Sou baiana de Salvador e tomei consciência da minha história e afrodescendência desde que comecei fazer dança afro com Mestre KING (Raimundo Bispo dos Santos). O aprofundamento veio com o exercício da docência. Daí em diante, no CEAO, intensifiquei meus estudos. Logo veio a oportunidade de fazer a seleção do mestrado em educação na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará. Ao participar da primeira etapa da seleção tomei contato com um mundo africano dentro de Fortaleza, mais de 1000 estudantes africanos oriundos de Guiné-Bissau, Moçambique e Cabo Verde. Essas/es africanas/os todas/os estudantes da UFC, FANOR, FATENE e outras universidades particulares. Fiquei super feliz, uma oportunidade importante para trocar experiência com pessoas de África, curiosa para conhecer mais sobre a cultura de tais locais e feliz pela proclamação de convênios acadêmicos África/Brasil.

Sendo aprovada na seleção mudei-me para Fortaleza e estudo o mestrado em educação no Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira, da Faculdade de Educação na Universidade Federal do Ceará. A Linha de Pesquisa é Movimentos Sociais, Educação Popular e Escola, no Eixo Temático Sociopoética, Cultura e Relações Étnico-raciais. No momento em que fixei residência fui surpreendida com a intensidade do racismo sofrido por negras/os que são confundidas/os cotidianamente com africanas/os e os próprios africanos, somos interceptadas/os, inquiridas/os, xingadas/os e observadas/os cotidianamente. Também tomei conhecimento das condições em que vivem as/os estudantes africanas/os em Fortaleza. Os cubículos em que são obrigados a sobreviverem, além do crescimento das novas construções de cubículos para receberem essas pessoas. Enfrentam problemas também com determinada fonte de fomento de bolsa de estudos, fazem seleção anualmente e a cada 6 meses sofrem com o atraso no pagamento dessas bolsas até por 3 meses.

Em Fortaleza existe uma rede de propaganda enganosa para trazer africanas/os para estudarem em determinadas faculdades particulares. Algumas se dirigem à Guiné-Bissau e declaram que essas/es estudantes terão garantia de educação (bolsa de estudos) e moradia chegando a essa capital. Ao chegar à Fortaleza as/os guineenses, moçambicanos e cabo-verdianos enfrentam dificuldades tamanhas: subemprego, moradia inadequada, prostituição masculina por um pacote de biscoito recheado entre outras coisas. Tomando como exemplo um guineense que foi obrigado a dormir na rua, porque o vigilante do prédio da faculdade não o permitiu sua entrada durante a noite, mesmo ele apresentando o documento que permitia o seu abrigo. Encontrou seus compatriotas daí então a moradia. Essas pessoas se deparam aqui com a dura realidade, sem casa e se submetem a subemprego e moradia desqualificada e coisas piores que não vale a pena citar publicamente, principalmente para evitar retaliações a essas pessoas. Estão sem ter a quem se dirigir para resolverem esse tipo de problema. São estrangeiros, e considerados de segunda categoria, além de correrem o risco de serem perseguidos e denunciados, por que como estrangeiros não podem trabalhar. Houve momento em que eram vigiados permanentemente nos Shoppings sem saberem que estavam sendo confundidos como ladrões. Só depois de avisados entenderam a real situação do racismo à brasileira. É a mais nova forma do sistema econômico capitalista racista antinegro se manter através da mão de obra barata e sem responsabilidade trabalhista. O Brasil não resolveu a chaga crônica do racismo em sua sociedade, creio que por isso deveria deixar de proclamar esses acordos entre países africanos e o Brasil. Não devemos maltratar pessoas que convidamos para estudar aqui, principalmente africanas/os a quem o Brasil tem uma dívida imensurável oriunda do tráfico negreiro criminoso e desumano.

Um estudante da Guiné-Bissau me disse que os seus pais tratam bem brasileiros que vão a seu país, crendo que seus filhos receberão o mesmo tratamento no Brasil, chegando aqui se deparam com tal humilhação! Creio também que deve haver um empenho do Movimento Negro para verificar essa situação no Brasil e se solidarizar com as/os africanas/os nesse país. Há 4 meses uma mãe veio à Fortaleza buscar o cadáver de seu filho para sepultar em Cabo Verde. Daí em diante fiquei atenta e percebo que essa situação não deve ser específica de Fortaleza, visto que nossa sociedade é racista, deve ocorrer tal problemática em outras capitais onde existem estudantes africanas/os, pelas notícias veiculadas na mídia tangíveis à violência e ao racismo. Estive em Natal para apresentar um trabalho na UFRN e um guineeense fez uma narrativa da forma como foi agredido em praça pública por um policial, na noite do Reveillon do ano de 2010 .

Vim para Fortaleza com meus filhos. O mais velho, que tem a pele mais escura assim como eu, todos os dias as pessoas dizem que ele não é negro. Que negro é aquele negão da África. No curso de pré-vestibular o professor disse: - Você escreve melhor que os brasileiros. Perguntaram ainda se ele é naturalizado, se quer estudar na UNILAB e que não sabia que existia gente de sua cor no Brasil. Como ele fala muito rápido, e as vezes as pessoas não entendem, disseram que ele está andando demais com os africanos. Perguntam aos africanos se eles tem um leão amarrado no fundo do quintal ou se viajaram de ônibus da África ao Brasil. Uma pessoa conversou comigo e se despediu convicta de que eu sou africana. Não ouviu o meu sotaque de baiana, viu apenas a cor da minha pele. Interessante que os meus outros dois filhos que têm a pele mais clara, não sofrem com esse assédio. Uma colega de doutorado foi agredida verbalmente na Avenida da Universidade. Um homem parou o carro nessa rodovia para gritar em alto e bom tom: Negra feia! quando não são mais agressivos. Os habitantes de Fortaleza justificam essa postura com a afirmação de que nessa capital não existem negros. Ao verem pessoas negras na rua perguntam primeiro se é africana/o, se a resposta for negativa. Se é baiana/o. Se a negação permanecer se é do Rio de Janeiro e não havendo afirmativa na resposta, a última pergunta se é do Maranhão. Na concepção dos fortalezenses só existem negros em 4 lugares no mundo. África, Bahia, Rio de Janeiro e Maranhão. Fui fazer uma palestra numa escola de ensino fundamental, e logo após as crianças ficaram tocando meu corpo e meus cabelos, naquele momento eu era um ser extraterrestre, ficaram admirados! No aeroporto o segurança me disse: - Todo domingo tem um voo internacional que trás vocês! Logo o problema passa por nós e se estende as/os africanas/os e é preocupante! Vale a pena conferir a matéria "Africanos sentem 'na pele' o preconceito", no jornal O Povo online, no endereço http://www.opovo.com.br/app/opovo/fortaleza/2011/08/22/noticiaforta...  e atentar também para os cometários que são importantíssimos para avaliarmos esse caso.

Rosivalda dos Santos Barreto

Mestranda em Educação FACED/UFC

e-mail: vada10br@hotmail.com

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Comentário de Rosivalda Barreto em 8 dezembro 2011 às 13:52

Comentário de Rosivalda Barreto agora mesmoExcluir comentário

Cida querida, bom dia! O programa de Pós-graduação da UFC é bom. Os professores citados são comprometidos, as pesquisas têm viés diferenciado que rompe com o ideal de neutralidade das pesquisas eurocêntricas, mas o problema está na sociedade. Na UFC mesmo sinto o eurocentrismo do currículo, a ausência de discussão relacionadas às probelmáticas étnico-raciais nas disciplinas que não estão ligadas ao eixo temático Relações Étinco-raciais, o que não difere das demais universidade brasileiras. Mas o que trato especificamente nesse escrito é o comportamento das pessoas no geral, o que me deixou intrigada. Nas praças, shoppings, praças de alimentação, ônibus a sociedade ela é racista e se esconde sob o manto da seguinte frase: Em Fortaleza não existem negroas/os. As pessoas encaram as/os negras/os com olhar inquiridor.

Comentário de maria aparecida de matos em 8 dezembro 2011 às 0:56

Fiz doutorado ai na UFC em 2004 terminei e sendo brasileira e negra sofri a mesma discriminação fui perceguida e caçada com  todos os requisitos que fazem qdo querem perseguir um/a negro/a no ensino superior. Precisamos acabr com isso. Essa é a realidade da UFC mas nesse programa e grupo há professores como Eliane Dayse Furtado, Ribamar, Jacques Terriean, sandra Petit, Ana Iório, Nicolino Trompieri Fátima vasconcelos, Henrique Cunha Jr,  karina e outros que combate essa discriminação e me apoiaram. Maria Aparecida

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