Ebola e R2P: uma epidemia que vem à tona ou um crime contra a humanidade que se revela?

Ebola e R2P: uma epidemia que vem à tona ou um crime contra a humanidade que se revela?

 

 

O R2P ou Right to Protect, em português, direito a proteger foi um mecanismo inventado pelos países mais poderosos para demonstrar seu humanitarismo. Porém, trata-se na verdade de mais uma arma utilizada em seus projetos para dominar o mundo.

 

Seria razoável pensar que o R2P foi invocado como princípio para angariar apoio mundial contra o alastramento do vírus do Ebola na África Ocidental, em países como Guiné, Libéria e Serra Leoa? Afinal de contas, até mesmo o Cabeça do Banco Mundial criticou os países ocidentais por terem falhado em responder adequadamente à epidemia. Mas, dada a gravidade da falha, tal “mea culpa” acaba sendo um remendo, um disfarce.  Estariam os Cabeças do Banco Mundial, do FMI e de outras instituições de alcance global interessados em se lembrar do papel que essas e outras corporações da mesma laia tiveram ao impor as reformas de ajuste estrutural? Em recordar o quanto enfraqueceram todas as infraestruturas de saúde africanas, tornando-as completamente inadequadas para enfrentar uma epidemia tão grave? O Dr. Paul Farmer, um amigo íntimo do Cabeça do Banco Mundial, descreveu tal infraestrutura como “medieval”. 

 

Dada a história mais recente e a que a precede, seria exagerado definir os programas de Ajuste Estrutural como um crime contra a humanidade? Mais uma vez, no entanto, dada a história da relação entre os países ocidentais e a África, os primeiros certamente ficariam ofendidos se acusados de perpetradores do crime de falhar em responder adequadamente ao alastramento da epidemia. Para os países ocidentais, é o R2Pque deve ser usado contra os perpetradores de crimes contra a humanidade. Por definição, dado seu caráter autocondescendente e suas narrativas utilitaristas,  as nações mais poderosas não estão preparadas para olhar para si mesmas como ativamente envolvidas em perpetrar tais crimes.

 

A forma como os países mais poderosos têm tratado a epidemia de Ebola só pode ser entendida se a encararmos tendo em mente uma história de conquista, escravidão, colonização e apartheid.

Os países ocidentais se tornaram ricos por meio desses processos históricos, enraizados em injustiças sistêmicas.

 

Para tais injustiças, nunca, jamais, um tribunal foi instaurado. Uma das consequências tem sido a persistente impunidade em relação ao que se passa na África. Por outro lado, os países ocidentais têm sido céleres em instaurar Cortes Criminais Internacionais para garantir que crimes contra a humanidade sejam punidos. A questão é: quem decide se um dado comportamento, um dado processo historico, deve ser investigado a fim de criar as condições para o reconhecimento de um crime contra a humanidade?!

 

O modo como os países mais poderosos têm respondido ao Ebola não difere do que têm tomado em relação às mudanças climáticas. A concentração de poder, a riqueza nas mãos de um minúsculo segmento da humanidade levou a um entendimento de justiça, verdade e solidariedade que é completamente contrário à manutenção da humanidade. A norma inscrita nos três pilares que constituem a fundação do R2P automaticamente nos convoca a aventar pesadas críticas morais a esses que assumiram a responsabilidade de executar tal decisão. A carta apaixonada do presidente da Libéria, Sirleaf, endereçada ao mundo e exibida no último domingo, 19 de outubro de 2014, na BBC, fez questão de lembrar a comunidade global que o ebola “não respeita fronteiras”. E o “extremamente desapontado” Kofi Annan, outro queridinho do neoliberalismo com credenciais impecáveis, de tão enraivecido, chegou ao ponto de ir além —‘se a crise tivesse atingido outra região do mundo, provavelmente teria sido tratada de maneira diferença’. Esta “diferença”, moldada ao longo de séculos de história, nos ensina que uma parte da humanidade é considerada descartável, desprezível, enquanto outra, não.

 

As Nações Unidas lançaram um apelo para se angariar um bilhão de dólares a fim de reduzir as taxas de transmissão do vírus. Porém, para além dos 20 milhões de fundo inicial, só conseguiu uma doação de 100 mil dólares da Universidade de Columbia.

O gasto no desenvolvimento do jato invisível F-22 Raptor – que chega a 412 milhões cada um – é de nada menos do que 67 bilhões de dólares, soma que poderia erradicar o Ebola e Malária de uma só vez. De 8 de agosto a 24 de setembro, os Estados Unidos gastou aproximadamente 1 bilhão de dólares bombardeando o ISIS no Iraque.

 

 

Jacques Depelchin

Berkeley, California

&

Ibrahim Abdullah

Freetown, Serra Leoa

 (tradução em português por Profesora Antonadia Borges)

22 de outubro de 2014

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