DENTRO DE TODA MULHER NEGRA EXISTE UMA GUERREIRA

Cotidiano interrompido...

Zona Leste de São Paulo, tarde de Natal e três amigas conversando na calçada da rua onde elas moram, muitas famílias reunidas, pessoas andando pelo bairro, quando de repente dois amigos sobrem a rua de moto, logo atrás deles 4 Rocans que os fizeram parar para uma abordagem policial. Até ai nada de estranho certo?  Pois vejam o que acontece a seguir...
Um dos Policiais Militares (PM) fez um dos meninos descer da moto e assim que ele pisou no chão deu uma rasteira para que ele caísse no chão, e logo em seguida começou a chutar o menino como verdadeiros marginais. Eu poderia ficar ficar quieta, entrar em casa e chamar a policia(?) por que isso é um crime, poderia fingir que nada estava acontecendo, mas isso é impossível para quem tem um pingo de sangue correndo nas veias, então como ajuda não tinha para quem pedir, eu acabei ficando lá, de braços cruzados, olhando a cena e esperando que eles tivessem o minimo de senso ao perceber que estavam olhando para o absurdo que eles estavam fazendo.
Fiquei olhando essa abordagem com nojo, com ódio, com um sentimento de impotência, por que eu que sou militante do movimento negro, moro na periferia de São Paulo, já ouvi muitas histórias sobre abuso de autoridade da PM, que não tem pudor nenhum em matar o meu povo (a juventude negra), e que claramente se acham no poder de fazer esse tipo de enquadro todos os dias, pois o Estado os dá esse aval. Mas a história não termina ai, por que eu por acaso estava com o celular na mão, conversando com um amigo pelo messenger, e isso fez toda diferença nessa situação. Os PMs me viram olhando e ficaram incomodados, e uns minutos depois aquele policial que no inicio do enquadro deu uma rasteira no menino veio subindo a rua na minha direção. Eu sabia que ele viria falar comigo, mas não imaginava que seria tão absurdo como foi a cena.
Ele quando chegou perto de mim e gritou perguntando o que estava fazendo, disse que estava olhando a abordagem, logo apos responder isso ele viu meu celular na mão e perguntou se estava filmando, disse que se ele quisesse ele poderia pegar o meu celular, tacar no chão, pisar em cima e quebrar por que ele PODE fazer isso. 
Eu fiquei assustada, mas em momento algum iria baixar a cabeça para um ser desses. Disse que fazia Direito e que não, ele não podia fazer isso, assim como não podia fazer o que eu estava vendo, ele disse que não valia de "porra nenhuma" fazer direito por que ele era formado, e que ele estava "limpando a rua" para nós. Fiquei abismada com essa resposta, disse que me impressionava um formado em Direito fazer e falar uma coisa dessas, ele novamente ameaçou quebrar meu celular, perguntou se eu duvidava que ele podia fazer isso, eu respondi que não duvidada (mesmo por que, um cara desses que deve matar por diversão, que abordava jovens daquele jeito, não teria pudor nenhum em quebrar um celular). Eu comentei que morava ali, ele voltou a dizer que estava limpando a rua e que os meninos eram lixo, e eu que estava com todo tipo de pensamento na cabeça, que lembrei de tantos casos de assassinatos de jovens por policiais, casos de abuso de autoridade, de jovens desaparecidos, de mulheres estupradas em desapropriações de posse, não aguentei aquela situação na minha frente, e disse que lixo era ele. Congelei quando percebi o que fiz, mas ele já estava se afastando, acho que não ouviu pra minha sorte, vai saber o que ele faria se tivesse ouvido. Depois disso eu virei para as minhas amigas, não valia a pena continuar aquilo, ele resmungou alguma coisa e voltou para perto dos outros PMs, que ao procurar os documentos dos meninos não acharam nada (olha só que surpresa), mas mesmo assim murcharam o pneu da moto deles antes de ir embora.
Passar por isso me fez refletir sobre algumas coisas. A primeira delas é que é URGENTE o debate em nossa sociedade sobre Segurança Pública, sobre a Desmilitarização da PM, por que não dá mais para deixar que ações como essas aconteçam. Os policiais militares tem um poder muito grande, são militares, preparados para guerras e não para lidar com civis. Onde já se viu alguém que deveria, em tese, proteger e segurar a sociedade ameaçar uma jovem que está na calçada de sua casa? Precisamos imediatamente de lutar por um novo modelo de sociedade, não dá mais para aguentar o genocídio da juventude negra que as estatísticas já comprovaram, que os policiais militares já não tem pudor de sequer negar, ao contrário, eles gritam na rua, pra quem quiser ouvir: "Estamos limpando a rua para vocês, eles são lixos".
Me desculpe, mas lixo são esses seres que utilizam do poder de fogo para intimidar a população, que acham que pode passar por cima de todos os direitos por que usa uma farda. A Policia Militar hoje em dia, na periferia, não é nada mais do que uma máquina de extermínio e de repressão financiada pelo Estado. Maquina está que deve ser abolida antes que acabe com a nossa sociedade como um todo. Se esse soldado se achou no poder de ameaçar uma jovem, mulher, negra, a claridade do dia no meio da rua, imagina o que ele não faz com um jovem negro, voltando do trabalho a noite sozinho na rua?
Nossa sociedade tem muitos problemas, não estou e acho que devemos generalizar achando que todos os Policiais Militares são como o desse caso, por que conheço muitos que são de bom caráter, que realmente acreditam que sua profissão é de proteger a sociedade, mas existem muitos que pensam como o soldado dessa história, e esses caras me assustam, me assustam por que eles tem arma de fogo, e eu moro na periferia, eles tem o poder do fogo, e os meus estão sendo assassinados. Mesmo os que estão no mundo do crime não merecem ser tratados assim, violência só gera mais violência e a estrutura do Estado é uma das principais causas para que o crime aconteça, o Estado sobrevive disto, lembro do livro Criminologia Radical do Juarez Cirino dos Santos e nunca esse livro fez tanto sentido na minha vida. É o Estado que cria o criminoso e cria condições para que o crime seja reproduzido e perpetuado.
O que mais me deixa tranquila nessa história, é que esse policial nunca iria imaginar que uma jovem, mulher, negra que mora na periferia da Zona Leste de São Paulo iria responde-lo com firmeza e educação, e com argumentos pois estuda Direito, e sabe que abuso de autoridade é crime, sabe que um policial não é Deus que pode tudo. Uma jovem negra e militante, que além das leis, sabe que a policia militar mata sem pensar sem povo e que nunca iria baixar a cabeça para um capanga arrogante do Estado. 
Precisamos de mais jovens formados, mais jovens conscientes de seus direitos, mais jovens negros formados e informados para que esse tipo de abuso não seja tolerado, para que o debate sobre Desmilitarização da PM seja cada vez mais posto em pauta, para que nosso governo tenha uma politica de Segurança Pública de verdade, e não essa politica de extermínio. Onde está a Democracia desse nosso Estado Democrático de Direito?
 O genocídio da juventude negra  deve ser denunciado, o abuso de autoridade dos policiais não devem mais ser tolerados, se o Estado se "alimenta" e sobrevive dessa violência, nós vamos acabar com o Estado.
Tamires Sampaio

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