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Comentário de Luis de la Orden em 19 fevereiro 2013 às 12:32

Oi Vera,

Eu creio que seus pontos são válidos muito embora se refiram a coisas que, no meu parecer e opinião, não são realmente conectados ou relevantes.

Primeiro, as cotas serviram para abrir os olhos para o problema da educação no Brasil e principalmente da educação dita superior. O problema é maior que o interesse governamental focado em solucionar o mesmo desde a ditadura militar, que instaurou o vestibular como uma forma de não solucionar o problema mas para transferir a responsabilidade de acesso a educação de qualidade ao estudante. Nisto ficou instaurado um sistema que em termos de hoje se equipara a uma máquina de datilografar com teclas de ouro, mas que no final nunca se comparará a um computador. O vestibular é isto, um esquema antiquado de retirar a responsabilidade do governo e colocar no cidadão que hoje, décadas depois, internalizou a idéia que o vestibular é algo justo e parte do processo de aprendizado. 

Não existe vestibular em quase nenhum sistema educacional superior no mundo moderno, sim há provas de seleção para cursos considerados exigentes como medicina, física e tudo mais, entretanto falhando esta primeria opção de curso de topo de linha devido ao desempenho do aluno, ele não fica excluído. O processo de recrutamento (não seleção) em si é simples, o estudante manda suas cartas com o histórico escolar para duas ou três universidades e estas escrevem de volta oferencendo uma vaga ou não. Se alguém não receber uma resposta positiva de nenhuma universidade (quer seja porque o histórico e experiência do aluno não se conformam com a exigência do curso), outras opções são oferecidas. Isto funciona porque existem as vagas em primeiro lugar e o sistema de financiamento ou ajuda de custo já vai embutido no processo todo.

Em certo sentido, entrar na universidade sem vestibular é o que já se vive há décadas fora do Brasil. Ressalto meu próprio exemplo, que me inscrevi e terminei um curso de pós-graduação em uma Universidade boa em Londres apenas com o meu currículo na área de TI, meu portifólio de trabalho e uma referência do meu empregador para confirmar que eu realmente trabalahava naquela área. Detalhe, eu nunca consegui terminar um curso universitário no Brasil pois ou eu trabalahava ou eu estudava, mas mesmo assim pude fazer minha pós na Inglaterra e até me inscrevi de novo e da mesma forma a um mestrado em Ergonomia o qual eu não terminei pois passado os elementos de psicologia humana que estudamos eu não consegui encontrar motivação para estudar coisas relacionadas a estrutra óssea e como ajustar equipamento de escritório (um saco para mim).

Duas coisas eu aprendi com minha experiência, primeiro que o verdadeiro "vestibular" é concluir o curso, neste caso o vestibular não vale para nada, segundo que a educação não é mistificada mas vista como uma comodidade acessível, ainda que paga mas facilmente financiável, em qualquer lugar que eu vá fora do Brasil. 

Hoje olhando ao redor, para os meus colegas de trabalho ingleses, eu vejo o quanto o sistema de educação pública no Brasil e a relativa pobreza não me ajudaram a vencer de forma plena (vitória plena mesmo, não o tipo de vitória de sobrevivente que eu acho que você está se referindo). Em idade eu estou pelo menos 10 anos atrás de uma pessoa da mesma idade que nasceu aqui, e olha que sou um CDF, sou branco e trabalho consistentemente 12-14 horas por dia para sempre apresentar um trabalho melhor que meus colegas.

Feliz e infelizmente, a Internet, os jogos de computador, a disponibilidade de tecnologia e acesso à informação adicionaram um nível de competição alto contra o sistema educacional de todos os países. O jovem sabe que cada hora de aula passados com livro, quadro e caneta poderia ser muito mais engajadora em 15 minutos de computador, vídeos e aulas práticas. De forma alguma jogo a culpa de volta aos professores, mas em certo sentido, os professores da rede pública têm sido limitados pelo pouco que se oferece a eles para transformarem aulas em experiências de aprendizado. Muita teoria pedagógica e pouco kit de ensino prático para cada matéria.

Eu cresci entre negros e o que eu observei é que a barra psicológica é grande, muito grande pra vocês. A psicologia de competição no vestibular que se introjetou entre a classe média a partir da década de 60, é jogada no negro desde sempre. Mas não é o mesmo tipo de competição, não é mesmo. É acompanhada e jogada com bully racial, chacota, piadas, discriminação de investimentos na hora de colocar a verba onde se necessita. No final, quando se constrói uma escola no morro, esta escola não é construída para inspirar e fazer o pobre se sentir como gente e um ser humano em pé de igualdade com o menino de classe média, mas é construída para se parecer com um galpão onde 30-50 jovens em cada sala se sentarão e escutarão por horas a fio ao professor que depois de tanto descaso acaba se desmotivando também.

Eu aconselharia que você procurasse ver artigos que falam sobre as iniciativas educacionais que têm sido feitas no Brooklyn, entre a comunidade negra e pobre, eu tenho certeza que você vai ver que o descontentamento do negro brasileiro brota da preguiça governamental e de nossa sociedade que fica idolatrando estes ídolos vazios e defasados como o vestibular.

Um abraço,

Luis de la Orden 

um branco do quilombo

Comentário de Vera Lucia Passos Souza em 19 fevereiro 2013 às 10:21

Falar da População negra em Salvador , é falar da maioria. Não gosto de exclusão e não me sinto fora de nada. Sempre encarei como irrelevante a raça, pois acredito que RAÇA É HUMANA. O interessante é que todas as vezes que presenciei o racismo foi de de negro para negro. A minha Família tem vários casais branco/negro e os descentes convivem com naturalidade.

Quando eu tinha 11 anos , me vestiram de anjo, pela primeira vez, na igreja. Ao passar próximo de uma mulher negra, ela soprou no meu ouvido: nunca vi anjo preto.

Nesse dia eu tomei conhecimento que eu era NEGRA.  Assumo e tenho orgulho.

Somos pessoas inteligentes , fico triste em ver meus alunos sem querer ler e progredir.

É preciso que nós que chegamos a Universidade sem carecer de cotas, incentive aos jovens , a crescer.

Sei que algumas pessoas não concordam , mas acho humilhante , precisar de cotas.

Fui menina pobre, não tinha às vezes cadernos e livros. Eu venci. Quero que todos vençam.

Translation:

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