Escritora Iray Galrão fala sobre livro infantil Lendas Africanas

 

A simpática pedagoga e escritora Iray Galrão é figura conhecida na luta anti-racismo em Salvador. Seja por suas publicações voltadas ao universo infantil ou pela sua atuação no movimento contra a intolerância religiosa sua trajetória comprova seu compromisso com a questão racial que em seu caso, transcende a cor da pele.

 

Iray, que fala Yourubá, esbanja alegria e sempre está apta a compartilhar boas histórias da cultura afrobrasileira com todos que visitam o museu e centro cultural Casa do Benin, no Pelourinho. Além disso, a escritora é uma das apoiadoras da comunidade de africanos que vivem em Salvador, criando redes para os que chegam do outro lado do Atlântico. Nessa entrevista, por e-mail, Irá, como é conhecida, fala sobre suas publicações e da luta para desconstruir a intolerância religiosa no ambiente escolar.

 

Correio Nagô: Quem é Iray Galrão. Fale um pouco de você e seus trabalhos anteriores.

 

Sou pedagoga, professora, já aposentada, do estado da Bahia onde entre outras disciplinas lecionei Estudos Africanos. Atualmente exerço a função de Chefe de Intercâmbio da Casa do Benim e de professora do Curso de Especialização em História Social e Cultural Afro-brasileira promovido pela Federação dos Trabalhadores Públicos do Estado da Bahia (FETRAB) e pela Associação Classista de Educação da Bahia (ACEB). Ao longo da minha vida tenho estudado a cultura dos nossos antepassados e um dos cursos que fiz que mais me orgulha foi o de Especialização  em Língua e Cultura Yorubá, com o nigeriano Taiwo Ijayola. Gosto também de escrever para crianças e, em 1999, com o livro o “Anjinho Jojó”, cujo tema central é a pluralidade e a igualdade racial, ganhei o Premio da COPENE. Mas, entre todas as coisas que já vivi e que me enchem de orgulho, está o fato de ser mãe de Martha, Mauricio e Marília; ser avó de Bia, ser filha de Iyansã e Ekede de Xangô.

 

Correio Nagô: O que te motivou a escrever o livro Lendas Africanas? Como surgiu a idéia?

 

Um dos meus maiores objetivos ao escrever um livro de lendas africanas para crianças foi fazer com que elas conheçam, desde cedo, a beleza e a riqueza destas histórias,e possam através delas, aprender os valores e toda a sabedoria dos nossos antepassados. Alem disso, também quis contribuir para a desconstrução de conceitos distorcidos  e errados que são atribuídos a cultura e a religião de raiz africana. A idéia de escrevê-lo surgiu exatamente quando percebi, ao ser convidada para contar estas lendas em algumas escolas, a postura lamentável de alguns professores influenciando evidentemente o comportamento de alguns alunos de desprezar e demonizar de tal forma estes mitos, chegando ao extremo de se colocarem de costas e se recusarem a participar das atividades que envolvessem qualquer coisa que possa se referir a religião dos Orixás.

 

 

Correio Nagô: Na sua opinião os livros infantis ainda são racistas?

 

Infelizmente alguns livros continuam com conceitos preconceituosos  que extrapolam até a questão do racismo, atingindo  por exemplo, a criança gorda, a muito alta, a miudinha, enfim um desrespeito total a qualquer forma de diferença.Não existe em uma grande maioria de livros nenhuma preocupação em preparar a criança pra respeitar o outro e aceitá-lo como ele é.

 

Correio Nagô:Fale um pouco mais sobre as lendas que você conta no livro Lendas Africanas. Qual história tem despertado mais interesse nas crianças?

 

Ao escolher estas lendas que estão no livro tive o cuidado de em nenhum momento dar um cunho catequético. Elas se referem a cultura do povo Yorubá e reflete sua maneira de ver e entender o mundo. São todas elas muito lindas, mas noto que as preferidas das crianças são : A Criação dos Homens; Porquê não Somos mais Feitos de Barro e a Historia do Caçador.

 

 

Correio Nagô: Qual o papel da escola no combate ao ódio religioso?

 

Acho que o ideal seria que a escola não tivesse nenhuma gerência na questão religiosa, deixando que esta orientação fosse feita pela família ou por instituições com esta finalidade, como Igrejas, Terreiros, Mesquitas etc. Afinal, temos,  ou deveríamos, ter um Estado laico. Mas, como isto não acontece, então teríamos que desconstruir nos estabelecimentos de ensino todos os conceitos errados que levam a descaracterização e demonização das religiões de matriz africana, deturpando seus valores e aspectos filosóficos, agregando a isto uma enorme carga de  racismo e de preconceito.

 

Correio Nagô:Qual sua avaliação sobre a implementação da Lei 10.639, que regulamenta o ensino da história da África nas escolas?

 

Eu acho que o simples fato de existir uma Lei não garante a sua execução. Para mim, a Lei 10.639 carece de acompanhamento nas escolas onde na maioria das vezes ela não está sendo aplicada. São entraves: a intolerância religiosa e a falta de preparo do professor. Em ultima instância, a 10.639 não me parece uma lei que interesse á nossa sociedade que seja aplicada. Por esta razão, fazê-la acontecer é mais uma batalha que deve ser travada.

 

Correio Nagô: Onde é possível comprar o livro Lendas Africanas?

 

O Livro de Lendas e o Anjinho Jojó podem ser encontrados na Casa do Benim, no Museu da Cidade, nas Lojas LDM, na Saraiva, na “Oropa e na França Bahia” (Ceasa do Rio Vermelho).  Eles também podem ser adquiridos através do meu email “iraygalrao@uol.com.br” e é a maneira que mais gosto de vendê-los, porque geralmente termino amiga do/a comprador/a. Em breve lançarei um novo livro “Bia a Nuvem que não queria chover”. Acabo de ganhar um prêmio da Fundação Pedro Calmon e a espero todos vocês no lançamento. Aguardem o convite.

 

Contatos:

Casa do Benin (Rua Padre Agostinho Gomes, nº 17, Pelourinho)

(71) 3241.5679


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