Direito de ir e vir para quem, e com quem, "cara pálida"?

Por Luciane Reis

Ao pesquisar sobre os rolezinhos para uma clipagem do trabalho, só chego a uma conclusão angustiante: é visível a falta de direito à cidade e a diversão para a maior parte da população e em especial jovem. Não tem como, ao ver as matérias que saíram e as linhas editoriais não lembrar as palestras do professor Hélio Santos, ainda nos tempos do POMPA, projeto de formação de lideranças do Instituto Steve Biko no qual fiz parte. Lembro que em suas palestras, dentre as diversas reflexões que fazíamos sobre como o capitalismo aparecia para nós homens e mulheres negras, ele nos lembrava das opressões diárias do estado à população que morava nos morros e periferias do Brasil. Professor Hélio, sempre nos dizia que por estar nos morros, favelas e palafitas sem direito a serviços básico, um dia o “asfalto” teria contato com os ”sem nada a perder” ou seja, por pessoas que nunca souberam na prática o que é cidadania. Sempre que questionado, ele nos lembrava que ao já ter perdido suas cidadanias, familiares e direitos, reivindicar de maneira mais veemente era o mínimo. Ninguém fica imune a opressões e humilhação por muito tempo, nos lembrava.

 

Vendo as matérias pros e contra que falam sobre os rolezinhos, é visível a não existência de qualquer situação ou ocorrência que justifique a retirada dos jovens negros brasileiros, moradores de periferia o direito de ir e vir. Estes jovens estão cansados de ter serviços públicos chegando aos seus lugares de moradia somente via repressão policial, que os relega a indivíduos sem nenhum direito e que muitas vezes os abordam nas portas de casa e os transformam em bandido na certeza da impunidade, já vi muito meus irmãos perderem sangue ao ser agredidos por o policial achar que não tínhamos dinheiro para comprar uma sandália da marca Kenner, logo, era roubado. Não adiantava minha mãe mostrar a nota fiscal, afinal, na legitimidade da farda já havia decido a sentença. Era preciso praticamente se ajoelhar aos pés para que meus irmãos não fossem deslocados da porta de casa para uma delegacia.

 

Precisamos entender que os rolezinhos nada mais são que o desejo de obter um local com boa infra-estrutura para se divertirem e em segurança, o que infelizmente não possuem em seus locais de origem e que na ausência de serviços diversos deixam a mensagem de que um bairro com infra estrutura e local de lazer não é um direito deles como diz a constituição brasileira. É vergonhoso ver a justiça rasgar os direitos dos cidadãos em seu parágrafo mais sagrado da declaração de direitos humanos que diz “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. Que dignidade e direitos são estes?

 

A sociedade brasileira por mais que tenha mostrado sua indignação, a verdade é que nenhuma solução foi dada para barrar os operadores do direito que violam este ou menos ainda os shoppings, que vem negando o direito de acesso via agressão sem nenhum respaldo legal,  ao contrário, viola a constituição brasileira com o apoio de forças policiais que agem na certeza da impunidade.


Não precisamos ser analistas de comportamento para perceber que estes garotos e garotas que marcam esses encontros querem, acima de tudo, reafirmar sua existência. Querem gritar por um pouco de atenção. Querem que o estado lembre que eles também são jovens com conflitos e desejos e que boa parte destes são jovens negros e pobres da periferia que nascem e morrem diariamente sem que o Estado esboce um bocejo de preocupação ou que o restante da sociedade fique sabendo e tome partido. É vergonhoso que no único  momento em que estes se pronunciam, o mecanismo de escuta da sociedade é a repressão com uma força desproporcional. A forma como a sociedade reage trás a tona o debate: para quem de fato funciona a constituição brasileira e a declaração dos direitos humanos? Quem de fato pode vim a se considerado humano?

É vergonhoso ver comunicadores de veículos diversos ajudando a  espalhar o pânico e o terror, construindo discursos que  segregam ainda mais as “classes violentas'' do restante dos “cidadãos de bem''. Será que os veículos brasileiros não percebem o que estão fazendo? Qual está sendo a postura da sociedade que viu no rolezinho o novo mote de ser “revolucionário” ? Os jovens de periferia não precisam de novos modelos de “rolezinhos” ou de artigos que queiram falar pelos mesmos, eles precisam de aliados que tenha a coragem de enfrentar a justiça brasileira como o prefeito Haddad fez em São Paulo e proíba a sociedade de legitimar seu racismo com o aval dos serviços públicos. Estes jovens precisam que nós apontemos boicote a estes estabelecimento se negando a frequentá-los. Precisamos seguir o exemplo da Agencia Solano Trindade e entender que o nosso poder de consumo precisa circular em nossas comunidade ou como diz os afro americanos: “the black money needs to circulate among blacks”.  Traduzindo: “o dinheiro negro precisa circular entre os negros”. Precisamos entender que ainda estamos fora de patamares mínimos de dignidade mesmo com poder de compra. Ser conhecida ou chamada de “nova classe média'', e ser pretos e pretas não nos dá ainda neste estado o titulo de cidadão com plenos direitos. Ainda somos vistos como uma gama de ignorantes, mesmo usando um tênis, um boné ou um iPhone.

 

Neste país nossa inclusão precisa ocorrer via a garantia de serviços de educação, saúde, cultura e lazer de qualidade em nossas comunidades com as consequências positivas que isso traz e que nunca experimentamos. É inadmissível que nos dias de hoje supliquemos aos nossos algozes que aceitem nosso dinheiro. As repressões sofridas por nossos jovens historicamente e agora com a repressão de seu acesso ao mesmo só deixa claro o que sempre denunciamos, jovens negros  não valem pelo que são, mas pelo que simbolizam no imaginário social. 

 

Para quem assistiu o filme de Malcolm X,  tem um episodio que sempre me emociona, que é quando Malcolm é  baleado e precisa ser atendido por médicos brancos enquanto pretos fazem vigília em frente ao hospital para garantir a sua vida. Ao chegar a notícia esperada de que estava fora de perigo, um policial diz que “ele precisa ser vigiado, pois oferece perigo”, isto são os rolezinhos na visão da sociedade branca brasileira, um monte de jovem preto no mesmo espaço só pode representar perigo.

 

Após 10 anos de políticas de ações afirmativas é visível que somos considerados como uma arma letal e ameaçadora para a elite brasileira que mesmo nos matando em massa seja física ou ideologicamente não admite nossos pequenos avanços. Os rolezinhos ainda que sob a égide do consumo, mostra a força de uma periferia  que não admite mais ser alijado de direitos básicos como ir e vir. Talvez  estes jovens nem tenham pensado nisto tudo ao marcar estes encontros, mas com certeza os meios de opressão que os vem sufocando acredita nestes fatores. O governo do presidente Lula e nos dias de hoje da Presidenta Dilma, nos permite ocupar espaços hoje sempre entendido como de mãos brancas, não mais colhemos algodão somente e isto vem apavorando uma parte significativa da sociedade.

 

Precisamos aproveitar este momento, onde a elite brasileira deixa bem claro que não nos quer nos espaços considerado como delas mesmo com poder de consumo, o que joga por terra o velho argumento de que não ocupamos os espaços por falta de capital financeiro. Precisamos perceber que é o nosso momento mais do que nunca de adquirir acesso a capital que nos permita construir empresas que são convenientes a nossa identidade e auto estima, que possamos nos ver e que impulsione onde vivemos.

 

A repressão aos rolezinhos nada mais é do que um pedido para saímos de seus caminhos e voltemos a pensar como a 10 anos atrás. Não queremos continuar como uma comunidade isolada que só circula suas mazelas entre si. O estado brasileiro e a geração de todos que nos impedem de ir aos shoppings tem sua porcentagem de culpa, afinal não chegaram na qualidade de vida sem que a herança de seus antepassados garantissem. Nós somos parte do mundo e temos que ser respeitados e tratados como tal afinal em uma sociedade capitalista, produtores, distribuidores e vendedores têm poder sobre os consumidores, e nos homens e mulheres negr@s brasileiras estamos exatamente onde estávamos em 1888. Naquele tempo, 98 por cento das pessoas negras no Brasil foram escravizados e tivemos a metade de um por cento da riqueza desta nação. Quase 500 anos mais tarde, quando supostamente somos livres, ainda temos metade de um por cento da riqueza desta nação e ainda somos jogados ao fundo e aos pontos de  falta de prestigio dentro das instituições.

Luciane Reis, Publicitária.

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Comentário de Luciane Reis em 26 janeiro 2014 às 8:26

Dilia, acho central seu comentário, mas sabemos que o senso comum só nos ver quanto marginais. Ainda somos em seus imaginários fator de perigo.

Comentário de Luciane Reis em 26 janeiro 2014 às 8:25

Nilton,  a falta de cuidado na garantia de nossos direitos é histórico e agora vem com uma força que se não estivermos preparados para o enfrentamento seremos engolidos.

Comentário de Luciane Reis em 26 janeiro 2014 às 8:24

Altamira, a grande questão é que hoje os meninos saem do primeiro andar e querem também reivindicar o direito aos demais!

Comentário de Luciane Reis em 26 janeiro 2014 às 8:23

Com certeza Hamilton, esta é mais uma de nossas lutas que não queremos mais adiar.

Comentário de hamilton gomes da silveira em 23 janeiro 2014 às 16:39

meio século e um pouquinho que tenho de vida,nascido em uma comunidade (favela mesmo) do Rio de Janeiro,e militando em quase todos os movimentos sociais ,quero dizer que o preconceito e a exclusão sempre estiveram presentes ,as vz subliminarmente ,e quando diretamente fazíamos de cegos para sobreviver,enfim ,acho que a história hj é outra,A elite está reagindo a um avanço do povo preto,pobre,ao surgimento de uma classe de consumidores que segundo eles (a elite) estão invadindo seus espaços demarcados pela herança oligárquica,Universidades,cruzeiros,aeroportos ,cartões de créditos,para a elite isso é um absurdo,impensável anos atras (12 anos).E culpam até o governo por isso,como já não é política de governo e sim de estado esse desenvolvimento social,eles partiram pra briga mesmo,estão mostrando a cara,intimidando enfim ,começou uma guerra declarada .Se vamos nos fazer de cego novamente ? não sei ,mas o rolezinho é apenas o início de alguma coisa que não saberemos como vai terminar ,ou não estaremos preparados para tal!

Comentário de Altamira Simoes em 23 janeiro 2014 às 9:58

Tenho refletido sobre a visibilidade negativa da presença da juventude negra nesse espaços elitizados.  Sempre fomos figuras não quista nos espaços de shopping, clubes sociais, cinemas ou teatros, aeroportos, hotéis alguns desses não nos permitiam nem como funcionários. Atualmente com o aumento de escolaridade da população negra não tem mais como nos negar o trabalho mesmo que seja na forma de sub empregos. O que assusta nas atitudes da elite branca racista é a forma como criminalizam a presença desses jovens em momentos de lazer, como eles transformam atitudes simples em atos de terror. E suas atitudes são tão perversas, como perversa é o ato e as ações racista que até alguns negros propagam seus apoios   a não presença dos "rolezinhos" nos shoppings. Negros publicitando que lugar de negro é no trabalho, no centro de doações de sangue, varrendo ruas ou capinando; é como se eles mesmos não se vissem. com direitos a esses espaços ou pior ao um momento de lazer puro e simples. Seu texto nos abre mais os olhos e as ideias do quanto estamos precisadas de revoluções; o quanto precisamos dá "rolezinhos" em nossos conflitos e limitações que faz com que nos alie a classe enriquecida e dominado contra aos direitos dos nossos.

Comentário de Dilia Fraguito Samarth em 23 janeiro 2014 às 9:12

AS RUAS, OS SHOPPING CENTERS, AS AVENIDAS, OS CINEMAS, AS ESCOLAS.......PERTENCEM A TODA A COMUNIDADE........É URGENTE QUE O SENSO COMUM BRASILEIRO DEIXE DE PENSAR EM TERMOS DE RAÇA..(ATÉ PORQUE ESTE CONCEITO FOI INVENTADO PELOS EUROPEUS PARA LEGITIMAREM A EXPLORAÇÃO COLONIAL).....AFINAL OS AFRICANOS E SEUS DESCENDENTES SÃO RESPONSÁVEIS PELO DESENVOLVIMENTO DO BRASIL....BATA RECUAR NA HISTÓRIA E COMPREENDER O PAPEL DETERMINANTE DA MÃO DE OBRA, FEITA ESCRAVA NA ACUMULAÇÃO DO CAPITAL.....QUE AS CIDADES SEJAM VIVIDAS, SENTIDAS, POR TODOS SEM EXCEPÇÃO, PRINCIPALMENTE POR AQUELES QUE FORAM JOGADOS PARA AS PERIFERIAS DA VIDA...........

Comentário de Nilton Luz em 22 janeiro 2014 às 20:45

Somos aquele país que não conhece o estado de direito. Basta fugir do script (mal) permitido que o Estado, o capital e o senso comum descem para mostrar que a Constituição e as leis só existem para restringir, jamais para garantir, direitos.

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