Cinzas de mais um Carnaval, por Adailton Poesia

 

JÁ FIZEMOS CARNAVAIS COM MAIS RESPONSABILIDADE

 

 

Este carnaval de 2011 pode ser marcado por algum fim e/ou começo de alguma coisa nova com outro viés de manifestar negritude na festa; de todos os lados dos excluídos do nosso povo, espocam manifestações de descontentamento com o tratamento que tem sido dedicado aos foliões comuns; ou seja, os mais iguais dos mais iguais!

 

Nunca esqueço que num Festival da Canção Apache, na hora que fui chamado para cantar, a comissão julgadora não havia recebido as cópias da minha música e não concorri, deixando o caminho livre para um “broder” ganhar aquele Festival – muito tempo depois, por meio de um líder inconteste da Nação Apache, fiquei sabendo que não fui apresentado a tribo conforme procedimento natural: não fui bem apresentado!

Como a minha sempre foi estar nos festivais, independente do resultado, por conta do clima e da vida que pulsa no processo que envolve a participação e o conjunto de compromissos que estabelecemos com várias pessoas e entidades, essa coisa é um prêmio imensurável! E para mim que sou militante, é a oportunidade de deixar minha posição e fazer ecoar minha mensagem.

 

Vaidade, ambição e ganância nunca fizeram parte do meu repertório em toda a minha trajetória – lembro-me que quando o pessoal da produção da Daniela Mercury me procurou para gravar a minha música e do meu parceiro Valter Farias (que vem de muito mais tempo que eu – Valter vem do Tupi), quando procurados para gravar a nossa música O CHARME DA LIBERDADE, nos informaram que queriam colocar na música um refrão de uma canção de Guiguio, e numa boa deixamos rolar e deu certo!

Nunca tivemos os créditos de reconhecimento pela música “Deusa do Amor” que fizemos para o Olodum. Numa entrevista há um tempo, no programa Rede Bahia Revista sobre compositores, Pierre Onassis quando falou insinuou que era dele – mas deixamos que o tempo fizesse, como fez, o seu ofício...

 

Em um festival do Ilê quando o tema foi Moçambique, um professor de história distribuiu um texto defendendo meu trabalho em relação às musicas que ficaram na frente dela; o professor questionava uma das músicas pois ela elevava a imagem de LOURENÇO MARQUES quando a música falava que “Hoje Maputo é a capital / antes ali era Baía de Lourenço Marques” – dizia o professor: o nome deste colonizador foi imposto a ferro e fogo àquela gente! Entre vários outros questionamentos.

Sem tirar o mérito do professor, continuei e não liguei ou procurei dar razão a estas intervenções por conta de acreditar que a minha contribuição de levar a mensagem e fazer o debate, contribuindo para a reflexão e ação política do nosso povo e enquanto houvesse o espaço, estava feita.

 

Durante todos esses anos que participo de festivais de blocos e afoxés, nunca vi um período que, coincidente ou não, a comissão julgadora dos festivais não consegue expressar ou captar, por falta de vínculos identitários, na maioria das vezes, aquilo que está borbulhando e fervilhando em nossas comunidades. E para quem quer ganhar o festival, tem que baixar a bola e jogar de acordo com a comissão!

 

Infeliz ou felizmente para minha consciência, sou um militante! Não vou entrar nessa e consigo perceber neste toque sem sintonia, o porquê dos blocos e suas músicas não estarem conseguindo dialogar com as nossas comunidades. É verdade que tem a questão de que os ensaios eram abertos, em praças e você mesmo não chegando entre os três primeiros no festival, você tinha dado o recado e a música estava na cabeça do povo. 

No processo de profissionalização do carnaval, esse espaço o povão também perdeu; até os ensaios são pagos!

 

A musicalidade que transborda nas comunidades hoje é muito mais autêntica naquilo que se propõe do que aquilo que os blocos afro tentam se aproximar! Isso exige reflexão!!! Com toda a crítica que eu posso ter, um diretor de um bloco chegou para mim e disse: - você continua escrevendo bem... Contudo, você precisa reler mais friamente a melodia! Isso é um elogio e um incentivo!!! Ou seja, Estou precisando me apurar nisto ou naquilo...

 

Mas toda esta discussão e troca de informações é para discutir sobre um episódio lamentável que ocorreu comigo depois do festival do Bloco Os Negões neste ano. Fui aclamado em praça pública como 2° colocado! Alguns dias depois do Festival, fui contatado por membros da direção do bloco para dizer que houve um erro ou alguma coisa parecida e que eu deveria ir lá devolver o troféu! Enquanto eu refletia o ocorrido com minha família e amigos, choveram ligações pedindo o troféu e dizendo que eu estava demorando ... Confesso que doeu!!! Durante minha trajetória, nunca havia sido exposto a uma violência desta natureza.

 

Tudo bem que Os Negões chegou para ser um bloco afro, tem a coisa do “carnaval Ouro Negro” etc. Não vou confundir a sua história desde a oficina no Forte com a história atual. Muito menos nivelar a outras organizações que construíram e vêm consolidando esse processo de luta dos blocos afro. Mas está lá como se fosse nosso, pelo menos é o que alega. No entanto, é uma língua que a gente não conhece e trabalha com a lógica de por muitas palavras, mais do que qualquer um possa lembrar, com o sentido de uma só, com um só sentido; é nesta poluição de palavras que me perdi e recebi o troféu que agora devo devolver às pressas para evitar o pior diante da pressão que tenho sofrido. Este documento é para que eu possa documentar a entrega – pois, é possível que depois apareça algum comentário afirmando o contrário. Tenho vários troféus em minha casa e me orgulho de todos.

 

Orgulho-me inclusive de festivais que não levei um troféu, mas vi colegas chegarem com trabalhos brilhantes a marcar um tempo. O festival do Olodum que Luciano Gomes levantou com FARAÓ, eu cheguei com NECRÓPOLE DE TEBAS – reggae dos faraós. Este foi um desses festivais que eu não perdi; mas que ganhei com a experiência, o talento e a capacidade de percepção do momento muito bem sintetizado por um companheiro.

 

Um episódio triste e até certo ponto desagradável, até porque, já estou me sentindo ameaçado e coagido. Sem generalizar, mas na medida em que o tempo vai passando, o compromisso de nós compositores, é tido pela maioria, como se fosse uma cuia na mão em uma esquina qualquer – e eu não sou o único a me sentir assim. Têm festivais que eu nem participo mais! Aliás, basta ver que muitos compositores dos anos 70, 80 e 90 hoje querem distância disso tudo.

 

O problema é que sabem machucar a alma da sensibilidade de um compositor e a depender do grau da lesão, muitos sequer conseguem voltar a expressar em poesia a beleza que capta do conflito de relações e do conjunto que fazem o momento e as perspectivas das nossas comunidades.

 

Com essa coisa de classe média, tem uma musicalidade, um ritmo batendo nos guetos e esta musicalidade está dando o tom das relações, está fazendo a cabeça e eu já cantei sobre isso:

 

NUM TRISTE LEGADO DA ESCRAVIDÃO / A NECESSIDADE FAZENDO A RAZÃO / DÓI VER EM CADA ESQUINA PARTIR UM IRMÃO / QUE TOMBOU SEM DIREITO A OPÇÃO...

 

Penso que estamos vivendo um momento de debate sobre nossa participação no carnaval de Salvador, e isto requer um fórum amplo para debatermos exaustivamente em dois ou três dias, pois estamos tomando de goleada e o pior: chancelando a exploração, a sangria e a pilhagem sobre os nossos que estão como vilões segurando cordas, catando latinhas, ou presos buscando abrir os braços nos achatamentos que ficam entre as cordas e os camarotes.

 

Não irá adiantar muito criar um camarote de pretos para brancos “democráticos” no circuito Barra / Ondina. Certa feita, uma pessoa estava em dúvida sobre sua identidade, alegando que seu avô era isso, aquilo e blá, blá blá... Alguém respondeu: “o branco sabe a todo o tempo quem você é e o momento exato de lembrar isso a você... e isso eles fazem muito bem, não se preocupe...”! 

 

Axé! Adailton Poesia

adailtonpoesia@yahoo.com.br 

 

Adailton Poesia, autor do texto, é cantor e compositor, tendo feito canções para boa parte dos blocos afro do Carnaval de Salvador. O espaço do Correio Nagô está franqueado para todos que, citados no textos, sintam necessidade de resposta.

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