DEVE O POVO TRADICIONAL DE TERREIRO CRIAR UM PARTIDO POLÍTICO?

Meus mais velhos e mais novos Matinjaló.

Que Vòdún Gbadé abençôe a todos com sua justiça.

Ter um partido político em curto espaço de tempo não é um processo fácil, implica acima de tudo ter adesão de um grupo de governadores, senadores, deputados federais, estaduais e vereadores já eleitos que queiram encampar a proposta.

Normalmente nesse país os partidos se formam no entorno de um interesse político partidário de um grupo já estabelecido em um ou mais partidos.

Há pouco vimos isso acontecer.

Gilberto Cassab conseguiu reunir descontentes do DEM(oníaco) e de outros partidos e com bastante fuzuê, em dois tempos, criou da noite para o dia um partido forte.

A história recente do país tem mostrado como tem sido torturante o processo de criação de um novo partido para quem não tem o poder da máquina estatal aliado aos interesses políticos financeiros e parlamentares e executivos profissionais.

Para se criar um partido são necessárias milhares de assinaturas. Um processo longo e doloroso.

Historicamente temos dois partidos que abriram espaços para o Povo Tradicional de Terreiro: PT e PC do B. Apenas para citar dois exemplos reconheçamos as contribuições de Jorge Amado PC do B na década de 40 e Paulo Pain PT na atualidade.

Aqui no Amazonas, nas 2 últimas eleições, fui procurado por esses dois partidos que insistiram em minha candidatura representando o seguimento negro afro-religioso. Declinei os pedidos.

Senti-me muito honrado quando o então deputado Eron Bezerra, Presidente Regional do PC do B, insistiu comigo para que me candidatasse a deputado estadual pelo  partido e empunhar a bandeira de luta do seguimento.

Não tenho vocação para isso, muito menos estômago. Não sei obedecer às ordens partidárias que vão de encontro com as minhas convicções e consciência crítica. Sinto que já faço política social militando no dia a dia, ocupando os espaços dentro do parlamento quando se trata de promoção da igualdade racial, de combate a intolerância religiosa e a homofobia.

Não fui candidato, mas subi nos palanques do PC do B e pedi votos para os que se propuseram a empunhar nossas bandeiras de luta, ajudamos eleger a senadora Vanessa Grazziottin do PC do B e com o nosso voto reconduzimos a vereadora Lúcia Antony, também do PC do B, a Câmara Municipal de Manaus, depois de dois anos de muita batalha judicial.

No que pese minha aversão pelo modus operandi dos partidos existentes, tenho plena consciência de que sem uma representatividade efetiva nas diversas instâncias dos parlamentos municipais, estaduais, câmara federal e senado, não nos será possível em curto espaço de tempo, usufruir dos benefícios e vantagens que católicos e evangélicos vem usufruindo há anos.

Exemplo: a Assembleia de Deus no Amazonas tem um deputado federal, um deputado estadual, um vereador e um senador, Eduardo Braga do PMDB, que apesar de não ser convertido pactuou demoniacamente com esse grupo desde que era governador do estado. Resultado disso é que só no ano de 2009 essa "igreja" faturou do governo do Amazonas a módica importância de R$10.000.000,00 (DEZ MILHÕES DE REAIS). Desse valor oito milhões foram "gastos" dentro dos conformes da Lei e dois milhões deveriam que ser devolvidos pelo simples fato dos santos pastores não terem conseguido provar ao Tribunal de Contas do Estado o gasto honesto e efetivo dessa soma; se devolveram ou não ninguém sabe não se tocou mais no assunto.

Em nível federal o mesmo aconteceu em valores bem maiores, o Tribunal de Contas da União já se manifestou, a Santa, mais que Santa Igreja Assembleia de Deus terá que dar contas de ambulâncias entre outras coisas que foram parar nas mãos "puras" de pastores e templos da Assembleia de Deus e não nas prefeituras de algumas cidades "currais" eleitorais do estado do Amazonas.

Há 3 anos tentam caçar o mandato do deputado federal pastor Silas Câmara sem que a coisa avance. Com a força $$$$$$$$ da Assembleia de Deus ele conseguiu se reeleger e eleger sua esposa Antônia Câmara, como deputada federal pelo Acre. Eleição marcada por fraude, objeto de investigação, de suspeição e vai ser mais um caso que vai se arrastar por anos, ela se aposenta e morre deputada federal sem que se tenha um resultado do processo.

Tudo porque a Assembleia de Deus garantiu ao Senador Eduardo Braga, ao Governador Omar Aziz, a Presidente Dilma Rousseff cerca de 250 mil votos. Número de fiéis que compareceram em massa ao Sambódromo de Manaus em celebração-comício daquela igreja no período da campanha de 2010, a exemplo do que já havia sido feito em 2008.

Com esses exemplos acima quereria refletir com os irmãos e irmãs que o processo de criação de um partido político tanto pode ser uma coisa fácil, como pode ser extremamente difícil. Tudo vai depender do intere$$e dos que estão no poder e da capacidade de mobilização do Povo Tradicional de Terreiro.

Particularmente, após ter viajado por quase todo esse Brasil, participando de eventos regionais e nacionais, de ter dialogado com grandes líderes da religiosidade afro-ameríndia, tenho a nítida certeza de que nosso Povo Tradicional de Terreiro ainda não tem maturidade política para encampar a criação de um partido.

Sequer sabemos quantos somos, onde estamos, como vivemos etc e tal.

Penso que temos de respeitar o processo evolutivo dos grupos sociais, a criação, a maturação e a efetivação da consciência política das milhares comunidades que formam o Povo Tradicional de Terreiro do Brasil.

Vejamos nossas mobilizações. Quantas pessoas conseguimos colocar nas ruas vestidas de branco dizendo "sou de terreiro"?

Há 7 anos promovemos atividades aqui em Manaus e o máximo que conseguimos levar no máximo as ruas foram 4 mil pessoas de uma só vez, entre Povo de Terreiro, Movimentos de Negritude, Movimentos Sociais e curiosos de plantão nas Marchas Zumbi no 20 de novembro. Isso numa cidade com cerca de dois milhões de habitantes, com uma estimativa de 4 mil pontos de celebrações litúrgicas afro-ameríndia (da mesinha de cura ao grande terreiro) feita pela Universidade Federal do Amazonas em 2005.

Não é diferente no Pará, nem no Rio Grande do Sul e em muitos estados.

As exceções ficam por conta da Bahia e do Rio de Janeiro, mesmo assim o povo de àsé da Bahia se mobiliza muito mais para a lavagem do Bonfim, para a festa de Yemanjá e para os Afoxés do que para uma caminhada de combate a intolerância religiosa. Em Salvador saem dezenas de marchas e caminhadas, mas é quase que impossível convencer as casas que as promovem a se juntarem para fazer uma única caminhada, forte e coesa, que demonstrem a força da coesão política do Povo Tradicional de Terreiro.

Prevalece na capital do àsé o orgulho, o narcisismo, o individualismo de grupos religiosos em detrimento do interesse coletivo.

Se compararmos o número de terreiros que todos os anos descem de São Paulo para Santos na festa de Yemanjá, teríamos número de votos suficientes para eleger deputado federal e senador por aquele estado.

Quantos pais de Santo foram candidatos nas últimas eleições em São Paulo? Quantos se elegeram?

Temos número suficiente de eleitores nos estados? Temos.

Temos força de massa? Temos mas não sabemos usa-la, não conseguimos juntar a massa.

Falta-nos maturidade política, formação de grupos, politização de nossos irmãos que possuem nas mãos o poder infinito do voto e são chefes de terreiros.

Se convidarmos nossos irmãos para uma churrascada, uma feijoada com grades e grades de cerveja o comparecimento será sempre em massa.

Convidemos essas mesmas pessoas para um seminário, para uma formação a resposta é mínima.

Uma considerável maioria adora o velho modelo romano de pão e circo.

Lamento afirmar isso, mas essa é a realidade.

No meu entender a estratégia mais adequada para o momento não é a criação imediata de um partido, o mais prudente é a ocupação dos espaços que nos são oferecidos pelos partidos que já existem e que seguem diretrizes que se coadunam com nosso modo de ser e pensar. Relembrando os pioneiros nessa interlocução o PT e o PC do B.

No momento em que consigamos eleger parlamentares pelo fato de serem e defenderem o Povo Tradicional de Terreiro, aí sim poderemos considerar que o nosso povo já despertou e se organizou para ter representatividade, para ter seu próprio partido.

Enquanto nossos candidatos continuarem se colocando parcialmente como sendo de terreiro para não desagradar os evangélicos e assim perder votos, enquanto aqueles que abertamente se declaram de terreiro não forem eleitos por falta de voto dos irmãos de àsé, nós ainda não estaremos maduros o suficiente para ter um partido, pois não somos capazes sequer de eleger um deputado, um senador legitimamente e assumidamente de Terreiro.

Finalizando.

Nessa última campanha vi uma Yá, militante, mulher de fé, mulher de Terreiro, usar em seu material de campanha uma foto com uma vasta e bem penteada cabeleira que a identificava apenas como uma negra elegante de sorriso simpático. Quando questionada quanto o real motivo pelo qual não se apresentava na foto vestida de mãe de santo ela respondia: "estou seguindo orientação do marqueteiro, não devo perder os votos dos que não são de àsé". Resultado: NÃO SE ELEGEU.

Da mesma forma também o Pai Guimarães em São Paulo, que teve uma campanha assumidamente como sendo de àsé, NÃO SE ELEGEU por falta de votos do nosso povo.

Vimos acontecer aqui em Manaus o cúmulo do absurdo.

Uma mãe de santo, minha amiga, pregou no topo de sua residência e terreiro uma grande placa com a foto e o pedido de voto para o bispo Marcel Alexandre da Igreja da Restauração. Esse sujeito que nos ataca sistematicamente, pois é vereador na Câmara Municipal de Manaus, cabeça da bancada evangélica homofóbica e intolerante; ela fez isso porque sua filha que é evangélica e deve favores pessoais ao pastor lhe pediu esse ato de fé. Senti ânsia de vômito ao ver aquela cena. De nada valeram minhas ponderações, a eleição terminou e a placa ainda hoje está lá. Detalhe o bispo vereador Marcel Alexandre é negro. Destaco mais uma vez: homofóbico e intolerante religioso assumido.

Esse é o perfil de grande parte do nosso Povo Tradicional de Terreiro, que ainda troca voto por favores pessoais, ranchos, dentaduras, sacos de cimento etc., ainda que isso resulte no fortalecimento de nossos inimigos, ainda que isso fortaleça aqueles que nos atacam todos os dias.

É preciso trabalhar a base, sem isso nunca chegaremos a nada.

É nessa hora que precisamos fazer com que a SEPPIR se sensibilize para o processo de formação política, de sensibilização e criação de consciência crítica do Povo Tradicional de Terreiro. Processo semelhante ao que foi feito nas décadas de 70 e 80 com os militantes do PT. Sem recursos financeiros jamais teremos sucesso.

Acredito nisso, acredito no futuro.

Viverei para ver isso acontecer e concretizar? Sinceramente não sei.

Quem sabe nossos netos e bisnetos vejam o resultado desse trabalho de formiguinha que nesse e em outros espaços democráticos estamos fazendo.

Que Vòdún Gbadé nos livre de perdermos a esperança.

Um forte abraço. Alukwe.

Vòdunsí Re Rohsovi Alberto Jorge Silva

Coordenador Geral da CARMA

Coordenação Amazônica da Religião de Matriz Africana e Ameríndia

 

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Comentário de adinelson de souza filho em 30 maio 2011 às 13:27
Kí Olorun só wa moju ó
Comentário de adinelson de souza filho em 30 maio 2011 às 13:26
Prezadíssimo Vodunsi Alberto,

São necessárias, verdadeiras e pertinenetes estas colocações sobre a politização e posicionamento do povo de santo no Brasil. O povo de santo e o povo negro não tem força politica em plenário no Brasil - nem nas câmaras municipais, nem nas assembléias legislativas estaduais e na federal, nem no senado, apesar dos anos de luta do MNU e do povo de santo por respeito e reconhecimento. Os blocos evangélicos são os maiores do país no parlamento federal e em algumas cidades e estados, atuam na contramão dos Direitos Humanos, Dos direitos individuais e coletivos da CF de 1988 e de tudo que se relaciona à respeito e a identidades culturais e diversidade e nada acontece com eles porque estão blindados por esta barreira instituída.

O povo negro e do axé não elegem canditados que militam pela causa nos partidos que abriram porta para nós - PT e PC do B -, nem elege os canditados que militam em prol das questões do negro de um modo geral, a exemplo de Salvador, que teve Samuel Vida como candidato a vereador com plataforma em defesa do povo negro e de santo e não passou nem perto de se eleger.

Os evangélicos e seus pastores parlamentares atuam institucionalmente na mesma frente que atuou a igreja católica durante a colônia e os racistas e eugenistas durante o século XIX e início do XX, com discurso e prática racista, sexista, homofóbica e discriminatória quando caçam fiéis e dinheiro. Destroem com sua pregação a possibilidade do negro reconhecer sua história e identidade cultural, de se reconhecer como pessoa, de se olhar no espelho e se ver como gente, como ser humano e nada lhes acontece, mesmo que eles invadam e depredem o patrimônio alheio. Mas tudo isso só tem força porque as manifestações do povo de santo terminam sendo isoladas, são manifestações de quem sofre a ação e não do conjunto. A Federação Nacional do Culto Afro-Brasileiro é invisível à estas questões nunca se posiciona, nemmesmo para dirimir problemas entre o próprio povo de santo. Funciona como empresa para seus membros.

No tempo que Mãe Stella se posicionou contra o sincretismo e a igreja romana o coro foi grande, mas na ação ela ficou praticamente sozinha, sendo seguida há pouco tempo por sacerdotes mais novos. Nos terreiros mais velhos da Bahia, quem tem força são os candidatos dos partidos tradicionais oligárquicos. Nós jovens nos dividimos entre os candidatos mais novos que se propõem a ouvir o povão.

Se devemos criar um novo partido, não tenho certeza, mas que devemos nos unir de verdade e sair da omissão frente a questões que atingem à todos nós, isso com certeza devemos. Devemos ficar atentos a que candidatos estamos elegendo, devemos. Precisamos fazer os tambores soarem em conjunto frente os ataques que recebemos todos os dias, devemos.

Precisamos fazer candidatos, mesmo que sejam apenas nos partidos que nos abriram as portas, pra fazer frente aos socialistas cristãos, aos malafaios, bolson'arianos' e (in)felicianos entre outros. Lembrar das leis e de que não precisamos de tolerância de ninguém, porque temos direito ao respeito como devemos respeitar a todos. Lembrar que não estamos a cata de adeptos para os nossos terreiros, mas que estes lugares foram e são salvaguarda de culturas que desapareceram até na África e que a identidade dos povos negros que foram escravizados no Brasil é que é a raiz deste povo e não a do povo judeu, que foi escravizado no Egito há mais de 3000 a.C. e de maneira bem difente da que ocorreu durante 300 anos por aqui.

Forte abraço negro e de axé a todos.

Kí Olorun sá wa moju ó


Adinelson Filho

Translation:

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