Dra. Arany Santana: Negra, Mãe, Guerreira, Militante,...

Em intervenção recente, ao comentar um artigo que li, quando foi postado no Correio Nagô pelo Instituto Mídia Étnica, no qual certo “número” de mulheres negras era enaltecido como “mulheres negras brasileiras de destaque na política”, reagi com certo destempero, ao que classifiquei como, no mínimo o estabelecimento de um “número” ‘limitado e excludente’. Aliás, aproveito aqui para postar o meu pedido de desculpas pela terminologia destemperada que usei naquela oportunidade:

Meus queridos do Instituto Mídia Étnica, meu querido Paulo Rogério: Aceitem o meu pedido de desculpas pela terminologia pobre que usei ao comentar o artigo.

Mas, o que me traz aqui, hoje e agora, são dois fatos muito interessantes. O primeiro é a postura jornalística profissional sóbria dos representantes do referido IME, que, de forma cordial me convidaram a trazer outros nomes de mulheres negras influentes na política, e, assim, contribuir para uma maior visibilidade da participação dessas Guerreiras, na construção da cidadania afrodescendente. O segundo é a oportunidade de avançar mais um passo na programação de uma Agenda Afrodescendente, através do resgate de valores intrínsecos ao ser humano, mas tornados invisíveis por uma conjuntura sistematicamente perversa, que nega visibilidade ao afrodescendente como ser humano.

Aí, tomo a oportunidade para falar de uma ex-vizinha dos meus tempos de Baixa de Quintas, onde vivi dos 12 aos 28 anos (hoje eu tenho 58 anos). Poderia falar aqui, da “minha vizinha” Solange Silva dos Santos, aliás, Solange Silva dos Santos de Brito, com quem, depois de 36 anos de amor, história e cumplicidade, oficializei a união perante Deus e perante os homens, sendo na oportunidade, nossas madrinhas, a nossa filha, Gal, nossa sobrinha Cristina, enquanto coube a tarefa de “guarda de honra” a nossa neta Ludmila (Mila, na época com 5 anos) e sua coleguinha Maria Eduarda (Duda, na época com 4 anos).

Porém, a vizinha em destaque nesse texto, é outra pessoa. A vizinha que trago ao texto, também morava na Baixa de Quintas, em um imóvel que misturava as funções de local de trabalho do seu pai e residência de toda a família. Essa vizinha cuidava dos irmãos os quais, como todos e cada um dos outros residentes naquela área, eram duplos de estudante e trabalhador. Por várias vezes, vi a minha vizinha, de nome Arany Santana lavando pratos do almoço em uma bacia de metal, pois ainda não dispunha de água corrente para esse fim.   

Depois de algum tempo sem ver e conviver com Arany a reencontro, levado que fui a sua casa, por colegas e pessoas muito caras da minha religião. Encontrei Arany Santana morando na Vasco da Gama, onde comemos uma feijoada, assistindo seu filho Tiganá, com 2 ou 3 anos,na época, jogar capoeira com o pai. Hoje Tiganá Santana é um artista talentoso do cenário internacional, e a sua mãe Arany Santana é a Secretária do Desenvolvimento Social do Governo do Estado da Bahia.

A professora Arany Santana Neves, é graduada pela Universidade Federal da Bahia, com especialização em História da África e em Língua e Cultura Kikóngo, e desde Abril de 2008 é coordenadora dos Centros Sociais Urbanos do Estado da Bahia, órgão da Secretaria de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza. Ela foi a primeira secretária municipal da Reparação, em 2004, na gestão do ex-prefeito de Salvador Antonio Imbassahy.

Nascida em Amargosa, a gestora, professora, atriz, fundadora do Ilê-Aiyê, ex-secretária municipal da Reparação e atual secretária do Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza do Estado, Arany Santana vê a sua coleção de reconhecimentos e méritos aumentar de forma paulatina. No dia 30 de novembro de 2010, ela recebeu da Câmara Municipal de Salvador, a denominação honorífica de cidadã soteropolitana, em concorrida solenidade que contou com a presença de autoridades, políticos, intelectuais, artistas, além da comunidade do Ilê-Aiyê e de povos de santo. Para comemorar com Arany sua nova condição de soteropolitana, garantiram presença ao evento o ministro chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Eloi Ferreira de Araújo, o secretário estadual da Cultura, Márcio Meireles, os deputados Valmir Assunção e Luis Alberto, Jaime Sodré, Lazzo Matumbi e Margareth Menezes, entre outros. Eu e minha Solange estávamos lá, é claro.

No currículo de Arany ainda estão atuações como atriz em filmes de cineastas importantes na história do cinema brasileiro, como no “A Idade da Terra”, de Glauber Rocha, “Jardim das Folhas Sagradas”, de Póla Ribeiro, “A Guerra de Canudos”, de Sérgio Rezende e “Capitães de Areia”, de Cecília Amado.

Arany participou de 18 espetáculos teatrais em Salvador, a exemplo de Baile Pastoril, Cordel Vida e Verso e Castro Alves. Em televisão apresentou, em 88 e 90, o programa de televisão Beleza Black, na TV Itapoan e trabalhou na minissérie Mãe de Santo da Rede Manchete. No teatro encenou dezoito espetáculos em Salvador, entre eles, Baile Pastoril, Cordel Vida e Verso e Castro Alves.

Entre os prêmios de reconhecimento do seu trabalho Arani recebeu o diploma “Destaque Mulher” (1998 e 2002) da Assembleia Legislativa do Estado, pela atuação nas áreas educacional e artística e no trabalho de preservação e divulgação da cultura negra, o Troféu UJAAMA – Mulher Destaque/ 97 - promovido pelo Olodum - pelos trabalhos realizados na área da cultura e do conhecimento; o Prêmio Itaú – UNICEF pelo Projeto Pedagógico do Ilê Aiyê – 1996 (3º Melhor Projeto do Brasil).

Em 1995, também foi agraciada com o Troféu “Clementina de Jesus”, realizado pela UNEGRO, pelos trabalhos realizados em prol da Comunidade Negra, e, em 2004 recebeu a Medalha 2 de Julho da Prefeitura Municipal de Salvador. Publicou Diretrizes Curriculares para o Ensino da Educação Artística na Rede Estadual de Ensino, em 1980, e Cronologia dos Reinos Africanos da Costa dos Escravos, em 1988.

A vida da Dra. Arany Santana é tema para a elaboração de Currículos que servem de espelho de destemor para os nossos jovens. Mas a minha particular motivação aqui é pontuar as amizades que venho cultivando ao longo da vida, de forma natural, segundo os ditames colocados por Fá e Bessém, e trazidos ao meu caminha por Sogbo, Nanã, Azansun, afinal, nunca projetei intencionalmente, ter sido vizinho de mulheres tão especiais.

 Aos leitores interessados em mais informações biográficas da trajetória acadêmica e política de Arany Santana, certamente, não faltará canais e redes sociais versando de modo apropriado ao trato cronológico formal do tema. Mas, o que trago aqui, é tão somente uma referenciam sentimental a minha vizinha e amiga Arany Santana.

 

Referencias:

 

  1. Afrobrasileiros e suas lutas: Arany Santana assume Secretaria do Desenvolvimento Social/BA; Acesso:  http://www.geledes.org.br/areas-de-atuacao/questao-racial/afrobrasi... (acesso em 07/03/2013);
  2. Arany Santana receberá título de cidadã soteropolitana; Correio Nagô; Instituto Mídia Étnica; Acesso: http://correionago.ning.com/profiles/blogs/arany-santana-recebera-t... (acessado em 07/03/2013);
  3. Imagem: Câmara Municipal de Salvador; Entrega de Título de Cidadão de Salvador a Arany Santana; Acesso: http://www.cms.ba.gov.br/galeria_int.aspx?id=38   (acessado em: 07/03/2013).

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