Barbosa nega candidatura: ‘O Brasil não está preparado para um presidente negro’

Para o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ainda há intolerância racial não declarada no Brasil. Em entrevista ao jornal O Globo deste domingo (28), ele afirma não ser candidato e diz que seu nome tem aparecido com relevância em pesquisas eleitorais por causa de manifestações espontâneas da população.

Segundo ele, que se define politicamente como alguém de inclinação social democrata à europeia, o Brasil precisa gastar melhor seus recursos públicos, com inúmeros setores que podem ser racionalizados ou diminuídos. Confira à entrevista completa concedida à Miriam Leitão.

O senhor é candidato à presidente da República?

Não. Sou muito realista. Nunca pensei em me envolver em política. Não tenho laços com qualquer partido político. São manifestações espontâneas da população onde quer que eu vá. Pessoas que pedem para que eu me candidate e isso tem se traduzido em percentual de alguma relevância em pesquisas.

As pessoas ficaram com a impressão de que o senhor não cumprimentou a presidente.

Eu não só cumprimentei como conversei longamente com a presidente. Eu estava o tempo todo com ela.

O Brasil está preparado para um presidente da República negro?

Não. Porque acho que ainda há bolsões de intolerância muito fortes e não declarados no Brasil. No momento em que um candidato negro se apresente, esses bolsões se insurgirão de maneira violenta contra esse candidato. Já há sinais disso na mídia. As investidas da “Folha de S.Paulo” contra mim já são um sinal. A “Folha de S.Paulo” expôs meu filho, numa entrevista de emprego. No domingo passado, houve uma violação brutal da minha privacidade. O jornal se achou no direito de expor a compra de um imóvel modesto nos Estados Unidos. Tirei dinheiro da minha conta bancária, enviei o dinheiro por meios legais, previstos na legislação, declarei a compra no Imposto de Renda. Não vejo a mesma exposição da vida privada de pessoas altamente suspeitas da prática de crime.

Como pessoa pública, o senhor não está exposto a todo tipo de pergunta e dúvida dos jornalistas?

Há milhares de pessoas públicas no Brasil. No entanto os jornais não saem por aí expondo a vida privada dessas pessoas públicas. Pegue os últimos dez presidentes do Supremo Tribunal Federal e compare. É um erro achar que um jornal pode tudo. Os jornais e jornalistas têm limites. São esses limites que vêm sendo ultrapassados por força desse temor de que eu eventualmente me torne candidato.

Que partido representa mais o seu pensamento?

Eu sou um homem seguramente de inclinação social democrata à europeia.

Como ampliar o Estado para garantir direitos de quem esteve marginalizado, mas, ao mesmo tempo, controlar o controle do gasto público para manter a inflação baixa?

O primeiro passo é gastar bem. Saber gastar bem. O Brasil gasta muito mal. Quem conhece a máquina pública brasileira, sabe que há inúmeros setores que podem ser racionalizados, podem ser diminuídos.

O senhor disse que o Brasil está numa crise de representação política. O que quis dizer com isso?

Ela se traduz nessa insatisfação generalizada que nós assistimos nesses dois meses. Falta honestidade em pessoas com responsabilidade de vir a público e dizer que as coisas não estão funcionando.

Quando serão analisados os recursos dos réus do mensalão?

Dia primeiro de agosto eu vou anunciar a data precisa.

Eles serão presos?

Estou impedido de falar. Nos últimos meses, venho sendo objeto de ataques também por parte de uma mídia subterrânea, inclusive blogs anônimos. Só faço um alerta: a Constituição brasileira proíbe o anonimato, eu teria meios de, no momento devido, através do Judiciário, identificar quem são essas pessoas e quem as financia. Eu me permito o direito de aguardar o momento oportuno para desmascarar esses bandidos.

Por que o senhor tem uma relação tensa com a imprensa? O senhor chegou a falar para um jornalista que ele estava chafurdando no lixo.

É um personagem menor, não vale a pena, mas quando disse isso eu tinha em mente várias coisas que acho inaceitáveis. Por que eu vou levar a sério o trabalho de um jornalista que se encontra num conflito de interesses lá no Tribunal. Todos nós somos titulares de direitos, nenhum é de direitos absolutos, inclusive os jornalistas. Afora isso tenho relações fraternas, inúmeras com jornalistas.

A primeira vez que conversamos foi sobre ações afirmativas. Nem havia ainda as cotas. Hoje, o que se tem é que as cotas foram aprovadas por unanimidade pelo Supremo. O Brasil avançou?

Avançou. Inclusive, entre as inúmeras decisões progressistas que o Supremo tomou essa foi a que mais me surpreendeu. Eu jamais imaginei que tivéssemos uma decisão unânime.

Nos votos, vários ministros reconheceram a existência do racismo.

O que foi dito naquela sessão foi um momento único na história do Brasil. Ali estava o Estado reconhecendo aquilo que muita gente no Brasil ainda se recusa a reconhecer, e a ver o racismo nos diversos aspectos da vida brasileira.

Os negros são uma força emergente. Antes, faziam sucesso só nas artes e no futebol, mas, agora, eles estão se preparando para chegar nos postos de comando e sucesso em todas as áreas. Como a sociedade brasileira vai reagir?

Ainda não vejo essa ascensão dos negros como algo muito significativo. Há muito caminho pela frente. Ainda há setores em que os negros são completamente excluídos.

Como o Brasil supera isso?

Discutindo abertamente o problema. Não vejo nos meios de comunicação brasileiros uma discussão consistente e regular sobre essas questões.

Como superar a desigualdade racial, mantendo o que de melhor temos?

O que de melhor nós temos é a convivência amistosa superficial, mas, no momento em que o negro aspira a uma posição de comando, a intolerância aparece.

Como o senhor sentiu no carnaval tantas pessoas com a máscara do seu rosto?

Foi simpático, mas, nas estruturas sociais brasileiras, isso não traz mudanças. Reforça certos clichês.

Reforça? Por quê

Carnaval, samba, futebol. Os brasileiros se sentem confortáveis em associar os negros a essas atividades, mas há uma parcela, espero que pequena da sociedade, que não se sente confortável com um negro em outras posições.

O senhor foi discriminado no Itamaraty?

Discriminado eu sempre fui em todos os trabalhos, do momento em que comecei a galgar escalões. Nunca dei bola. Aprendi a conviver com isso e superar. O Itamaraty é uma das instituições mais discriminatórias do Brasil.

O senhor não passou no concurso?

Passei nas provas escritas, fui eliminado numa entrevista, algo que existia para eliminar indesejados. Sim, fui discriminado, mas me prestaram um favor. Todos os diplomatas gostariam de estar na posição que eu estou. Todos.

Fonte: Revista Afro, com informações do jornal O Globo.

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Comentário de Eduardo César KISOKA em 5 agosto 2013 às 15:00

Com muito prazer, meu querido Adelson.

Carinho e respeito, sempre.

Comentário de Adelson Silva de Brito em 5 agosto 2013 às 14:02

Caro Eduardo,

Algumas entidades aqui de Salvador Bahia, estão denominando o mês de agosto como o mês da ancestralidade africana, em antecipação a implementação de uma agenda afim a questão do resgate da cidadania afrodescendente.Assim que eu obtiver as primeiras respostas eu te convidarei para os eventos.

Comentário de Adelson Silva de Brito em 5 agosto 2013 às 14:01

Caro Luis

Estou esperando algumas respostas que virão em breve de alguns órgãos já contactados nesse sentido. Tão logo os mesmos se posicionam, ei correrei a lhe participar (também). Algumas entidades aqui de Salvador Bahia, estão denominando o mês de agosto como o mês da ancestralidade africana, em antecipação a implementação de uma agenda afim a questão do resgate da cidadania afrodescendente.

Comentário de Luis de la Orden Morais em 5 agosto 2013 às 12:11

Eduardo, muito obrigado, fico feliz em ver que caminhamos juntos e mais uma vez desculpas a você e a todos por ter falhado na maneira de comunicar a mensagem. Estava preocupado em não ser confundido, mas você me deu paz no coração. Gostaria muito de aceitar o seu abraço de irmão e amigo, como você já deve ter visto, sou sempre um sincero aprendiz. 

Por favor, me digam como posso participar no que o Adelson falou (oh raiva que agente ainda está neste sub-desenvolvimento televiso):

Comentário de Adelson Silva de Brito 5 horas atrás

A proveito para sinalizar a necessidade de estabelecimento de uma moção a ser emcampada por uma dentre tantas entidade afrodescendentes ou não) em nível de Justiça contra a prática racista grosseira da TV Globo de achincalhamento e ridicularização da mulher negra em um programa dirigido pelo senhor Mauricio Scherman.Já chega dessa prática que nunca teve graça nenhuma.

Comentário de Eduardo César KISOKA em 5 agosto 2013 às 12:03

Caro Luis, 

Gostei muito da reação epidérmica sua, e acho que O Luiz é um ser bem equilibrado, hígido, e bem mais apetrechado intelectualmente, comparado ao amigo da Jamahiriya. Por isso, não quis polemicar com aquele cidadão da Libya.

Eu também reajo “epidermicamente”, sobretudo no que diz respeito as situações que ponham em risco a vida material e espiritual das pessoas, seja qual for o teor da pigmentação melánica dessas entidades, e  quando isso ocorre de maneira covarde e impiedosa, eu reajo automaticamente e do jeito da onça preta, mas com as minhas armas que são: a resistência e a persistência..

Naõ tenho a varinha mágica para limpar o vermes roedores atuando nas mentes atrasadas como é o caso do cérebro do amigo da Jamahiriya. Isto não me compete, e longe de mim essa pretensão de querer mudar o mundo.

Sabe Luis, quero assegurar-lhe da minha consideração para com você e obrigado de ter aceito o meu abraço e lamento muito o facto que o coração seu fosse machucado pelos comentários que eu fiz. Foi sem maldade. Mas também  asseguro-lhe que ficarei sempre aquela onça preta par defender os excluídos da nossa sociedade que são, principalmente afro-brasileiros. 

Muita paz no seu coração.

Eduardo César.

Comentário de Luis de la Orden Morais em 5 agosto 2013 às 7:31

Adelson, você sempre tem minha atenção e o seu ponto é bem mais que aceito e faz parte do meu aprendizado neste caminho. Obrigado pela reflexão e guia intelectual. 

Um grande abraço!

Luis

Comentário de Adelson Silva de Brito em 5 agosto 2013 às 7:01

A proveito para sinalizar a necessidade de estabelecimento de uma moção a ser emcampada por uma dentre tantas entidade afrodescendentes ou não) em nível de Justiça contra a prática racista grosseira da TV Globo de achincalhamento e ridicularização da mulher negra em um programa dirigido pelo senhor Mauricio Scherman.Já chega dessa prática que nunca teve graça nenhuma.

Comentário de Adelson Silva de Brito em 5 agosto 2013 às 6:55

Prezado Luis,

Meu respeito incondicional a você e a todos

Eu me pergunto: Por que o Dexter foi entrar na sua propositura de alternativas para o Brasil? Por que logo o Dexter?

Proponho uma reflexão sincera e basilar sobre o racismo assintomático praticado no nosso Brasil onde tudo que é político, independente da dita “orientação ideológica” passa ao largo da invisibilidade afrodescendente, pois vivem em uma sociedade que prima pelo seu projeto eugenista, e vive em função da concretização de numa “Nação morena” que só é morena quando questionada sobre suas práticas de estabelecimento e sustentação do “apartheid brasi-luso-afro-tupiniquim”: Por que será que entre os vários colaboradores que ajudaram a erguer os “partidos de esquerda”, só os de pele clara (exceto em raras exceções) ocupam as posições de destaque  ? E quanto ao “pedaço de cavalo”, sem pretender justificar destemperos, como afrodescendente,nascido e criado na periferia da sociedade, posso garantir a você e/ou qualquer cidadão que não vive a realidade da epiderme dos descendentes dos escravos (daí não ter meios físicos de contato com a nossa história particular) que é necessário ao negro que deseja ascender socialmente no Brasil o dom da vontade inquebrantável, e isso inclui uma vigilância pessoal a qual a sociedade brasileira insiste em não levar em consideração.

Um grande e respeitoso abraço.

Comentário de Luis de la Orden Morais em 4 agosto 2013 às 18:36

Eduardo,

Agora que você falou o abaixo, eu estou confuso e um pouco decepcionado. O assunto não é as piadas da Globo ou piadas racistas. O sarcasmo não foi contra o Barbosa e nem sequer se refere à etnia do mesmo. Eu estou chocado como essa conversa descambou para este assunto de piada racista contra gente oprimida. O assunto é totalmente o contrário. O seu argumento abaixo se vale de associar qualquer manifestação de humor como uma manifestação racista?  É como comparar leite com queijo e queijo com manteiga, e dizer que os três são a mesma coisa porque tudo saiu da vaca.

O disparate me parece grande, pois nós temos uma postagem nesta discussão de um tal  JAMAHIRIYA.LIBYA@BOL.COM.BR com afirmações anti-semitas fortíssimas e que simplesmente sentam ali sem contestação, apenas dois comentários distantes do seu, no qual você  ignorou:

"No Brasil os judeus monopolizam a TV discriminam e humilham as mulheres negras..."

"Ele para a Globo e aos judeus é engraçado, mas é desgraça para nós negros afros indígenas descendentes"

"...a Rede Globo é dominado por judeus diretores,produtores e apresentadores ( OBS. alem destes judeus e judias citados   existem centenas de outros e mais de 200 atores, atrizes, comediantes, artistas e apresentadores  judeus e judias e milhares de  empregados e colaboradores da " Rede Globo Judaica Midiática Brasileira"


Eduardo, porque de todas as postagens baixando o pau no Barbosa, a minha postagem de apoio ao Barbosa atraiu sua impaciência e resultou agora nesta resposta? O que realmente lhe motivou a escrever KKK, brancos e outros termos na sua postagem em resposta à minha?

Minha mensagem ainda é a mesma, se quisermos presidente educado e cordial vamos ter que procurar na Suiça, porque para o Brasil, o Barbosa é quem agente precisa, se não for o Barbosa, então Dexter. O que é que isso tem a ver com piada racista, com KKK, com os "brancos"? 

Eu como sou da escola do Barbosa, o homem, a figura pública, o intelectual pedaço de cavalo que não tem paciência com apologistas do erro, me sinto impedido de aceitar o seu abraço sem estabelecer o que realmente você quer dizer e isto feito em um tom adulto de homo sapiens a homo sapiens de forma não paternalista por favor. Se não for com clara igualdade e respeito, eu não posso aceitar seu abraço ainda, mas isto é apenas temporário e dependente de você clarificar o que realmente quiz dizer, por favor.

Por favor se sinta livre de visitar meu perfil e ver as postagens que tenho feito aqui, eu não me considero conhecedor de nada, eu estudo tudo.

Comentário de Eduardo César KISOKA em 4 agosto 2013 às 8:52

Caro Luis,

O caminho para o inferno está semeado de boas intenções, é um caminho “florido, sabe, perfumado mesmo, enfeitado de cores do arco-íris, um caminho carnavalesco sem a bendita quarta feira de cinzas.

Noutro lado, o caminho do Paraíso é uma senda estreita, poeirenta e cheia de abrolhos.

A vida dos Negros em geral não foi, e não é um caminho cheio de adornos cintilantes, longe disso, e o Amigo Luis é testemunha ocular da injustiça social do nosso País, o Brasil. 

O chamado Paraíso Tropical é, na verdade uma miragem, um engano, uma ilusão, só para burlar os turistas gringos ao pisar naquele chão vermelho do Brasil, não é?. Para mim, INFELIZMENTE, não há espaço nenhum para incluir nem sequer aquela piadinha inocente, sem pecado, aquela “pequena piada ingénua”, para relaxar a mente saturada de produtos tóxicos. Desculpe, mais  é assim que eu vejo a vida: é cruel, é fatal. Eu estou formatado para nunca mais aguentar qualquer tipo de distorção ou de distração nas reivindicações legais do povo, seja qual for o teor satírico da expressão usada.

A percepção humorística de uma situação depende, penso eu, da gravidade, da seriedade do assunto. Eu prefiro não fazer piadas sobre o infortúnio do meu povo, por pudor, por respeito, por tanto amar os meus irmãos.

A hora é grave Luis, e você sabe bem disso, ainda sabe disso melhor que ninguém. 

Querido Luis, é bom, é mesmo fisiológico, saudável  relaxar de vez em quando, fazendo piadinhas etc… mas aquela pobrezinha Negra, desgraçada, flagelada, mortificada e jogada na lata de lixo só por ser Negra, Mulher, Pobre e Analfabeta não precisa de piadinha nenhuma: precisa de ações afirmativas, precisa de ver o seu porvir enfeitado e perfumado, um futuro  um pouco melhor, uma sopa bastante temperada do que aquela que ela tem hoje dentro da sua taça de amargura,  que ela bebe santamente, dia após dia, com humildade, com um nó na garganta, esperando dias melhores e  mais ensolarados.

O Luiz é um conhecedor avisado não é?

Aquele abraço.

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