Blogueira enumera as cinco cantadas racistas mais comuns

Considerações sobre elogios racistas

http://blogueirasnegras.wordpress.com/2013/05/29/elogio-racista/

Por Charô Nunes para as Blogueiras Negras

Elogio racista é toda demonstração de admiração, afetividade ou carinho que se concretiza por meio de ideias ou expressões próprias ao racismo. Com ou sem a intenção de, que fique bem claro. Um dos mais conhecidos é o famoso “negro de alma branca” que nossos antepassados tanto ouviram. Mas não são apenas nossos homens que conhecem muito bem os elogios racistas. Nós mulheres negras também somos agraciadas com esses pequenos monstrinhos, usados inadvertidamente por amigxs, familiares. Muitas vezes até por nossos parceirxs.

Decidi fazer uma lista com 5 elogios racistas (e sexistas, diga-se de passagem) que muitas de nós escutamos quase que diariamente. Alguns são consenso, acredito. Outros nem tanto. Fico aguardando ansiosa para que você, mulher negra, deixe seu comentário dizendo se também acontece com você. Se concorda, se discorda. E sobretudo, o que você faz para deixar bem claro que esse tipo de comentário pode ser tudo, menos benvindo e apreciado.


Adriana Alves é atriz e frequentemente é chamada de morena

Adriana Alves é atriz e frequentemente é chamada de morena

01. “Você é uma morena muito bonita”

Esse é o elogio racista que mais escutei em toda minha vida. Minhas primeirass lembranças são do tempo da escolinha. Mesmo mulheres como Adriana Alves ainda são chamadas de morenas, pois se acredita que chamar alguém de negra é uma ofensa racial. Se você precisa se expressar, tente um simples “você é bonita ou atraente”. Ou ainda “você é uma negra linda”, o que, dependendo do contexto pode ser tão ruim quanto.

Mas em hipótese alguma diga que uma negra é morena, moreninha, morena escura. Que não é negra. Isto sim é racismo dos graúdos, pura e simplesmente. Quando acontece comigo, digo que não sou morena e nem moreninha, sou n.e.g.r.a. O bom é que, dependendo de como essa resposta é dada, a pessoa já se toca que ela não deveria ter começado o conversê, que simplesmente não estou disponível para esse tipo de diálogo. Nem com conhecidos, muito menos com estranhos.


Não toque no meu cabelo. Foto Afrobella.

Não toque no meu cabelo. Foto Afrobella.

02. “Seu cabelo é muito bonito, posso pegar?”

Há alguns anos atrás, uma senhora ultrapasssou todos os limites de uma convivência pacífica ao se aproximar de mim, cheia de dedos, me tocando sem permissão e dizendo que eu tinha uma “peruca muito bonita”. Não retruquei de caso pensado, antecipando seu constrangimento por jamais ter cogitado que uma mulher negra pudesse ter um cabelo comprido, ao natural. Minha vingancinha, e sou dessas, foi olhar aquela expressão de arrependimento por ter percebido o que fez.

Entendo que simples visão de uma negra com cabelo natural pode ser inebriante. Que persiste a completa desinformação sobre o nosso cabelo. Porém, isso não justifica o toque sem permissão. Não importa se é cabelo natural ou não. A menos que você conheça muito bem a pessoa, não toque em seu cabelo sem consentimento. Eu iria mais longe. Para mim a boa etiqueta simplesmente reza que não se deve nem mesmo pedir para tocar o cabelo de uma pessoa desconhecida.


Alek Wek é uma modelo de traços delicados

Alek Wek também é uma modelo de traços delicados

03. “Você tem os traços delicados”

Dizer que uma negra tem traços “delicados” muitas vezes tem a ver com a ideia de que será bonita se tiver uma expressão “fina”, leia-se semelhante a de uma pessoa branca. Como se determinado tipo de nariz (ou bochechas) fosse exclusivamente dessa ou daquela etnia. Uma de suas variantes é outra expressão igualmente racista – “você é uma mulher negra bonita” – algo que ao meu ver é a mesma coisa de dizer que “você é bonita para uma negra”.

Afinal, qual a dificuldade de dizer que uma mulher negra simplesmente é… Uma mulher bonita? Porque Alek Wek tem de ser descrita como uma “mulher negra bonita” enquanto as mulheres brancas são apenas “mulheres bonitas”? Mais uma vez, toda a sutileza do elogio racista. Ele reconhece que você é uma pessoa admirável, mas sempre fazendo questão de te colocar “no seu lugar”, como se algumas fronteiras jamais pudessem ser cruzadas.


Cena de Vênus Negra, de Abdellatif Kechiche

Cena de Vênus Negra, de Abdellatif Kechiche

04. “Você tem a bunda linda”

Essa é uma opinião que certamente não é unânime. Faço questão de expressá-la como uma provocação que representa o pensamento de uma parcela significativa de mulheres negras. Para muitas de nós, esse comentário expressa a hipersexualização a que somos historicamente submetidas como exemplifica a triste biografia de Saartjie, denominada a Vênus Hotentote, exposta como atração circense em função da admiração que suas nádegas causaram na Europa do século XIX.

Apesar de todo respeito que tenho por tudo aquilo que acontece entre duas pessoas, preciso considerar a tradição racista secular desse tipo de discurso. Trata-se de reduzir a mulher negra a um pedacinho do seu corpo, desconsiderar sua humanidade, transformá-la num pedaço de carne exposto no açougue como aconteceu e acontece diariamente. Meu conselho é perguntar se a mulher a quem você pretende cumprimentar tem a mesma leitura sobre esse tipo de elogio.


Mulata da Leandro de Itaquera

Mulata da Leandro de Itaquera

05. “Você é uma mulata tipo exportação!”

Esse elogio resgata o tratamento dispensado à mulher negra no seio da senzala, da casa grande. O pensamento que nos reduz em brinquedos sexuais. Dizer que uma mulher negra é uma “mulata tipo exportação” é esquecer uma tradição escravocrata secular, que transforma a mulher negra em “peça” que alcancará boa cotação no mercado onde a carne mais barata é a nossa. O nome desse mercado é exotificação. Em alguns casos, hiperssexualização.

Infelizmente também estamos falando sobre o modo racista com que as mulatas de escola de samba, mulheres que respeito e admiro, são mostradas e consumidas. Mulheres que levam o samba no pé, no sorriso, na raça. Que, ao invés de serem uma referência de beleza, são vendidas como frutas exóticas na temporada do carnaval. Mulheres que recentemente tem sido preteridas por “personalidades da mídia” em nome de uma pretensa “democracia racial” e muitas vezes com a anuências de algumas agremiações.


Qual é a sua opinião?

Porém, preciso dizer que os elogio racistas podem (e devem)  subvertidos. Quando o assunto são as mulatas de quem já falei aqui, isso é bastante evidente. Ser uma mulata exportação também atesta um padrão de excelência e traduz qualidades como perseverança, força. Minha professora de dança adora dizer que a graça de uma bailarina é diretamente proporcional à sua força. Mulatas são a expressão mais concreta desse enunciado.

Por isso fiz questão de usar como título desse post, um trecho do poema de Elisa Lucinda, Mulata Exportação, que resume tudo o que tentei dizer até aqui: “deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata” como muita gente gosta de pensar. E acrescento, “opressão, barbaridade, genocídio, nada disso se cura trepando com uma escura!”Muito menos tecendo elogios racistas, diga-se de passagem. Quem o diz é a mulata exportação do poema. Sou eu, somos todas nós que já ouvimos essas porcarias.

Confesso que essa lista tem algo de muito pessoal, cujas entrelinhas tem muitas dedicatórias alimentadas por ironia. Nem por isso menos pertinente. Por isso adoraria ouvir a opinião de vocês. Esqueci algum elogio racista que te incomoda? Que te fez espumar de ódio, revirar os zóios e dizer algumas verdades? Você também acredita que esse tipo de comentário, como tudo aquilo que é racista e preconceituoso, diz muito sobre a pessoa que o faz do que sobre a pessoa a quem se destina?

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Comentário de Yasmin Gomes em 21 julho 2013 às 15:12

Infelizmente, já ouvi mais da metade desses ''elogios com duplo sentido'', na maioria das vezes a pessoa nem percebe que está fazendo um elogio racista, isso vem de muito tempo. 

Já me disseram que sou bonita por conter ''traços brancos'' no meu rosto...isso é de borbulhar de ódio!

Triste é ver que isso ainda é algo muito fácil de se encontrar no dia a dia. 

Comentário de Inaiá Boa Morte Santos em 9 julho 2013 às 19:29

Fico muito irritada com o elogio racista Você é uma negra simpática 

Comentário de Lane em 8 julho 2013 às 8:04

As pessoas sempre discordam quando digo que sou negra só porque tenho pele clara. Afinal de contas, o que eles pensam que é ser negra? Ter a pele escura? 

Comentário de Rafaela Vipper em 5 julho 2013 às 20:24

Uma das coisas que me incomodam é quando me perguntam se eu sou artista. Daí, antes de responder eu pergunto o motivo da pergunta e na maioria das vezes ouço: você tem um visual diferente, o seu cabelo, as suas roupas... Ou seja, mulher negra, de cabelo black só pode ser artista! Outra coisa que observo são os assédios e os comentários pelo Facebook; quando tem uma foto de uma mulher negra sempre aparecem comentários do tipo que exaltam as partes físicas, como boca, pernas e quadril, sem falar nos convites! A impressão que dá é que quem faz esse tipo de "elogio" deve sempre achar que ficamos lisonjeadas. O maior problema que vejo nisso é que tem mulheres que gostam, se sentem estimadas, desejadas e acham que tem que ser assim mesmo. Dependendo do meu humor eu apelo para a ironia ou mesmos para discussões para que o outro perceba que este tipo de comentário não me engrandece. Já que não podemos adivinhar o que vai sair da boca das pessoas é interessante que saibamos construir nossos argumentos para nos defendermos deste tipo de coisa, mostrar que não precisamos de acréscimos adjetivos para reconhecermos a nossa identidade.

Comentário de Thiara Andrade em 5 julho 2013 às 8:59

Pra começar, é preciso acabar com esse paradigma de "raças". Existe a espécie humana e só. Real e infelizmente, ainda ouvimos comentários como "nossa, ela é uma morena bonita". Como bem colocou Charô, por que não dizer apenas "nossa, que mulher bonita"?! Porém, como foi comentado, muitas pessoas ficam em dúvida na hora de se referir à pessoa negra... tentam ser "politicamente corretos" e acabam metendo os pés pelas mãos. Eu, particularmente, não concordo com "tratamentos diferenciados". Todos somos iguais perante a lei, perante deus, e todos devemos ser tratados da mesma maneira. No Brasil, o negro é discriminado, o pobre é discriminado, o nordestino é discriminado (imaginem o combro negro, pobre e nordestino?!). O País precisa levar o artigo 5º da CF/88 mais a sério, com verdade, só assim será de todos.

Comentário de Thamires Pacheco em 5 julho 2013 às 8:52

Rsrsrs que coisa, eu sempre escuto que não sou negra. E tb já escutei essa frase, "nãããão, você não é negra, você é bonita". Triste realidade. É como se nos aceitar como negras, fosse um fardo, algo ruim, seria trazer conosco uma história que não devemos nos orgulhar. 

Comentário de Fagna Serra em 5 julho 2013 às 0:46

Boa noite, bem minha opinião em tudo isso é mais o tom que qualquer coisa, tem gente que acha que vai ofender se te tratar por negra, preta e vem com os eufemismos, mas se percebe quando é racista ou não, concordo que a beleza não deveria ter cor  expressa, se é bonita ou não pura e simplesmente, também já vi gente se incomodar por ser chamada de preta, não vejo mal algum uma vez que a cor é preta sim da mesma forma que branca.

Comentário de Ivana Ramos em 4 julho 2013 às 20:22

mas sim, esse termo "Mulata exportação" é nojento e vem toda nossa história sangrenta na cabeça... péssimo

Comentário de Ivana Ramos em 4 julho 2013 às 20:20

Na boa.. só o fato de usar o termo racismo já é aceitar que existem raças, mas enfim, nao vou entrar nesse mérito. tenho cabelo liso e tem muita gente estranha que pega no meu cabelo, assim como tenho uma amiga negra black power que muita gente pega no cabelo dela tambem. nao acho que seja ofensivo, ainda mais pelo fato de ainda hoje ser meio raro uma garota manter o cabelo afro! nao acho q as pessoas façam por mal. tentem andar com menos pedras nas mãos, o preconceito está sim permeado na sociedade, mas nem todas as pessoas são mal intencionadas. e sobre a bunda, acho que independe de cor, uma vez que qualquer garota com bunda grande sempre vai ouvir merda por aí, elogios que se direcionam exatamente a um pedaço de carne e não à cor da pele dela.

Comentário de Fabiana Oli em 4 julho 2013 às 15:56

   Infelizmente isso é fruto de uma cultura plantada e que até agora foi sustentada por "nós"... Pq mulata tipo exportação?? Por que até então muitas de nós só saíam do Brasil pra sambar... e tal...Hj saímos como advogadas, professoras, médicas... Cabe a cada uma mostrar o seu valor, resistir, estamos em processo de mudança.Não deixarmos nos chamar de morenas, muitos não fazem por maldade, essa é a verdade. Vamos corrigir as pessoas... Nós sabemos quando frases "elogios, comentários, são para ofender, discriminar... Meu pensamento.

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