Os pássaros voam porque têm asas. Mas sempre existem as gaiolas.

Vamos supor que as asas sejam a nossa natureza, como nascemos. As gaiolas são os padrões a qual nos acostumamos e aprendemos a amar.

Rejeitamos os espelhos, onde nos vemos como somos, para nos espelharmos em imagens e valores que nos negam e renegam a nossa história.

Abaixar o cabelo, por exemplo, é abaixar a crista. E é ainda mais que isso. Abaixar o cabelo é retirar da cabeça a nobreza da nossa raça. É renegar a corôa preciosa que nosso antepassado nos deixou como herança, e trocá-la por correntes e grades a nós oferecidas como jóias.

É um cárcere de portas abertas, ao contrário das senzalas. Pois estar fora dessas gaiolas é uma questão de escolha. Elas são feitas de fumaça esbranquiçada e podemos dissipá-las com um sopro de renovação de valores.

A necessidade de “se aceitar” deve sobrepor ao desejo de “aceitação”, ou permaneceremos encarceirados. Não tenho vergonha de dizer, pois é a mais pura verdade: quando eu era pequena puseram um pregador de roupas no meu nariz para ele ficar fino e arrebitado. Alguém mais passou por isso? Não sei se era um hábito comum, como o de passar pente quente no cabelo pra ele ficar lisinho. Depois de tanto tempo, foi a vez do meu filho ser vítima da mesma “chacota”, quando pessoas disseram “ele é lindo e fofo, mas o nariz…”. Acreditem, me recomendaram colocar um pregador de roupas no nariz dele. Claro que retruquei dizendo que jamais faria isso porque o nariz dele é perfeito como o meu.

Uma das características da pessoa negra que é mais criticada, ou até ridicularizada com piadinhas e apelidos, é o nariz mais largo. É muito fácil ceder à tentação de “corrigir” recorrendo a cirurgias. E existem outros meios de se descaracterizar (inclusive o uso de cremes clareadores) com a desculpa de ficar mais belo.

Eu não sou contra essas pessoas. Acho que elas apenas não sabem do seu valor.

A indústria de cosméticos não se interessa em desenvolver produtos para o público negro. Pois a beleza que é exaltada, desejada, imitada não é a nossa. Portanto, na teoria, isso não daria lucro. Também, na concepção deles, uma campanha publicitária divulgando seus produtos não tem êxito se os modelos são negros. A não ser que se pareçam com brancos. E quem possui poder aquisitivo para consumir esses produtos? Quem consome? Boa parte da economia que geramos vai parar no bolso deles. E o que recebemos em troca? DISCRIMINAÇÃO!

Bom, eu sei que já existem produtos voltados para o público negro, mas ainda são poucos. Ou, simplesmente, são produtos que incentivam a nossa descaracterização, como cremes alisantes e clareadores.

Nossa cor, nossas feições, nosso cabelo, nariz, boca… são perfeitos! O defeito está é na cabeça de quem acha feio. Não podemos deixar que o preconceito afete nossa autoestima. Pelo contrário. Passe a olhar-se no espelho com outros olhos e verás a beleza de ser uma mulher negra.

Somos negras. Afrodescendentes. Somo belas. Somos diferentes e iguais. E temos muitas razões para nos orgulharmos de quem somos e brigarmos por respeito e pelo fim da discriminação que, muitas vezes, começa dentro de nós.

Liberte-se e seja uma negra feliz!

http://belezasdekianda.wordpress.com

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