RJ: curso preparatório para a entrada de graduados de origem popular em mestrado e doutorado acadêmico

Na terça-feira (6), o Observatório de Favelas e a Redes de Desenvolvimento da Maré publicaram o edital de seleção para o projeto Novos Saberes, curso preparatório para a entrada de graduados de origem popular em mestrados e doutorados acadêmicos, nas áreas de ciências humanas. As inscrições vão da data de lançamento ao dia 12 de janeiro de 2012. Terão prioridade na seleção os candidatos de origem popular, que vivem ou já tenham vivido em favelas e periferias, se declarem negros ou indígenas, tenham estudado em escolas públicas na maior parte de sua formação e não possuam na geração anterior de suas famílias pessoas que obtiveram diploma universitário. O projeto Novos Saberes tem entre os seus principais objetivos qualificar intelectuais comprometidos com a busca por um ideal de cidade mais justo e, portanto, prontos a formular novas perguntas que abram caminho para avanços nos conhecimentos sobre questões sociais e urbanas; e contribuir para ampliar a multiplicidade dos perfis socioeconômicos e raciais de estudantes matriculados nos programas de pós-graduação stricto sensu de bem conceituadas universidades brasileiras.

Nos 10 meses de curso, cujas aulas acontecerão nas sedes do Observatório de Favelas e da Redes, ambas na Maré, serão ministrados conteúdos sobre metodologia de pesquisa, produção de texto acadêmico e língua estrangeira instrumental (inglês, francês e/ou espanhol) - conhecimentos geralmente exigidos como pré-requisitos para o acesso a programas de mestrado e doutorado.

No início do projeto será realizado um seminário temático reunindo acadêmicos, representantes da sociedade civil organizada, profissionais de educação, estudantes e demais interessados, para debater os desafios e perspectivas da educação e a entrada de estudantes oriundos de favelas e periferias urbanas no ainda restrito universo da pós-graduação brasileira. Na oportunidade, os alunos serão apresentados a uma rede de acadêmicos que os apoiará na produção de seus respectivos projetos de pesquisa.

As duas organizações responsáveis pelo curso também pretendem inaugurar uma biblioteca que, além de atender a demanda dos estudantes, deve se tornar uma referência no que diz respeito à bibliografia de temas sociais e urbanos.

CLIQUE AQUI PARA BAIXAR O EDITAL DE SELEÇÃO

Mais informações:

Comunicação institucional do Observatório de Favelas
Tel.: (21) 3105 0204 / (21) 3888 3230
E-mails: comunicacao@observatoriodefavelas.org.br , thiago@observatoriodefavelas.org.br ,raika@observatoriodefavelas.org.br

Comunicação institucional da Redes da Maré
Email: cecí lia@redesdamare.org.br Tel.: (21) 3105 5531 (falar com Cecília Olliveira)

Para entender mais...
O papel da universidade na produção de representações da favela e as principais dificuldades enfrentadas por estudantes de origem popular para entrar na pós-graduação

Sobretudo, na década de 1970, com o desenvolvimento dos programas de pós-graduação, a universidade brasileira assume a posição de ator de grande prestígio no que diz respeito à produção representações sobre as favelas, exercendo a partir de então significativo impacto no entendimento que se tinha destes locais.

Segundo a socióloga Lícia Valladares, em 1992, só o Rio de Janeiro tinha 10 programas de pós-graduação, nos quais as questões urbanas tinham espaço de destaque nas áreas de sociologia, antropologia, ciência política, história, geografia, planejamento urbano, medicina social, arquitetura e urbanismo, entre outros. Em 2001, de acordo com a mesma autora, eram 19 os programas.

O crescimento dos programas de pós-graduação que desenvolvem linhas de pesquisa concentradas nas questões sociais e urbanas, paralelo ao expressivo crescimento geral da oferta de vagas em programas de pós-graduaçãostricto sensu nos últimos 10 anos, é, entretanto, contrabalançado por dados não tão animadores. Basta olhar para as informações mais recentes sobre a quantidade de doutores por 100 mil habitantes no país. Estas dão conta de que, atualmente, em nosso país são 1,4 doutores a cada mil habitantes, enquanto, na Suíça, por exemplo, esse número é de 23, na Alemanha, 15,4 e, nos Estados Unidos, 8,4.

O quadro revela que o acesso a este campo de disputas em torno do conhecimento e de legitimação de representações sobre a cidade e as questões sociais que é a universidade permanece restrito a um pequeníssimo número de indivíduos que constituem, sem dúvida, uma elite intelectual.

As dificuldades de acesso a este restritíssimo grupo são maiores ainda para os graduados de origem popular e envolvem dimensões socioeconômicas, culturais e institucionais. Dentre os principais obstáculos ao acesso de graduados de origem popular à pós, pode-se, a princípio, destacar:

a) a necessidade de ampliação de seu capital social: o graduado precisa estar inserido em redes onde circulam informações que, uma vez acessadas, permitirão o traçado de estratégias para multiplicar as chances de aprovação nos processos seletivos;

b) a dificuldade de acesso ao capital cultural comum a grupos de classe média e alta, como o domínio de língua estrangeira (pré-requisito para ingresso na maioria dos mestrados e doutorados);

c) a dificuldade financeira para adquirir a bibliografia exigida nos editais dos processos seletivos;

d) Pouco domínio da linguagem acadêmica, já que a maioria destes estudantes sai da universidade sem necessariamente passar pela experiência da pesquisa.

Portanto, assim como os pré-vestibulares comunitários na década de 1990 têm contribuído de forma decisiva para entrada de estudantes de origem popular na universidade, hoje, o projeto Novos Saberes pretende criar condições para que o mesmo se repita nos mestrados e doutorados destas instituições de ensino.

Fonte: Observatório de Favelas

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Comentário de Maria França em 25 dezembro 2011 às 18:45

A Bahia deveria seguir  esse exemplo, cursos como esses são fundamentais para a comunidade preta e de baixo poder aquisitiva, valeu!

Comentário de Maria José dos Santos Matos em 23 dezembro 2011 às 20:49

Maravilhosa atitude dessas instituições, é uma pena que funciona no Rio de Janeiro

Acredito que esta possibilidade ainda está muito remota para a nossa região Nordestina-BA

Especialmente do Oeste Baiano.

Fico muito feliz por estas iniciativas, principalmente quando se trata da questão povos das regiões periféricas.

Maria José Matos.

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