As Perspectivas do Jovem Morador da Periferia - Artigo de Enderson Araújo do Mídia Periférica

Acredito que todo mundo já sabe quais são as perspectivas de um jovem que mora em uma comunidade periférica, não é mesmo? Porém levamos em conta dois fatores que atuam de maneira divergente para estas perspectivas. O fator número 1 se resume nos jovens que são influenciados pela mídia capitalista, estes são os que sonham em ser jogadores de futebol, dançarinas ou cantores de pagode, atores e etc. A mídia influencia estes jovens com o fato de que traz luxo, fama, dinheiro rápido. O segundo fator é a vivência que estes jovens têm em suas comunidades, muitos crescem vendo a polícia invadindo suas comunidades brutalmente e exterminando nossos amigos, como eu já presenciei várias vezes estes acontecimentos e nada acontece para punir os culpados, além do tráfico de drogas, onde muitos se desbandam para esse caminho. Aí você tem: a falta de ensino publico de qualidade, a falta de infraestrutura nas comunidades e um monte de coisa aglomerada, que se eu escrever aqui, vira livro, mas o que é de maior gravidade é a falta de oportunidade para o jovem conseguir o 1º emprego.


Mas eu te convido para fazer uma pequena reflexão: você imagina um jovem que sonha em ser jogador, ele não consegue progredir no sonho, pois o pai ou a mãe (solteira na maioria das vezes) não teve condições de arcar com as despesas para mantê-lo no clube de futebol. Ele cresce e vê a necessidade de trabalhar para ajudar a família, pois na casa vivem, além dele, a mãe, a irmã, e um irmão pequeno, todos sobrevivem de uma ajuda de um programa pelo Governo Federal, R$92,00. Ele não consegue o 1º emprego, pois as empresas exigem que ele tenha experiência para trabalhar. A vivência deste jovem é passar todo dia em frente a uma boca de fumo, e perto de sua casa muitas pessoas usam droga, daí eu passo a bola para vocês: qual será o destino deste jovem?


Você pensou errado, este jovem sou eu, contrariei e continuo contrariando as estatísticas e tudo que vem pela frente!!

 

    Depois do Mídia Periférica tudo mudou em minha vida. Eu sempre tive algo preso dentro de mim que me ajudava, e ainda me ajuda a aliviar os problemas, porém eu não sabia como liberar isso, mas eu tinha algumas pistas para descobrir o que era (rsrs). É que eu gosto muito de conversar, sou um baita tagarela, e também gosto muito de fazer pelo social, pela comunidade onde moro, sou bastante reivindicador. Comecei, então, a fazer as oficinas de Direito a Comunicação e produção de vídeo com o Paulo Rogério e a Ivana Dorali, do Instituto Mídia Étnica, em um projeto do UNFPA/ONU, em Sussuarana, minha comunidade. Foi quando eu descobrir minha vocação para a comunicação. Tivemos oficinas de grafite com Marcos Costa, de rádio com DJ Branco e de fotografia com Eduardo Tavares, tivemos outras oficinas temáticas, mas eu friso as que envolveram comunicação. Foi a partir daí que criamos o Mídia Periférica, que para mim é como um punho no rosto da sociedade opressora, e particularmente no rosto daqueles que não acreditavam em mim, humilhavam a mim e a minha família por nos considerar um tanto inferiores a eles, muitas vezes me batiam na rua e minha mãe, por ser mãe solteira, não tinha punho para fazer nada - é a essa que agradeço por ser hoje o jovem que sou.

 

As ações que faço são primeiramente para fortalecer as comunidades, e para mostrar aos irmãos e irmãs que para revidarmos o tapa na cara que a sociedade nos dá, não precisamos burlar leis, nos vender ao sistema capitalista e nem abaixar a cabeça para eles. Hoje, o Mídia Periférica significa muito para mim, escrevo para um Revista Nacional feita por jovens de todo Brasil, a Viração! Sou colaborador na maior Rede Social Afrodescendente que é o Correio Nagô, além de ser um dos representantes da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Comunicadores, isso tudo consegui com a ajuda de pessoas que me deram e dão direcionamento e eu não teria conseguido sem o Mídia Periférica. Finalizando, eu acredito que para contrariar as estatísticas, basta o jovem ter vontade e oportunidade, que ele busque conhecimento e se articule, portanto, “se a história é nossa, deixa que nós escreve”.

 

                                                                            Enderson Araújo - Jovem Comunicador
                                                 Coordenador do Mídia Periférica
                                                                          Colaborador na Revista Viração - Agência Jovem de Noticias
                                                                         Correio Nagô - Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Comunicadores

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Comentário de EDUARDO PEREIRA em 1 fevereiro 2012 às 21:37

A história do Enderson é salutar, não resta  qualquer dúvida ; que ele faz jus  aos parabéns e os elogios aqui recebidos, concordo plenamente e, mais uma vez: "ENDERSON MEUS PARABÉNS".

Como disse anteriormente, tenho história um tanto semelhante. Entretanto, o que quero dizer que histórias como a do Enderson e tantas outras, não significa, no meu entendimento que há uma ascensão social do negro no Brasil, ou de que todos os que lutam irão vencer, é isso que eu digo quando falo nas barreiras, claro que ao reconhercer-se as barreiras, não devemos ficar estagnados e, nem é caracteristica do negro ficar estagnado, muito pelo contrário, sobrever diante do racismo brasileiro, é uma prova cabal de luta, coragem e competência. Eu conheço muitos que lutam e como lutam, mas não conseguem êxito e isso eu repito devido às barreiras sociais e jamais por responsabilidade, mal sorte, etc.  Jamais devemos desconsiderar a existência das classes dominates e dirigentes. Casos de negros que galgam posições tidas como "elevbadas" na sociedade "eruopeizada", cientificamente são considerados como capilaridade social e não como ascensão social do negro, já que trata-se da casos isolados e naó de uma coletividade. Como se explicaria que os negros são apenas 1% dos professores universitários, por exemplo? E os salários mais baixos, mesmo tendo as mesmas qualificações? A mentalidade senhorial, instituída no mando e na obediência?

Finalizando, mais uma vez parabenizo o Enderson, entretanto, não posso deixar de considerar, tanto como cientista social, quanto como militante e gente que vive ao lado do povo, de que muitos lutam e não vencem, E, os que vencem, tem que enfrentar o cotidiano de um país racista, muitas das vezes confundidos e discriminados, cujos exemplos, os mais nefastos, a mídia anuncia, quase que diariamente. E, mais uma vez, nas sábias palavras do Milton Santos: "Eu sou negro e sou visto como tal, na melhor das hipóteses, sou vito como uma exceção, o que não é nada bom, em evidência, o negro é visto como aquele que não devia estar alí".

Espero ter contribuído com a discussão.

Abraço a todas e a todos.

Comentário de Dilnei Severo em 1 fevereiro 2012 às 7:06

A História do Enderson é edificante , exemplar , porém obvia e necessária.

Se você não faz por você ninguém vai fazer ou pela 3ª Lei de Newton o negócio é ação e reação ou "colhemos o que plantamos"...

Porém, o Eduardo Pereira nos dá uma verdadeira aula quando diz que temos dois "Brazis". O branco europeu das novelas da Globo e o preto com indices de IDH baixíssimo.

Vejo no próprio site Correio Nago uma infinidade de festividades baianas de blocos, arrastões, festas em geral comemorando tradições diversas. Só que assim nossa imagem como cidadão fica imensamente prejudicada. Nos outros estados brasileiros como aqui no sul a coisa é bem diferente do que viver numa eterna festa negra a festejar o não sei o que??? Esqueceram que o sul é "europeizado"???

Em resumo o negro brasileiro precisa se assumir de vez e se unir num unico partido para através do poder do VOTO, mudar a realidade tanto negra como a do pais , pois somos maioria.

Reivindicar , reclamar , denunciar racismo é valido , porém , só ficar no denuncismo é abdicar da nossa capacidade de pensar...

Comentário de enderson araujo em 31 janeiro 2012 às 10:25

Sil-lena, seria um prazer ajudar vcs ai em Belem, acredito que a persistencia é o maior combustivel, pena que os gestores publicos estao preocupados com outras coisas, uq vem da periferia para eles, é ameacador, eles sao o sistema, e o sistema tem medo de ser abalado.

Comentário de Maria Isabel (Isa) Soares em 30 janeiro 2012 às 22:07

Parabéns meu filho. Que o Universo ajude a que possa seguir crecendo sempre. Obrigado por compartilhar.

Comentário de sil-lena r. c. oliveira em 30 janeiro 2012 às 18:20

Olá Enderson.Parabéns por tua força jovem.Sou educadora numa escola pública da periferia de Belém e amo articular ações com a juventude, porque sei que somente o espírito jovem consegue abalar as estruturas e ter garra para dizer e fazer sonhos.Comecei a dialogar com a educomunocação na escola mas infelizmente não tive muito apoio da direção e nem dos colegas professores.Não desistir.Mas gostaria de receber alguma formação melhor para que possa junto com a juventude da escola fazer acontecer com a educomunicação.abraço.

Comentário de Rafaela Vipper em 28 janeiro 2012 às 19:57

Eu fico muito contente quando vejo histórias deste tipo, pois nesse mundo gente pra te desanimar tem aos montes, mas para te dar as mãos e te ajudar a seguir em frente são poucos. É por isso que nunca podemos nos sentir fracos ou incapazes de fazer algo, pois se acreditamos em nossos sonhos poderemos alcança-los!

Comentário de Lilian Romão em 28 janeiro 2012 às 18:44

Fantástico ter a oportunidade de ler um relato tão valioso. Conseguimos construir um mundo novo, Enderson? Valeu, a Viração tem o maior orgulho de você fazer parte dessa equipe! Parabéns!

Comentário de Jaguaracy Conceição em 28 janeiro 2012 às 17:27

Creio que é assim que nós negros temos que mostrar que somos capazes e podemos contrariar as estatísticas. É evidente que as dificuldades serão muitas, mas temos que levantar a cabeça e encará-las de frente e com perseverança para que possamos vencê-las.

Comentário de IRACI DE FREITAS PINTO em 27 janeiro 2012 às 22:29

Meus parabéns pela postagem deste artigo. E graças a Deus pelo desfexo da história do Anderson e sua família.

Comentário de enderson araujo em 27 janeiro 2012 às 20:04

Obrigado Eduardo, mas eu acredito que o que falta a esses jovens é incentivo, eu tive o ponta pé inicial, e fui atras, se ficarmos alimentando esta ideia de que a elite poe barreiras, nao conseguiremos ir a lugar algum, temos que ser ousados e correr atras dos cedm anos atrasados, como diz o mano brow, nao tem como sermos duas vezes melhor, temos que ser 100.

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