" É ali na Igreja do Rosário que está o umbigo de Salvador" afirma Fernando Coelho

O desmonte da alma baiana vem de longe. 
O Pelourinho enterrado no desgosto. A ladeira, de moleques e povos, de escritores e pensadores, do mundo, prensada entre o descaso e a miséria. O espírito baiano não tem mais oxigênio. Na Bahia, os espíritos precisam de ar. São o som da inteligência invisível. Dos pretos enterrados há muito, com seus sonhos misturados ao éleo de baleia que unta os tijolos das igrejas, sobrem o suor. Apenas.
Nas pedras cabeça de negro, corrimão dos nossos pés nas ladeiras surradas do Pelô, sobram o cuspe velho dos áulicos novos. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Pelourinho, na Europa, seria um tesouro. Para o baiano é um estorvo. Mas, do que é feita a alma baiana, desmontada? Mas do que é feito o espírito baiano, esmaecido com o mata-borrão da burocracia? De que barro é feito o brasileiro? Como é o retrato da autoridade baiana?  Igual ao de Brasília? A morte da tradição baiana não tem velório. Não tem verba para velas. Não tem verba para as carpideiras. Alguém, como eu, já foi chorar na sacristia da Igreja do Rosário? Alguém, como eu, já ficou enterrado até o pescoço, naquele silêncio  de final de dia, alí, no antigo cemitério de negros, pensando na dor e no sofrimento, e ainda assim, na vida e na vitória?

É ali na Igreja do Rosário que está o umbigo de Salvador. É ali onde os chefes das salas oficiais querem que seja o calvário da preservação. O mórbido caixão do despreparo histórico, do reconhecimento da História, do respeito à fidalguia do nosso nascimento. Vamos salvar esta igreja. Porque o futuro das autoridades perdidas entre papéis, votos e nada, não tem salvação.
A Bahia precisa se respeitar. O baiano precisa se respeitar. Lembrar-se mais da quarta-feira de cinzas do que do carnaval.
Os cordeiros de Salvador, de mãos mais sangradas, com falta de comida em casa, com falta de dinheiro pro ônibus, são mais autoridade do que os que dominam os destinos de um povo que somente ouve, e ouve. Mas não era assim. Cadê Gregório de Mattos, Cosme de Farias, Cuica de Santo Amaro? Precisamos de Jorge Amado, Mestre Bimba e Pastinha, Calasans e Carlos Bastos.
Precisamos de Mãe Senhora, de Mãe Menininha que nos abençoam de cima. Precisamos de Odé Kayodê, Mãe Stella de Oxóssi, que nos ouve e vê ali da rua Direta de São Gonçalo do Retiro. Ainda precisamos do dono da praça, que deu a praça para o povo: Castro Alves. 
Precisamos dos que se foram, porque os que ficaram estão mudos. Se não é possível salvar o Terreiro de Jesus e o Pelourinho, que mais pertence à Unesco do que ao Brasil, tentemos salvar a pequena igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Prestos do Pelourinho. É preciso ouvir mais Clarindo Silva, preto velho, homem sem temor, o último guerreiro que não deixa a cidadela do Pelô, de vez, ser invadida pela contra-mão da visão modernista e oportunista dos gabinetes. Ouvir Clarindo Silva é ouvir a voz dos becos e do povo excluído do Pelourinho. Salvemos esta igrejinha, escondida no seu manto de azul que tanto ilumina o frontal da Baía de Todos os Santos lá de cima. Ela é um patrimônio nacional. Assim, já estaremos fazendo alguma coisa pelo nosso destino.
Este relato que nos manda Patricia Bernardes Sousa, é a prova cruel de nossa falta de civilidade e amor pelo que somos. 
 
Fernando Coelho

 
 Companhia de Comunicação
Jornalista e escritor Fernando Coelho
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113 anos no 02 de julho de 2011
A Irmandade do Rosário dos Homens Pretos completa no dia 02 de julho seus 113 anos de aniversário sem muitos motivos para comemorar. Iniciada como confraria, o título de Venerável Irmandade dos Homens Pretos se deu somente há 113 anos.
Com dois anos de obras completadas neste mês de junho, a mesa administrativa da Irmandade do Rosário não tem mais artifícios legais para entender o porquê de tanto descaso nas obras de conclusão da Igreja de Nossa Senhora do Rosário no Largo do Pelourinho. Contas da Coelba com 4 meses em atraso trazidas pelos administradores da MFP Construtora deram o ponta pé inicial a “indignação” dos irmãos membros dessa Irmandade que completa também em 2011 cerca de 329 anos de existência.
O que comemorar? 
Como comemorar?
Após várias audiências com técnicos e promotores que “dançavam” conforme a “música política” das obras de restauro da igreja católica de matriz africana mais conhecida no país, a “ciranda de desculpas” não para.
Em 16 de maio de 2011, a Diretoria de Patrimônio Artístico e Cultural (DIPAC), através de José Carlos de Oliveira Matta, gerente de Conservação e Restauração de Bens Culturais IPAC, enviou ao escritório da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, um relatório de informação técnica ( N° 002/2011) descrevendo e avaliando as solicitações enviadas pelo Prior Responsável Júlio César apresentando um tom de “conformidade” e “ nada consta” de irregularidades presentes a “olho nú” para qualquer cidadão leigo que transita nas mediações das obras da igreja.Na ocasião, a visita técnica realizada no dia 18 de abril , gerou o relatório apresentado ao Ministério Público e também a reforma concretizada pelos gestores do Teatro Sesc Senac Pelourinho. Durante a vistoria, o Prior constatou que a Construtora MFP não desejava se responsabilizar pelo restauro da parede esquerda da lateral do último andar da Igreja do Rosário. Segundo o engenheiro responsável na época, a umidade e as “bolhas” de infiltração presentes na Capela de Nossa Senhora das Dores, era parte responsável do vazamento da mesma parede do Teatro. Logo após as fotografias e denúncias a imprensa, a direção do local iniciou as obras.
No final de maio (25/05), foi à vez da 6ª Promotoria de Justiça do Meio Ambiente da Comarca de Salvador se pronunciar. Na sede do Ministério Público, a então responsável Drª Cristina Seixas reuniu Bruno Mascarenhas da Silveira, representante do NUDEPHAC assim como representantes do IPAC, IPHAN, MFP Construtora e da Irmandade do Rosário dos Pretos como parte de mais um Inquérito Civil ( N° 003.0.102728/2009). Diante das demandas e das “mesmas reivindicações” , o Ministério Público ofereceu novamente um prazo a MFP Construtora  até o dia 02 de junho para que a mesma forneça um relatório completo da situação ao IPHAN e ao IPAC. Diante da situação ( Informação Técnica N° 008/11 do IPHAN), o IPAC confirma NÃO HAVER um prazo previsto para o término das obras diante dos documentos apresentados pela MFP Construtora.
A MFP afirma serem necessários mais R$180 mil reais para as obras de finalização. A chamada “solicitação de aditivo” para conclusão das obras não tem um parecer do Governo do Estado e nem dos envolvidos nas obras de restauro. Enquanto isso, a MFP alega que a Conder não tem repassado as verbas para a conclusão das obras, os funcionários estão sem receber seus salários a cerca de quatro meses e as obras estão sendo supervisionadas por um “mestre de obras” já que não existe mais um engenheiro no local.
Para se ter uma idéia do “presente de grego” pelo aniversário de 113 anos de Irmandade, o elevador importado instalado para “facilitar” a vida dos membros mais idosos da Igreja do Rosário, terá um custo de cerca de R$3.000 por duas horas de funcionamento. Acredita-se que a administração do local, após a entrega da Igreja Matriz, terá um custo muito além das condições de “ sobrevivência” de uma Irmandade que vive de doações de seus fiéis.
Neste mês de junho, a mesa administrativa da Irmandade dos Homens Pretos já encaminhou uma solicitação de audiência com o Governador Jaques Wagner. Até agora não houve nenhuma resposta. A reforma da igreja é uma iniciativa do Governo da Bahia, através do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC) vinculado à secretaria estadual de Cultura (Secult BA) e possui investimentos como estimativas já acima dos R$ 2,3 milhões do Prodetur/Ministério do Turismo, com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento e contrapartida do governo estadual via secretaria de Turismo.
“Ouve o Clamor do seu Povo” V. Exª Jaques Wagner... é o que resta aos membros desta instituição católica de matriz africana a espera da entrega da sua Igreja.

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