Brasil, ano de 2012: um olhar para além das cotas

  • Brasil, ano de 2088. 

    Um engenheiro espacial afrobrasileiro se vê atarefado com painéis e controles digitais que gerenciam dados complexos enviados por um satélite espacial de orbita geoestacionária. Todo o aparato, no espaço e em terra, monitora a produção volumosa de petróleo, na camada pré-sal da costa sul-sudeste do território brasileiro.

    O I-pad em formato de relógio digital ajustado em seu pulso esquerdo vibra levemente. Um rosto negro jovem aparece na tela. 

    Uma chamada de seu filho, de algum lugar do planeta:

    - Fala garoto, tudo bem?

    - Sim, pai! 

    - Como vão os trabalhos aí na Ásia?

    - Tudo bem, pai. E é por isso que me conectei com você...

    - OK, só um minuto - o cientista negro aciona alguns comandos do grande painel à sua frente e orienta o computador a monitorar as operações no modo automático. 

    - Pronto, filho. Como posso ajudar?

    - Pai, eu tenho que fazer uma video conferência daqui da China com outros países e vou ter que falar sobre a formação do Brasil. Já tenho todos os dados que preciso mas apareceu uma curiosidade sobre nós afrobrasileiros. O que foram essas "cotas" para os nossos antepassados, pai? 


    O bom pai ameaça um sorriso de satisfação e lembrou-se de uma conversa que ele mesmo tivera com o próprio pai, quando ainda era um garoto curioso e ávido por conhecimento. O engenheiro espacial sempre soube que aquela pergunta viria do seu filho, um dia. (continua após o artigo abaixo...) 



    ************************************

    Brasil, ano de 2012: um olhar para além das cotas

    O Brasil é, neste momento, mais um país moderno a sofrer um grande e profundo questionamento sobre a sua real identidade étnica.

    Em um momento de grande relevância na História do Brasil, os mais altos magistrados do país julgaram constitucional a decisão de se estabelecer um sistema de cotas para estudantes universitários autodeclarados afrodescendentes. 

    É razoável de se especular que o mérito jurídico do resultado aponta para estratégias de inserção social, reparação histórica e acorreção das muitas desvantagens que permeiam a saga de negros e povos nativos no maior país da America do Sul e uma das maiores economias do mundo. Já tendo por base as políticas públicas adotadas e aferidas com resultados louváveis em anos recentes, as quais transformaram uma parte expressiva da população em cidadãos economicamente ativos e pagadores de impostos, entendo também ser algo lógico especular que em breve os outrora excluídos (ou os filhos destes) caminham a passos firmes para a consolidação e perenidade de uma classe média negra robusta e representativa. Todavia, e como em todo processo de transição, esse avanço dificilmente virá sem sequelas nas relações etnicas destas bandas. 


    Por um lado, a elite brasileira reprova visceralmente a institucionalização das cotas. Assim como os antepassados desta mesma elite (ao fim do Império e nos primórdios da fundação da República) não queriam que a escravidão dos negros chegasse ao fim. Guardadas as devidas proporções, e respeitando as características de cada Nação, alguns questionamentos (de ambas as partes) surgirão, assim como ocorreu (e em certa medida ainda ocorrem) nos Estados Unidos, desde o fim dos anos 50 até meados da década de 80, e também na África do Sul, desde os princípios da década de 90. 

    A elite brasileira se estabeleceu neste país habituada a sistematicamente enxergar e entender os negros e índios como cidadãos de segunda e terceira classes. Não por outro motivo, as oligarquias industriais, políticas, comerciais, científicas, empresariais, acadêmicas, religiosas, desportivas, de comunicação e de entretenimento estão em poder de pessoas não-negras e não-índias. E fazendo uma reflexão aprofundada sobre as cotas, certamente esse avanço ainda é de total desconhecimento sobre as suas prerrogativas por uma grande parte da população negra. 

    Ouso dizer que existem neste momento negros que defendem o estabelecimento das cotas em universidades... MAS NÃO SABEM O QUE ELAS SIGNIFICAM! Sem contar que as cotas podem, em alguns incautos e incultos, gerar a reação de que pelo simples fato de se autodeclarar afrodescendente, a SUA vaga em um acento de uma instituição de ensino superior já estará automaticamente garantida. Ledo engano. Se não passar no vestibular, NÃO ENTRA!

    Num cenário otimista, e se conduzida com inteligência e diálogo em "ambos os lados", a efetivazação das cotas em universidades pode alavancar programas de diversidades em vários níveis da sociedade brasileira, o que em tese estimularia programas de preparação e qualificação nos ciclos pré e pós universitários, melhorando os níveis de cidadania dos brasileiros em todas as camadas, o que pode promover um maior equilíbrio entre as classes sociais que perfazem a pirâmide social brasileira. Está mais do que provado que o que torna um país uma potência economica é a sua classe média que se consolide como economicamente ativa e politicamente atuante. O desafio do Brasil é ter um numero menor de pessoais ricas demais e aumentar o numero de pessoas que historicamente sempre consumiram pouco ou bem menos. 

    É preciso expandir a classe média "para cima" e "para baixo", dentro da pirâmide social. E não tem como fazer isso sem contar com o contigente dos afrodescendentes, que são o víes populacional desta faixa da população. O êxito do Brasil como nação de "Primeiro Mundo" passa obrigatoriamente pela qualificação dos negros que aqui residem. Qualquer estratégia nacional que desconsidere o componente "afro" em suas manobras, está fadada ao fracasso. 

    Os militantes favoráveis às cotas devem ficar vigilantes, entretanto. A elite brasileira é dissimulada e pode querer "virar a mesa" a qualquer instante. Vide o episódio "Diretas Já!", no início da década de 1980. Haverão focos de resistência aqui e ali, a respeito da decisão do Supremo. Existem "White Powers", "Skinheads" e "Carecas do ABC" dissimulados em TODOS os extratos e segmentos da sociedade brasileira. Inclusive na política. 

    E por outro lado, é preciso ter cuidado para que "liberais" e hienas de plantão queiram fazer deste avanço, com aroma de feijoada e ginga de capoeira, uma plataforma para manobras eleitorais e eleitoreiras excusas e oportunistas. E é temeroso também especular que algum afrodescendente despreparado e ortodoxo utilize o advento das cotas como forma de fazer escárnio sobre a elite, o que realimentaria ressentimentos e reabriria feridas mal cicatrizadas sobre as complexas nuances das relações étnicas do Brasil. 

    Nossos primeiros antepassados, vindos da África, pisaram pela primeira vez no Brasil por volta de 1530. Foram precisos 482 anos para que uma decisão na instância suprema da Justiça nacional compreendesse que negros e indios batalham pela igualdade em condições desiguais de cidadania. Que a justiça, portanto, prevaleça e que o Brasil caminhe a passos largos e firmes em direção à sua grandeza. Contando com a força e capacidade de TODOS os seus habitantes; seja de que origem for. Vivemos todos sobre as glórias e desafios de uma mesma bandeira.

    As cotas universitárias são justas, providenciais e necessárias. Que sejam um recurso temporário, e não uma regra perene. 

    Particularmente, torço para que sejam um ajuste homologado em 2012 e que meus descendentes, num futuro (não muito) distante não precisem mais delas para se sentirem mais brasileiros(as).

    ************************************

    (continuação da abertura)

    Ano de 2088 (200 anos após a Abolição da Escravatura no Brasil...)

    O bom pai ameaça um sorriso de satisfação e lembrou-se de uma conversa que ele mesmo tivera com o próprio pai, quando ainda era um garoto curioso e ávido por conhecimento. O engenheiro espacial negro sempre soube que aquela pergunta viria do seu filho, um dia. 

    Lembrou-se também da explicação do saudoso avô do seu garoto, que com paciência e sabedoria contara a história que, no distante ano de 2012, houve uma decisão favorável aos negros e índios do Brasil que... etc, etc, etc

    - Mas isso é coisa do passado, filho. Felizmente, a sua geração não precisa mais disso.

    - É... ainda bem. Valeu pai. Semana que vem embarco de volta e quero um churrasco. Tchau! 

    Desconectando...

    Por Durval Arantes, professor de Inglês do Curso Ebony English e especialista em cultura afro-cêntrica.

Exibições: 228

Comentar

Você precisa ser um membro de Correio Nagô para adicionar comentários!

Entrar em Correio Nagô

Translation:

Publicidade

Baixe o App do Correio Nagô na Apple Store.

Correio Nagô - iN4P Inc.

Sobre

© 2017   Criado por ERIC ROBERT.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço