atento para essas questões. É importante ouvi-los e encaminhar suas solicitações.

Afinal, não basta escolher como tema: É diferente, é carnaval de Salvador. Precisamos de ações “efetivas” que combatam as desigualdades sociais. E nada mais inovador do que combater e acabar com o racismo.

As cordas estão acabando, o racismo não! Não queremos a eliminação dos cordeiros, sim a sua inclusão social. Lutamos por alternativas dignas de geração de trabalho e renda para o povo negro.

Seguimos atentos e vigilantes.

G1 lista os blocos que saem sem corda no carnaval de Salvador; veja:

http://g1.globo.com/bahia/carnaval/2014/noticia/2014/02/g1-lista-os... 

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George Oliveira

Economista

Militante do Movimento Negro

Mestrando do CIAGS/UFBA

grbo2003@yahoo.com.br

#24

 

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Comentário de Rosivalda Barreto em 2 março 2014 às 10:24

Prezado, bom dia!

Sabemos que a nosso inclusão é a última coisa que o Estado brasileiro pretende para a população negra!!

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