Embalagem sem conteúdo: um alerta aos consumidores!


Na Inglaterra, 2% têm mais representatividade do que os 45% de negros no Brasil. Contrariando a matemática e reforçando a lógica de uma elite branca e dominante, nota-se que os negros no Brasil, quase maioria da população, têm pouca - para não dizer nenhuma - representatividade no cenário político e mercadológico do país.


Essa constatação, que não é uma novidade, pode ser corroborada ao percorrer as ruas, as lojas e as prateleiras de supermercado de uma cidade como Londres, que possui apenas em torno de 15% de pessoas negras em sua população. Lá, ao contrário do Brasil, nas peças publicitárias destinadas a produtos de grife e outros notórios itens do mercado capitalista encontram-se retratados os negros. Isso, sem dúvida, nos impele questionar: será que os negros no Brasil não são consumidores em potencial? Caros leitores, nos furtaremos a responder a esta óbvia questão e aproveitaremos para alertar os empresários e anunciantes brasileiros sobre a necessidade de mudança em seus conceitos de estratégias mercadológicas. Sobretudo hoje, os negros, valorizando cada vez mais a sua estética, querem se enxergar refletidos em anúncios, comerciais e embalagens de produtos diversos, que não se restrinjam a cosméticos ou produtos de baixo valor agregado e preço.



Foto: Anúncio de um espetáculo em Londres


O Brasil passa por um crescimento econômico e social nunca antes vivido, mas a sustentação desta nova perspectiva perpassa não só por políticas públicas de inclusão racial e de gênero, mas depende que os anunciantes e as grandes empresas enxerguem a potencialidade, inclusive de consumo, dos negros, possibilitando o país de alcançar crescimentos mais exponenciais.



Foto: Embalagem das fraudas Pampers em Londres



Seja por uma questão ética, mercadológica ou de responsabilidade social, é necessário que publicitários, mercadólogos e empresas, a exemplo da multinacional Pampers (que aparentemente não apresenta negros em seus sites e embalagens de fraldas do mercado brasileiro), reflitam sobre o posicionamento midiático no Brasil e levem em consideração que negros são quase maioria da população, que, especialmente neste cenário de ascensão econômica nacional, têm grande potencial de consumo e, independente destes percentuais, merecem ser melhor (re)tratados, não só por uma questão de reparação, mas por respeito a diversidade deste país multirracial.


Keila Costa é publicitária e pós-graduada em Gestão do desenvolvimento de estratégias em recursos humanos. Twitter: @keilacosta.
E-mail: keilacosta@gmail.com


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Comentário de adinelson de souza filho em 29 julho 2010 às 12:15
Quis dizer; Quem é que briga mesmo por nós?
Comentário de adinelson de souza filho em 29 julho 2010 às 12:13
Nunca é tarde para respondermos a uma questão como esta. O problema da falta de representação da imagem do negro em propagandas e outros está no problema da falta de representatividade ou pouca representatividade do negro no parlamento e nas camaras da scidades por todo o brasil. Mesmo em cidades com percentual populacional negro alto, como S. Luis ou Salvador, onde até existem parlamentares negros, a questão NEGRO ampliada fica fora da pauta de discussões. OU seja não há quem possa representar-nos, brigar contra nossa invisibilidade, na meios de comunicação, no mercado de consumo, na propaganda etc.
Muitos de nós vamos nos acostumando com a estratégia do não ser mostrado e não ser visto e vamos branqueando os nossos hábitos de consumo, sem perceber ou se importar com a propaganda loira do produto que adquirimos, ou pior ainda com a propaganda que nos satiriza - como a do automóvel que era comparado aos dreads locks de um rastafari dizendo que ali cabia qualquer coisa.
precisamos estar bem atentos a isto. Não somos o continente Africa, mas não somos os paises nordicos loiros. Nosso contigemnte de pele negra é imenso e de uma escala tonal vasta e variada e precisamos pensar em quem nos representa politicamente para sermos bem mais apresentados esteticamente em qualquer meio. Quem ´pe que briga por nós?
Comentário de Elias A.do Nascimento em 5 julho 2010 às 10:00
Verdade,verdadeira e sem parabolas !
O Brasil é simplesmente um pais com descência latina e é mais que provado e comprovado que a descriminação racial é de maneira inequivoca, de maior importância nos paises com origem historica latina tais como : ITALIA, PORTUGAL, ESPANHA,FRANCA que por sinal têm todos uma origem comun e Latina ! Criou-se porém uma falça imagem de miscegenação e integração em certos paises como o Brasil que passou para o mundo uma imagem de fraternidade racial que é de longe infundadada ! A crioulidade gerou o desencontro entre os grupos descriminados que por sua vez favoreceu (ce) a existência da tal falça imagem da fraterna irmandade entre os varios tons de pêle ai existentes e que é de maneira inconsciênte reconfortada pela atitude irresponsavel de boa parte dos oriundos da AFRIKA NEGRA não somente no Brasil mas também e em todos os paises de origens colonial portuguesae ( Angola, Moçambique,Cabo -Verde etc e francesa ( Martinica,Ilha da Reunião, nas àreas onde a tal de miscegenação se faz sentir ; por outro lado, devemos ainda realçar a exclusão do por esses paises do ensinamento historico do POVO NEGRO, ao contrario do que acontece com os nossos irmãos nos USA u mesmo na Afrika do Sul onde do racismo practicado resultou a união de todos os grupos excluidos ! Enfim temos muito que falar e a proposito uma pequena frase de um comico françês : Deus criou o homem e o fez igual mas esqueceu-se de mencionar que uns seriam mais iguais do os outros! A culpa não é D'ELE !
Uma boa semana de " Paz"para todos os homens e mulheres de boa vontade !
PS . perdão pela falta de acentuação em certas palavras mas este é um aparelho francês !
C D N
Comentário de Keila Souza da Costa em 4 julho 2010 às 11:57
Meus caros, obrigada pelos comentários. Esta era a intenção, problematizar a falta de representação dos negros na mídia, o quarto poder. Sem dúvida, alcançar espaços nos meios de comunicação é um passo importante para reduzir os estereótipos racistas, como pontuou Paulo. Os anunciantes, independente do intuito (reparação, responsabilidade social), devem entender que as crianças precisam se enxergar - seja nos anúncios ou meramente nas embalagens de fraudas-, mesmo sabendo que o mundo do consumo é insustentável. Comentem e exijam que as empresas e comunicadores façam a sua parte.
Comentário de Philippe Jean Marie Meilhac em 4 julho 2010 às 11:06
Você Paulo e a Keila têm toda razão!! E agradeço a sugestão de leitura. Tenho muito o que aprender consultando o Correio Nagô!!! Não quis minimizar a relevância da observação feita pela Keila, ela acerta na mosca e você bota o dedo na ferida exposta, sem dúvida alguma. Eu só pretendi alertar para não nos deixarmos burlar por tal inclusão, sobre suas reais motivações. Mas com certeza, a partir do momento em que a regra do jogo é capitalista, neoliberal ou algo parecido, é inaceitável, é insultante, ultrajante que certos jogadores sejam excluídos em função de sua origem étnica. Só quem carrega na pele o estigma dessa "herança maldita" sabe e pode dizer melhor do que ninguém o tamanho da estupidez e da perversidade que é tal exclusão. Um grande abraço.
Comentário de Paulo Rogério em 4 julho 2010 às 10:47
Phillipe, eu te recomendo a assistir um maravilhoso depoimento da escritora Chimamanda Adichie que fala sobre o perigo da imagem que fazemos do "outro" - muito influenciada pelo jornalismo, cinema e publicidade (http://www.ted.com/talks/view/id/652). Ou seja, o fato de não aparecermos na mídia (e até mesmo em uma embalagem de um produto que consumimos) é um fator crucial para a baixa auto-estima da comunidade negra, a perpetuação dos estereótipos racistas dos negros (pobres, mal-educados etc) e da negação de nossa subjetividade.
Por isso que é também necessário o compromisso das empresas com a diversidade étnico-racial - afinal esse é o mundo real e concreto: capitalista-liberal. Se iremos mudar isso, é outra história... Se estamos ou não numa sociedade capitalista, e além disso, excludente, isso aí não tenha dúvida, meu caro. A crítica maior no texto acima é sobre aquilo que o Vovô, presidente do Ilê Aiyê diz: "Aqui no Brasil o empresário antes de ser capitalista é racista". Sofisticação? Apartheid? Burrice? Chame do que quiser, mas esse é o fato.
Comentário de Philippe Jean Marie Meilhac em 4 julho 2010 às 10:24
Polémica a observação da Keyla. Por um lado, ela tem toda razão. Tal exclusão no cenário mercadológico brasileiro não deixa de ser sintomática de uma exclusão de âmbito maior. Mas havemos de considerar positiva tal exposição no caso londrino? Tudo se insere dentro de uma política capitalista de captação de consumidores. Ora sabemos que o capitalismo não está nem aí para dignidade humana, interessam apenas as cifras do lucro. Só promovem tal ou qual categoria étnica ou social se ela for geradora de um acréscimo em termos de lucro, de mais vendas, mais consumidores. Na África do Sul, os protagonistas do cenário mercadológico e publicitário são negros, mas a miséria continua marginalizando milhões de negros! Ter o direito de ser associado aos fantoches de um cenário montado por empresários cujo único objetivo é lucrar, sem se preocupar com a distribuição equitativa dos lucros, tal direito merece mesmo destaque e aplausos por parte das comunidades envolvidas nessas campanhas publicitárias?
Como dizia inicialmente, vale sim,caso nos leve a reflexionar sobre a dimensão da exclusão da representatividade negra no Brasil. Aqui, a comunidade negra é tão marginalizada pelos detentores do poder que até no cenário mercadológico e publicitário ela só aparece de modo anecdótico. Daí a necessidade de conquistar a única representatividade responsável que responda aos interesses vitais de tal comunidade, a representatividade política! Pior do que estar quase ausentes dos outdoors, é estar quase ausentes do cenário de representação política. é um trabalho de base a ser feito, é uma mobilização a ser empreendida. Daí a pertinência desse espaço midiático que é o Correio Nagô!! Valeu Keyla a sua observação, mas como sintoma de algo muito maior. Um abraço.
Comentário de Mauro Santos em 4 julho 2010 às 6:31
Se nao me engano em quase todo o Reino Unido existe o Equal Opportunities Policy /Programme nos quais eles perguntam em formulários:
Do you consider your Ethnic Origin to be:
White:
British •
Irish •
Any other White background •
Asian or British Asian:
Asian Bangladeshi •
Asian Pakistani •
Any other Asian background •
Black or British Black:
Black African •
Black Caribbean •
Any other Black background •
Chinese: •
Dual Heritage:
Asian and White •
Black African and White •
Chinese and White •
Any other dual heritage background •
Any other Ethnic Group


Parece q as cotas britânicas já existem de alguma maneira.
Comentário de Manoel Messias Pereira em 3 julho 2010 às 23:58
Querida Keila temos um problema, que é a consciência e o jeito de levar vantage em tudo. Nossos negros não são tão negros assim. Quando eles podem dão um jeito de explorar o outro negro como se fosse um senhor de escravo. E o processo continua é quase que antropológico. Assim como os nossos empresários são senhores da escravidão que não desejam custear os seguros sociais, se observar verás que este pensamento está alicerçado na inteligência do brasileiro. Assim como políticamente, A maioria acredita na competição desigual e não observa a isonomia ou seja nós negros que fomos tratados desigualmente, necessitamos de uma política de correção do processo. Fale isto e verás que o principio do direito que é aplicado politicamente não vale para os negros. É um pouco frustrante falar deste processo. Voce sabe que há um partido chamado de Dem, que coliga com PSDB, que é contra a Cota. Ou seja da correção. Não estou dizendo certo ou errado. Mas da questão de ser contra os negros que sempre estiveram num tratamento desigual. Agora quero que voce entenda que todos precisam é de igualdade de oportundade pra competir corretamente. Já a questão da diferença é acabar com a estupidez da indiferença de tratamento social desigual. E sei que este papo, dá uma boa briga. Mas se não brigarmos como ser humano vão pisar em nossos pés e desejar que peçamos desculpas, e aí não dá.
Comentário de FABIO HENRIQUE em 3 julho 2010 às 19:57
A constatação de pouca representatividade mercadologica , ou politica , não sei qual das duas se encaixam , não é novidade mesmo e basta apenas andar nos supermercados , olhar outdors de lojas ou mesmo assistir comerciais de tv para ver que empresários , publicitarios e muita outras pessoas de mercado não tem ou não quer ser sensivel e enxergar que o negro também consome ,e o poder de compra da sociedade brasileira no geral incluindo os negros aumentou . Quem sabe se esses 45% não consumisse mais produtos que não se identifiam como fez uma vez o rapper dos Estados Unidos Jay Z dizendo para seus fãs que se realmente gostasse dele não consumiria tal marca se não me engano uma marca de champanhe . Mas isso por aqui é apenas uma ilusão .

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