SP: Bloco Ilú Obá De Min reverencia orixás femininos no Carnaval deste ano

Por Juliana Gonçalves, do Portal Ceert.

Desde 2005, o Bloco Ilú Obá De Min sai às ruas de São Paulo celebrando a cultura afro-brasileira e destacando a participação das mulheres no mundo. Rainha Nzinga, Leci Brandão (a madrinha do bloco) e Raquel Trindade foram algumas das homenageadas nos anos anteriores. No Carnaval de 2013, o bloco enfeita as ruas da capital paulista com o enredo “As Yabás - as Deusas do Axé”. 

O Ilú é um bloco composto exclusivamente por mulheres. E, neste ano, celebra o poder feminino ao apresentar uma passagem da mitologia Yorubana que conta como os Orixás masculinos (Aborós) reconheceram que sem as mulheres não há vida na terra. 

Esse “reconhecimento”, obviamente, não foi espontâneo. Segundo o mito, Oxum, que possui o domínio sobre a fertilidade humana, deixou todas as mulheres estéreis em represália aos homens, que não as deixavam participar da construção do mundo. Logo, os homens são obrigados a reconhecer que sem as mulheres não há prosperidade. Assim as Yabás (Orixás femininos) conquistam o direito de participação nas decisões como um todo em sua sociedade. 

“Na Festa das Yabás, comandada por Oxum - deusa da fecundidade, da riqueza e da beleza - estão presentes Yemonjá, mãe de todas as águas e de todos os orixás; Oyá, dona dos ventos e do fogo e companheira de Xangô (o Patrono Ilú Obá De Min); Nanã, a anciã que propicia a matéria da criação primordial e também sua transformação; Obá, a guardiã de todas as mulheres e guerreira invencível; Ewá, a caçadora misteriosa, senhora das possibilidades. Como comunicador entre as esferas feminina e masculina, está o orixá de aspecto duplo Logun-Edé, filho de Oxum e do caçador Oxóssi”, explica Beth Beli, diretora do Ilú Obá de Min. 

Neste ano, a bateria representa em seu figurino dourado os encantos de Oxum, e além das Yabás, os Aborós também estão representados no Corpo de Dança e na trupe de Pernaltas (pessoas que desfilam com pernas de pau), nas figuras de Exu, Ogum, Oxossi, Xangô e Oxalá. 
Inspirados nas máscaras do Festival Gèlèdés (considerado Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade) estarão entre os pernaltas a máscara Ìyá Nlá (A Grande Mãe Natureza), fonte do Axé que permeia os mistérios da vida e da morte e que sintetiza e combina todas Yabás, e também a máscara Eye Oro, o pássaro mensageiro das temidas feiticeiras. Estas são as mais importantes máscaras Gèlèdés, sendo que todas são vestidas pelos homens iorubás, para reconhecer a conquista de Oxum e prestar homenagem ao princípio feminino. 

O empoderamento feminino por meio do tambor 

Ilú Obá de Min significa “as mãos que tocam tambor para o Rei Xangô”. As fundadoras do Ilú são Bethi Beli e Adriana Aragão. 

Adriana é percussionista, vocalista, compositora, arranjadora e profunda conhecedora do Candomblé que ainda menina obteve a permissão para tocar os tambores sagrados Rum, Rum-pi, Lê. 

Bethi Beli, além de diretora do Ilú, é percussionista, cantora, regente e mestra de bateria. Iniciou sua carreira artística em 1987, tendo como referência musical as grandes Escolas de Samba de São Paulo. Antes da criação do Ilú, participou da Banda-Lá, primeiro grupo afro de São Paulo; criou a Banda Mulheres de Ilú, junto com sua parceira Girlei Miranda e participou do bloco Ori Axé. Todos esses trabalhos sempre mostraram como é difícil ocupar as ruas de São Paulo. “Pelas dificuldades encontradas em minha caminhada, costumava brincar que só voltaria a trabalhar como mestre de bateria e regente se fosse para Xangô, o orixá da justiça”, conta Beth. “Obá” é justamente um dos títulos para Xangô. 

Ilú Oba de Min não nasceu dentro de um terreiro (como os afoxés), porém trabalha com maestria as questões do povo de santo e da valorização da cultura negra. “O Ilú surge a partir do momento que resolvo ampliar o discurso sobre a participação feminina no ato de tocar o tambor, ou seja, queria possibilitar o empoderamento da mulher por meio do tambor”, conta Beth. 

Mesmo dentro do Candomblé, as mulheres não têm permissão para tocar tambor. Então, Beth se inspirou em outras tradições africanas. “Nos rituais que ocorrem na Nigéria, por exemplo, as mulheres podem sim tocar o tambor”, conta. 

Ilú Obá De Min: Educação, Cultura e Arte Negra 

O bloco Ilú Obá De Min é apenas um dos projetos da entidade feminina sem fins lucrativos de mesmo nome. O objetivo da entidade é preservar e divulgar a cultura negra no Brasil, mantendo diálogo cultural constante com o continente africano, além de abrir novos espaços, de maneira lúdica e responsável, visando o fortalecimento individual e coletivo das mulheres na sociedade. 

Por 4 anos, o Ilú foi contemplado como Ponto de Cultura e utilizava a verba recebida na manutenção da casa, aluguel, aquisição e confecção de figurinos, manutenção e aquisição de instrumentos, entre outros. “Hoje nós mantemos a casa com os shows que a Banda Ilú Obá de Min faz durante o ano todo”, conta Beth. 

Além disso, o Ilú oferece aulas de dança dos orixás, dança afro, francês, percussão, entre outras, pelo valor mensal de R$ 80. 

O Ilú é coordenado e dirigido por algumas mulheres. Hoje em dia, Adriana Aragão não faz mais parte do grupo como regente. Regente e mestra são apenas Beth Beli e Mazé Cintra. 

Mazé é a regente do Ilú desde 2010 e coordenadora do instrumento Alfaia; Nêga Duda coordena as cantoras e compositoras e participa como cantora e compositora da Banda Ilú Obá desde 2004; Sosô Parma - coordenadora do naipe dos agogôs da Banda de Percussão Feminina ”Ilú Obá de Min” desde seu nascimento em 2004; Wanda – parte administrativa; e Baby Amorim - produtora. 

As coordenadora de naipes são: 
Agogôs- Sosô Parma 
Alfaias – mestra Mazé 
Djembes – Roberta Viana 
Xequeres- Lais e Silvana 
Canto- Nêga Duda 

A entidade Ilú Obá De Min abarca os seis projetos a seguir: 

Bloco Afro Ilú Obá De Min: O objetivo é divulgar as tradições percussivas, musicais e coreográficas africanas e afro-brasileiras a partir de oficinas de rua para mulheres. Como regente e mestra, Beth Beli comanda as oficinas percussivas de rua. “É um trabalho de formação e multiplicação que tem seu ápice na saída do Ilú”. Cerca de 180 pessoas participam das atividades que ocorrem gratuitamente nas praças públicas do centro da cidade com o apoio da Sub-Prefeitura da Sé e CET. Hoje cerca de 250 pessoas desfilam no Ilú. 

Banda Ilú Obá De Min: O objetivo é a pesquisa musical de matriz africana e afro-brasileira e sua divulgação. Composta por 30 mulheres ritmistas tocando djembês, alfaias, ilús, agogôs e xequerês. 

Corpo de baile Ilú Oba De Min: O objetivo é trabalhar com a dança de matriz africana e afro-brasileira a partir de oficinas de rua comandadas por Rúbia Braga e Cris Obá. 

Ilú na Mesa: ciclo de palestras e debates cujo objetivo é promover o debate entre as/os integrantes da entidade e sociedade em geral sobre temas voltados para educação, cultura e arte negra. 

Triunfo das Heranças Africanas: Tem como objetivo divulgar e dialogar com os inúmeros grupos culturais brasileiros que desenvolvem pesquisa-ação voltada para as culturas de matriz africana e afro-brasileira. 

Tenda Lúdica: Voltada para o público infantil. Trabalha a Lei nº 10639/2003 que alterou a LDB incluindo a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas. O projeto consiste em uma grande tenda que oferece, simultaneamente, aulas de percussão, contação de histórias, jogos africanos, confecção de bonecas pretas e biblioteca com literatura infantil que valoriza a diversidade étnico-racial. 

Dia 02 de fevereiro é dia de Iemanjá e tem festa na sede do Ilú Oba de Min. “É só chegar”, convida Beth. 

*Com informações de Ilú Obá de Min- http://www.iluobademin.com.br 

**Fotos: 1ª imagem: Kassá. 2ª imagem: Marcel Maia

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