Desrespeito à mulher NÃO é irreverência e muito menos homenagem!

Animação, alegria e irreverência. Essas deveriam ser as principais características de um dos mais tradicionais blocos de travestidos do Carnaval de Salvador. Criado em 1965, ‘As Muquiranas’ é o primeiro bloco de travestidos na folia baiana. Formado apenas por homens, o grupo teria tudo para se destacar por sua criatividade e beleza das fantasias, se não fosse um dos acessórios usados por estes como complemento de suas fantasias,que são as  “pistolas de águas” e “ Pênis enormes”, que  na “ desculpa” de ser um instrumento de diversão, são usadas como forma de coesão e opressão  a  mulheres no circuito momesco.

“As pistolas e seus “Pênis” na maioria das vezes feito de pano, vibradores, dentre outros” são usadas por homens para abordar mulheres e no caso de reclamação  ou demonstração de não satisfação por estar sendo molhada ou abordada com estes  brinquedos, sofrem retaliação dos “travestidos” que acompanhados ou sozinhos, sem levar em conta qualquer relação de proximidade com estas, sentem- se no direito de deixá-las molhadas nos seios ou virilha sem o menor respeito a momentos ou especificidades vividas por estas. A naturalização desta ação permite ainda que estes se sintam no direito de coletivamente passar estes vibradores e objetos similares que remote a um pênis aonde venham considerar “ divertido“ sob olhares encorajadores de plateias diversas e se  agrava quando estes percebem que as mesmas estão em seus ciclos menstruais, causando a  ansiedade de constranger e evidenciar esta situação. Essa necessidade de expor o corpo feminino como forma de ridicularizar, passa despercebida aos olhos e risos dos diversos grupos que compõem o carnaval de Salvador.

Essas violências simbólicas, nunca foi problematizada pelos órgãos públicos baianos e vem sendo na maior parte das vezes encorajados pela  não atenção da mídia, e  legitimada por artistas tão queridos como Marcio Victor,  que este ano em rede nacional saiu em defesa dos mesmo argumentando  que “ Olha eu acho uma babaquice da arquibancada não deixar As Muquiranas se divertirem. Minha filha, você vem para o carnaval e está reclamando de água. A água é de Deus. Deixa As Muquiranas jogar água”. Quando servidores e telespectadores revidaram as brincadeiras desrespeitosas e  exagerada destes.

 

Não escrevo este texto com o objetivo de coibir a saída  do bloco, mas na expectativa de que com o fim das pistolas ( não aceitamos outro TAC), estes consigam de fato ser um bloco que atenda aos objetivos de quando  criado, mesmo nascendo com o nome errôneo de  “ Nega Maluca”. Não é possível que um bloco que todos os anos sai na avenida lembrando nomes de mulheres expressivas, a exemplo de Cleópatra, As queixas e dentre outras, continue a contribuir para o fortalecimento do machismo diário e que objetiva o corpo feminino no carnaval de maneira não consensuada. Não podemos continuar permitindo que na sociedade em que vivemos, da maneira que vivemos, os homens ainda sejam autorizados e estimulados a pensar e praticar o uso do corpo das mulheres. E pior ainda sob a legitimação de nosso Prefeito com risos o que pode replicar em outros blocos que se prepara para chegar ao mesmo patamar. Não podemos permitir que esta forma agressiva seja entendida como homenagem ou brincadeira e continue a nos constranger no carnaval ou em outros espaços sob a inércia dos poderes públicos e principalmente sem um amparo legal.

 

O fato da violência contra as mulheres persistir neste bloco e ser vista como uma “brincadeira” mostra o quanto o machismo está profundamente inserido em nosso cotidiano. É como se as mulheres se constituíssem em puro objeto, uma coisa formada de carne, sem sentimentos, vontades e poder. As mulheres não são parte do kit muquirana, onde comprando um abadá leva junto o direito de desrespeitar qualquer individuo do sexo feminino, Não pode ser tolerada a frase: São “só mulheres  e  o bloco está só brincando! Queremos e lutamos por respeito e liberdade de brincas no carnaval e em qualquer lugar que desejamos.

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Luciane Reis, Publicitária, membro do Instituto Mídia Étnica, compõe a equipe de coordenação do Plano Juventude Viva do Governo Federal.

Agradecimentos á Larissa Nascimento, Roberta Sampaio e Leila Carla pelas preciosas contribuições e reflexões.

O que já saiu de reclamação contra estes.

http://www.bocaonews.com.br/noticias/carnav HYPERLINK "http://www.b...

https://www.facebook.com/correio.nago/posts/2498330192395

 

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Comentário de Eduardo Sergio Santiago em 27 abril 2014 às 12:46

Luciane, estou contigo! Quando esse bloco foi criado nos anos 60 - era uma forma escrachada de manifestação de poder; as discussões eram outras no próprio carnaval. Visto hoje, o bloco é algo super atrasado que se arrasta pelas ruas, tendo como fantasia de carnaval: a resistência aos avanços e conquistas que a mulher vem acumulando ao longo dos tempos - por mais tímidas que essas conquistas possam ser. Para os tempos e entendimentos que a humanidade tem conquistado, não são brincadeiras! Assim como, hoje deixou de ser comum presentear uma criança com um cinturão contendo dois coldres e dois revolveres... Essas armas de água que fazem uso no carnaval, em grupos, violentam e machucam quem quer que seja! Tem algo que precisa entrar nas reflexões sobre essa entidade no carnaval de Salvador, que é o grau de influência ou colaboração que um número significativo de policiais, na condição de associados levam a este organismo, que aproveita o carnaval para disseminar toda a forma de preconceito e discriminação que se pode imaginar. Fazem uso de um monstruoso aparato repressivo a alteridade de uma mulher - na verdade, muitos elementos precisam ser melhor refletidos ao olhar para esse bloco, principalmente, nos cartazes, faixas e alegorias espontâneas que servem como ferramentas de difusão das violências que são as imposições dissimuladas na condição de brincadeiras, fundamentalmente racistas e machistas. Violências que tem se reproduzido de tal modo no conjunto das demais relações sociais, que termina por surgir como algo natural e inevitável - uma simples e "ingênua brincadeira". Muito bom seu texto! Boa reflexão...

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