O real desejo de aprender português. Por Miky Julian

Aulas Inúteis: O Papo Português À Toa

Mïky Julian

     No dia 24 de junho 2012, a Folha de São Paulo publicou um artigo intitulado— Língua portuguesa atrai jovens nos EUA. O subtítulo relatou que— Cresce a procura pelo idioma entre profissionais norte-americanos de olho no mercado de trabalho brasileiro. Na edição de março/abril 2012, Intelligent Life (Vida Inteligente), uma publicação do Economist, publicou um artigo chamado Brazilian Portuguese Is The Best Language (O Português Brasileiro É O Melhor Idioma). A tradução do subtítulo relatou que— Se você quer um bom retorno no seu investimento... o português brasileiro é o melhor idioma para aprender. No fim de 2011 o Globo realizou uma reportagem e publicou um artigo intitulado Alunos de Harvard vem ao Brasil para aprender português. Uma frase do artigo relatou que— Foi-se o tempo em que o português era só uma língua exótica, hoje ele é um diferencial importante para conseguir um bom emprego em países desenvolvidos.

     Estes três artigos recentes, e outros parecidos, transmitem a mesma mensagem provocada pela evolução positiva da economia brasileira— bem vindo a um país tropical queridos executivos gringos, investidores internacionais e todos os bem aventurados a procura de trabalho-grana— aprenda português e tudo vai dar certo! Pronto. Aliás, não há outras rações para aprender português, né?

    Chega! Estou feliz que a economia brasileira pegou uma onda para cima, entretanto, cansei de ler artigos que enfatizam a importância de aprender português só para tirar proveito daquele fato. Por isso, e como uma resposta aos artigos que já citei anteriormente, vou refletir um pouquinho sobre minha aprendizagem autodidata de português e algumas experiências que a língua me proporcionou. A jornada educativa enriqueceu minha vida mais do que qualquer beneficio financeiro.

     Minha primeira língua, o inglês apimentado de Nova Orleans, foi uma mistura do papo diário da minha família até um vernáculo desinibido falado entre meus amigos. As conversas incluíram algumas palavras e expressões do crioulo-francês haitiano[1]. O inglês padrão, raramente praticado entre meus amigos ou inimigos, era apenas uma disciplina escolar bem chata. Até o fim dos meus estudos secundários, me tornei fluente em duas maneiras de falar inglês. Ganhei boas notas nas aulas de inglês, evitando qualquer castigo da minha mãe ou avós. Entretanto, logo depois de dar um passo fora da sala de aula, o papo mais colorido e caloroso recomeçou. Anos depois, meu jeito de falar inglês de duas maneiras, me inspirou para aprender mais um idioma.

     Alguns outros fatores me deram a vontade para me tornar trilíngue. De vez em quando, minha avó contou sobre a mãe dela que sempre falou patois (crioulo-francês) entre amigos e familiares quando não queria suas conversas entendidas por não-falantes. Aquelas historias sempre me fascinavam. Anos depois eu fiquei apaixonado pela música brasileira. E, no fim, eu estava infeliz com minha existência em Nova Orleans. A violência generalizada, perpetrada nos dois lados da lei, que tirou a vida de muitos jovens nos mesmos bairros onde eu fui criado, ofuscaram a herança histórica e multicultural da cidade. Também, o legado do racismo e preconceito ainda foram presentes em diversas esferas da sociedade. Quando fiquei maior de idade, comecei pensar que ao aprender mais uma língua, eu podia sair mentalmente, e possivelmente metafisicamente, do lugar que me cercava.

     Armado com uma vontade doida e conhecimento básico do espanhol, meus estudos de português começaram em casa. Houve um programa de rádio que tocou a música brasileira cada domingo em Nova Orleans. Escutei-o e gravei-o cada semana. Sem saber o significado das letras de música, memorizei e cantei-as em plena harmonia com os ritmos maravilhosos do MPB, samba e bossa nova. Este ato despertou mais um sentido de felicidade na minha vida. Logo depois, eu pesquisaria as traduções online para entender as palavras dos meus vocais horríveis. Foram minhas primeiras aulas autodidatas de português. Elis Regina, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Natiruts e Nara Leão foram alguns dos meus professores mais sublimes. No entanto, meu favorito foi João Gilberto. Ao cantar, bem devagarzinho, canções como Avarandado, Menino do Rio, e Esperança Perdida, ele me deu amplas oportunidades para aprender a pronúncia de muitas palavras.

     Agora nos éramos vivendo no novo milénio e eu ainda era em Nova Orleans. Que saco! A hora chegou para abandonar esta terra. Mesmo querendo se tornar fluente em português, ainda não me senti preparado para desembarcar no Brasil. Daí, gastei meu dinheiro para comprar uma viagem para Londres. Fui lá.

     Morei em vários países da Europa por quatro anos. Durante este período, eu conheci alguns imigrantes brasileiros. Esses encontros me deram oportunidades para praticar português pela primeira vez. Morei no centro de Lisboa durante meus últimos meses na Europa. Dividi um apartamento com alguns outros viajantes— estudantes e trabalhadores de Angola, Brasil, Croácia, Itália e Espanha. Todos falavam português com sotaques diferentes. Que confusão danada.

     Em fevereiro de 2005, num esforço para aprimorar minha fluência em português, eu decidi viajar ao Brasil por somente duas semanas. Três anos depois, ainda no Brasil, eu estava trabalhando como um interprete. Eu havia passado o CELPE-Bras[2] na Universidade Federal da Bahia em menos de um ano depois de chegar no Brasil. No mesmo período, a casa da minha família em Nova Orleans foi destruída durante a passagem de furacão Katrina. Apesar de encontrar vários obstáculos para estabelecer residência permanente no Brasil, eu levei uma vida simples e intelectualmente estimulante no meio dos meus amigos baianos. Estudando português sozinho só podia me levar até um certo nível de fluência. Foi a paciência, encorajamento e amizade destas pessoas tão simpáticas e humildes que elevaram meu conhecimento da língua.

     Não posso ignorar a essência dos fatos socioeducativos que eu percorri ao longo da minha aprendizagem de português. Aquelas lições são antíteses ao conceito dos militantes de um mercado globalizado que se associam, exclusivamente, a aprendizagem do português ao benefício financeiro. A lembrança de duas pessoas que me ensinaram ao longo da jornada vem a minha cabeça.

     A presença de Yara[3] na minha vida me ensinou a importância da luta pela terra dos pequenos agricultores. A grande paixão dela é o solo e seu poder para produzir alimentos para os filhos da sua comunidade e outros povos. Ela e sua família estão integrantes do MST no sul da Bahia. Fundaram o acampamento Riacho das Ostras junto com outros camponeses a procura de um pedaço de terra.

     A mãe de Yara me deu aquele olhar de desconfiança total a primeira vez que visitei a casa da família. Eu havia chegado lá como um peixe fora do mar por causa da imensa chuva na região. O ocorrido deve se tornar um pequeno conto. Talvez vou escrevê-lo caso que Yara me permite. Aliás, através de um bate-papo pra lá e pra cá, e conhecendo outros familiares e amigos que moravam na comunidade, eu estava almoçando e jantando na mesa como um membro da família e com Yara bem ao meu lado.

     Superando vários obstáculos no seu caminho e através de um programa governamental que apoiam os sonhos dos jovens do campo, Yara conseguiu uma vaga na UNEB. Alguns anos depois da nossa separação e muita luta para continuar no programa, ela me mandou uma mensagem dizendo que arrasou nos estudos. Havia se formada em agronomia.

    Yara me forneceu uma visão pessoal da vida de uma roça baiana e a vitalidade da agricultura familiar. Um espírito de fraternização e luta pairou sobre aqueles jovens e velhos agricultores. A experiência sempre será um ponto de referência para mim— nunca, nunca desiste.

     A presença de Jorge Miguel na minha vida abriu meus olhos e coração a luta dos afro-brasileiros para conseguir mais igualdade na sociedade baiana/brasileira. Conheci esse irmãozinho na quadra poliesportiva da escola estadual de Homero Pires na cidade de Prado. Jogávamos basquete juntos. Daí, nos tornamos amigos rapidamente. Depois dos jogos daquela noite, ele me convidou ao Rango Quente, o pequenino restaurante caseiro da sua mãe, Dona D’Ajuda. Me encontrei naquele lugar aconchegante com muita frequência dali para frente. Lá, eu almocei e jantei meu PF favorito, feijão com frango frito, inúmeras vezes. Também, na manhã, antes do almoço, eu dei aulas de inglês no restaurante. 

     Sendo um génio de números, Miguel ajudou outros jovens da comunidade nas suas tarefas de matemática. Querendo se tornar um advogado ele me lembrou que, mesmo que vários obstáculos se encontrem no caminho, não custa nada para visualizar e ter a vontade necessária para realizar seus sonhos.

     Poucos dias antes de sair do sul da Bahia, eu andei sozinho para a quadra poliesportiva. Queria dizer tchau ao lugar onde joguei basquete com tantos jovens, adultos, velhos, crianças, meninos, meninas, pessoas de orientações sexuais diferentes, caras altos, baixos, gente que podia jogar pra caramba e outros que nem sabiam como segurar a bola corretamente. Queria me preparar para dizer tchau ao time— aos momentos que guardo comigo para sempre. De repente, Miguel chegou cedo também. Antes da chegada das outras pessoas, nos jogamos basquete sozinhos pela última vez. Logo depois, ele tentou me ensinar como chutar uma bola de futebol igual aos brasileiros. Acabei ganhando pelo menos dez bolas murchas naquela tarde.

     Em março de 2010, o corpo de Miguel sumiu no Rio Jucuruçu. Recebi a informação da tragédia através do website Prado-Agora. Me encontrei no estado de Novo México nos Estados Unidos naquela época. Desorientado pela notícia, eu liguei para Dona D’Ajuda. “É a verdade?”— perguntei durante a conversa. Consumido por uma profunda tristeza, não posso lembrar mais nada da nossa conversa delicada. Foi um golpe duro para a família e todas as pessoas que conheceram Jorge Miguel Ferreira Alves— nosso broder, irmão, baiano, afro-brasileiro, um cara que nunca desistiu dos seus sonhos— seja que esse irmão descanse em paz e que seu exemplo continua a beirar sobre todos os jovens brasileiros que enfrentam os desafios da vida com a cabeça erguida.

     Sai do Brasil em 2008. Estava de volta para Nova Orleans um pouco mais de três anos depois do furacão Katrina. Um novo apreço por línguas e outras formas de comunicação podiam ser encontradas na minha pessoa. Eu queria me especializar em traduções de português para o inglês.

     Enfim, não posso negar contundentemente a informação contida naqueles artigos recentes sobre a aprendizagem de português. Certo, minha fluência nesta língua pode melhorar minhas oportunidades de trabalho. Certo, houve tempos em que ganhei grana por causa disso. Entretanto, ao contrario do discurso dominante dos grandes meios de comunicação, eu estudei português pelo desejo e prazer de aprender mais uma língua— o português brasileiro— recheado de palavras e expressões dos povos Guaraní, Tupinambá, Bantu, Nagô e mais. Daí, aprendendo português me levou por experiências pessoais que me tornaram mais consciente sobre o povo do Brasil, outras terras e mi mesmo. Quer dizer, mesmo que faltou a exclusividade do querer aquisitivo financeiro ao longo da minha aprendizagem, no fim, tenho certeza que eu havia ganhado muito mais.



[1] Depois da revolução haitiana, vários franceses e seus escravos mudaram-se para Nova Orleans— ainda sob a administração francesa na época. Estima-se que em 1810 um terço da população de Nova Orleans era procedente do Haiti.

[2] Outorgado pelo MEC, o CELPE-Bras é o único certificado brasileiro conferido aos estrangeiros com desempenho satisfatório em teste padronizado de português.

[3] Nome fictício de uma pessoa real

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