Das lutas da vida às conquistas no tatame: Sarah Menezes vale ouro!

E, naquele mesmo bairro que outrora corríamos pelas ruas, só se escutam foguetes agora. Os pardais voam loucamente dos bambus que cobriram as nossas meninices.
Lá atrás, há 11 anos, na 4ª série, pouco imaginávamos que o judô, que havia chegado em nossa escolinha de bairro da periferia da cidade, iria trazer tantas alegrias ao nosso bairro, à nossa cidade e, depois, ao estado e, hoje, num feito histórico, ao nosso país.

Não contive a emoção, tampouco as lembranças que me levaram a recordar da primeira foto dela no jornal local, publicada após o seu primeiro campeonato nacional, no Sul do país, quando ainda era pequenina. Atravessei a praça-que separa a nossa casa - correndo e fui mostrar ao papai, que, apesar de orgulhoso, respondeu a mim, quando lhe disse que ela chegaria a um Olimpíada, que isso era muito mais difícil, que era o mundo inteiro lá, que não temos incentivo, que o nosso estado não tem estrutura pra mandar atletas assim, que nunca tivemos ninguém tão, tão... 

E, de fato, os governos pouco fizeram para que a nossa judoca ou qualquer outro indivíduo tivessem condições reais para ter êxito em qualquer lugar, nem local, muito menos mundialmente. Além disso, a nossa companheira também foi enormemente oprimida por ser mulher e atleta, fardo este que, certamente, lhe acompanhou (e ainda acompanha muitas outras mulheres lutadoras no esporte e na vida) por anos e que foram se silenciando na medida em que os jornais locais, nacionais e internacionais divulgavam o seu nome e os seus feitos. A verdade é que, passados tantos anos do início dessa trajetória, pude sentir a firmeza de quem batalhou muito pra chegar aí, nesse pódio londrino, historicamente ocupado por países hegemônicos.

A minha relação pessoal com Sarah não é mais a mesma de antes. Seguimos rumos diferentes, apesar de nos encontrarmos casualmente, inclusive dentro dos ônibus precários da cidade, nos quais a vi muitas vezes, na volta dos treinos, cochilando e, num descuido, batendo a cabeça na janela do ônibus. Sim, faz parte do cotidiano e trajetória da Sarah o uso diário desse transporte coletivo absurdamente precário e caro da capital piauiense.

Hoje, vejo que segui pelo caminho certo, o qual não se delineava pelo esporte, como sonhávamos à época. O menino franzino e que poucas habilidades tem com esportes também segue em outros espaços de luta, onde houver movimento: nas ruas, pela educação de qualidade e no combate à precarização institucionalizada na qual (sobre)vivemos. Já a nossa companheira, esta segue aguerridamente nas lutas nos tatames e, certamente, na vida. Não foi fácil chegar até aí. À juventude brasileira são negados direitos fundamentais, tal qual a educação, lazer e esporte. 

Pela beleza reluzente do ouro, essa conquista da nossa cajuína serve como um farol para apontar as contradições da realidade da juventude piauiense, que permanece pobre, proletarizada e sem condições objetivas para conseguir chegar sequer nas universidades públicas, tampouco onde Sarah, pelo seu esforço próprio e apoio de alguns poucos, conseguiu chegar. 

O grande equívoco da grande mídia é não divulgar (e obvimente não é de seu interesse fazê-lo) que, mesmo não tendo históricos de vitórias nos esportes e em outras lutas, o Piauí é, sim, referência em luta e combatividade. Basta lembrar das lutas no #contraOaumento e dos movimentos grevistas, nos quais a juventude e as mulheres protagonizaram bastante.

Dessa vez, a nossa cajuína ousou lutar e ousou vencer em outros espaços! E, se antes tínhamos apenas as vozes cansadas das trabalhadoras e trabalhadores do bairro Bela Vista, temos agora o nosso coro engrossado pela voz do país inteiro para gritar: é OURO, Sarah!
Você mostrou bem qual é o lugar das mulheres: é na luta!

Parabéns, companheira!

 (Foto: RedeRecord, R7)

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Comentário de Arygil Cerqueira em 29 julho 2012 às 22:21

FICO MUITO FELIZ EM VER UMA ATLETA COMO SARAH ,QUE SAI DE UMA REGIÃO ,NÃO CONSIDERADA GRANDE CENTRO ESTÁ AGORA NO CENTRO DAS ATENÇÕES.

A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR É ONDE ESTAVA A MÍDIA E OS MOVIMENTOS NEGROS E ORGÃOS RESPONSAVEIS PELA PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL ANTES DA SARAH CONQUISTAR ESTA IMPORTANTE  MEDALHA .

ONDE ESTÃO OS OLHARES DOS MOVIMENTOS NEGROS PARA OUTR@S ATLETAS NEGR@S QUE ESTÃO POR AI EM BUSCA DE REALIZAR SUAS CONQUISTAS.

SÃO PERGUNTAS QUE PAIRAM NO AR 

VIVA AS VARIAS  SARAHS EM TODOS OS CANTOS.

   

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