“Olha só, duas negras. Eu nunca vi isso”. Foi o que disse uma das pessoas que acompanhava-me quando retornava de Pernambuco. O que teria causado tanto espanto num pais majoritário negro, e que tanto nega a existência do racismo?

Logo na entrada ao avião, fomos recepcionados por duas mulheres negras e respondemos aquele bom dia com um largo sorriso no rosto. Após guardarmos a bagagem de mão e antes que apertássemos o cinto de segurança e o avião decolasse rumo à capital baiana, conseguimos postar numa rede social: “Duas aeromoças negras no mesmo voo. Algo a ser comemorado. /o/”

Algo a ser notado?

Parece que as pessoas que combatem o racismo estão sempre vendo racismo em tudo. Por que será que somente esses ativistas estão imunes ao falso mito da democracia racial no Brasil? As outras pessoas não conseguem notar que o racismo é estruturante nas relações, sejam elas afetivas; no mercado de trabalho, na educação e em outros espaços. Por mais que muitos não queiram assumir, o racismo está sempre presente em nosso cotidiano.

 O tal fato inédito ocorrido no avião e observado pelas três pessoas que conversavam e comemoravam não pode ser visto como algo ruim. Se notaram é por que não é comum acontecer.  Se notaram é por que não usam a lente de invisibilidade racista, bastante comum e que causa uma “cegueira” em relação a essa importante questão.

Trata-se de uma visível invisibilidade, afinal, como no caso citado, as mulheres e homens negr@s sonham em ser comissários de bordo, dentistas, jornalistas e, por que não, donos e donas de empresas aéreas.  Mas esses e outros sonhos são tolhidos pelo racismo. Muitos já conseguiram romper essa barreira e alcançar lugares que antes pareciam inacessíveis.

Algo a ser comemorado?

Surgiram alguns comentários ao post na rede social e,  em um deles houve um questionamento se deveríamos ou não comemorar por termos duas aeromoças negras, ao dizer: “E quantas donas de empresas aéreas?”.Estabeleci um diálogo com esse amigo que também é militante do movimento negro e, desse comentário, surgiu uma seqüência de pensamos e questionamentos transcritos aqui com intuito de torná-los acessíveis para que outras pessoas também possam participar do debate:

 

 -  Sei que é muito pouco. Mas quis compartilhar. Alguém outro dia falou: "Estamos tão focados na luta que as vezes nem comemoramos pequenas vitórias". Sigamos!”. (eu)

 

 -  Compreendo e dou valor nessas poucas vitórias. O fato é que comemorando pequenas vitórias, perdemos tempo articulando uma vitória maior. Mas são só pontos de vista não tão divergentes. Sigamos sim!” (ele)

 

 -  Fica uma dúvida: "Será que essa vitória maior, não seria a soma de várias pequenas vitórias?". Se for, ao comemorar cada etapa estamos articulando uma vitória maior. Se não for, nunca iremos comemorar nada, pois talvez a vitória maior nunca chegue, ou nem exista. Louco isso né!?!?” (eu)

 

 - Muito louco, mesmo.” (ele)

O diálogo apresentado a partir de um comentário sobre as duas aeromoças negras serviu para ilustrar e chamar atenção sobre uma armadilha que aqueles e aquelas que combatem o racismo precisam estar sempre vigilantes. Isso por que a luta antirracista pode nos “empurrar” para esse lugar esquizofrênico e paranóico que devemos estar sempre atentos e atentas.

 

Algo esquizofrênico e paranóico?

De acordo com o Wikipédia: “Esquizofrenia é considerada pela psicopatologia como um tipo de sofrimento psíquico grave, caracterizado principalmente pela alteração no contato com a realidade (psicose). Segundo o DSM-IV é um transtorno psíquico severo caracterizado por dois ou mais dentre o seguinte conjunto de sintomas por pelo menos um mês: alucinações visuais, sinestésicas ou auditivas, delírios, fala desorganizada (incompreensível), catatonia ou/e sintomas depressivos”. Para o mesmo site temos que: Paranoia se refere a um sentimento de desconfiança persistente, excessivo e mal fundamentado.”.

Engana-se quem pensa que o militante do movimento negro sofre de alguma esquizofrenia a cada vez que identifica, combate e/ou denuncia um caso de racismo. O ativista negro merece ser respeitado, da mesma forma como as pessoas que lutam pela questão ambiental, pelo fim das diversas formas de violência e violações de direitos humanos, dos que combatem a fome e tantas outras causas plausíveis à nossa sociedade.

 

Conseqüência desse aprisionamento seria não enxergarmos avanços, conquistas e novas perspectivas de luta.  Sigamos em busca de vitórias, parciais ou não, mas que sejamos vencedores nessa luta diária. Uma boa opção seria comemorar a cada etapa, sem a devida preocupação de que ainda temos muito a avançar! Sigamos em busca dessa "vitória maior", ou seja, em busca do fim do racismo e da ascensão socioeconômica do nosso povo.

 

Fonte das citações:

Esquizofrenia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Esquizofrenia  - acessado em 06/05/2013

Paranóia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Paranoia - acessado em 06/05/2013

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Comentário de veronica em 22 maio 2013 às 10:36

Parabéns pelos comentários, e pelo belo texto George, estaremos sempre pronto para batalha. O combate ao racismo é um dever de todos, não importa a cor nem a classe social.

Comentário de Jucy silva em 7 maio 2013 às 9:22

Bom dia  para todos!

Enxergar o racismo em tudo para nós militantes tem um significado diferente, ou seja não apenas constatamos o que sentimos, mas verbalizamos o que deve ser mudado na sociedade brasileira o que incomoda aqueles que não conseguem ver a perversidade do racismo.

Quando na semana passada constatei jovens negras  na companhia área  Azul, fiquei esperançosa   e acreditando que mesmo em passos lentos  alcançaremos...

Parabéns George pelo importante registro.

Comentário de Damião em 7 maio 2013 às 8:58

Mais uma vez, Bravo!

Excelente texto.

Me fez lembrar duas situações.

A primeira, quando estive em Angola, faz algum tempo, e no avião, TODA a tripulação era negra. 

A segunda situação foi quando assisti ao filme "DJANGO". Em determinado momento, quando os dois personagens entram numa pequena cidade, eles travam o seguinte dialogo, algo assim… : "estão todos nos olhando!" e o personagem negro responde: "É pq NUNCA viram um negro montado num cavalo antes".

Hoje, aquela mesma sociedade tem um presidente negro.

Translation:

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