É bom ser mãe! Desde que meu filho esteja vivo! por Maíra Azevedo


Mãe é tudo igual! Quem nunca ouviu essa expressão? Mas agora que faço parte deste conjunto sei o quanto essa frase é falsa. E digo isso com propriedade de uma mulher negra que pariu uma criança negra em uma sociedade racista como é a brasileira.  Toda mãe pede em suas preces, seja para qual deus for, que seus filhos estejam em segurança. A mãe negra não. Ela pede ao seu deus que seu filho não seja abordado pela segurança de qualquer lugar e entre para as estatísticas.

Estatísticas essas que nos acompanham desde cedo. Pesquisas do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas – NEP/UNICAMP identificaram uma diferença sistemática na mortalidade de crianças menores de um ano. Os estudos constataram que houve no Brasil uma redução nos níveis das taxas de mortalidade infantil, entre a década de 70 e fim dos anos 90. Porém, ao introduzir na análise o quesito raça/cor declarado pelas mães, observou-se que a redução se deu de forma desigual entre as raças.  Enquanto o índice de mortalidade das crianças declaradas brancas foi reduzido em 43%, o número das crianças declaradas negras foi sensivelmente menor, apenas 25%.

E quando consegue a façanha de sobreviver, tem em frente um novo desafio. Manter-se vivo. Tudo bem,  eu sei que o destino de todos nós é a morte. Todos, independente de cor. Mas, para nós negros esse destino sempre tenta chegar mais cedo.

Sei que pode parecer mórbido escrever sobre isso quando acabou de passar o Dia das Mães, uma data que as lojas capitalistas aproveitam para nos entupir com suas quinquilharias e com isso fazer com que a gente concorde que ser mãe é bom. É bom mesmo, aliás, maravilhoso, mas quando temos o nosso filho perto da gente e nem precisa trazer presente. Mas essa é uma realidade que nós mulheres negras, que tivemos a ousadia de parir, cada vez mais não temos.  Mórbido mesmo é rezar o tempo todo para o filho não ser vítima de uma chacina, não ser apontado como um provável marginal e a mãe ter que ir ao Instituto Médico Legal (IML) para reconhecer os restos mortais.  Porque em muitos casos nem sempre nos resta o corpo.

Sei que muitos vão afirmar que essa dor não é um “privilégio” apenas  das mulheres negras  e que  a dor de uma mãe que perdeu um filho, seja por qual motivo for, é insuperável. E eu digo categoricamente que concordo. Aí sim, na dor somos muito parecidos, mas também sofremos de forma diferente  e em posições distintas, cada uma no seu quadrado.  E olhe que digo isso, apenas como uma jovem e nova mãe. 

Meu filho é um sobrevivente das estatísticas, tem exatos 4 anos. Mas, desde já, o meu maior medo é que algum dia a polícia ou um grupo de extermínio execute o aborto que eu não tive coragem de realizar.  Só espero que os episódios aconteçam na ordem natural.  O maior presente para uma mãe é acreditar que ela vai ter sempre vivo o sorriso do seu filho. 


Por Maíra Azevedo – Jornalista – Militante do Movimento Negro – Pesquisadora sobre a influência da Televisão a formação da identidade da criança negra.

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Comentário de Cezarina da Silva Almeida em 16 maio 2012 às 18:08

Parabéns pela sua colocação, mas penso que devemos continuar lutando contra qualquer tipo de preconceito,e desde de cedo educar nossos filhos para que não sofra com essa forma de pensar dessa sociedade injusta para com nosso povo.Também acredito que para vencer essa batalha tem que haver muita luta e espírito de justiça, e ética acima de tudo.Penso que somos um povo vencedor,também sou mãe e avó senti por muito tempo na pele o que é ser negro nessa nossa sociedade,mas hoje luto contra qualquer tipo de preconceito,não aceito nenhum tipo de piada que possa abaixar a alto estima de alguém.E principalmente mostrando através de nossos atos,  forma de vestir e de rezar eu mostro  a beleza do ser negro.

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